[Review] Corra!


Um dos filmes de horror mais angustiantes do Ano!

Por Victoria Hope.

O filme "Corra!" (Get out) marca a estreia do comediante Jordan Peele no cinema de horror e é um dos tapas na cara mais necessários de 2017. O diretor já era conhecido na indústria por seu humor ácido e por sempre mencionar questões sociais como o racismo e o sexismo em seus skits de comédia, mas em Corra! temos a oportunidade de ver outro lado da mente genial de Peele.

Corra! conta a a história de Chris, um fotógrafo negro e norte americano que namora uma moça branca do subúrbio americano. Logo no início, percebe-se a quebra de diversos estereótipos, normalmente associados à personagens negros na indústria do cinema. Aqui o protagonista é  um homem sensível, envolvido com as artes, odeia violência, não é hipersexual e vive uma vida confortável em um elegante apartamento no centro da cidade.

É impossível falar mais sobre o enredo do filme sem contar spoilers, logo, limitarei-me a apenas relatar alguns fatos importantes para toda a construção da trama. 

A escolha do elenco foi primorosa e contou com o inglês Daniel Kaluuya, aclamado ator conhecido por seu trabalho em Black Mirror, que aqui dá um show de atuação mais uma vez e nos faz querer sair da cadeira do cinema a todo tempo. Destaque também para o comediante LilRel Howery, que interpreta o hilário melhor amigo do protagonista.   
 
Desde os primeiros minutos do filme, a questão racial é mencionada, a partir do medo do protagonista Chris (Kaluuya) em conhecer a família branca de sua namorada. Eu mesma, sou negra, norte americana, então minha visão sobre o assunto se assemelha a visão do personagem. 

Muitas vezes nos encontramos em situações muito parecidas na vida real, o que torna o tema ainda mais assustador, levando em conta que grande parte do enredo que leva a trama, acontece ainda nos dias de hoje, não apenas nos Estados Unidos, mas ao redor do mundo também. 

Para se falar de Corra! é preciso entender todas as mensagens subliminares a cerca do enredo. Cada cena foi minuciosamente pensada, cada mínimo detalhe calculado para retratar com veracidade todo o drama acerca do protagonista. 

Cena de Get Out / Divulgação
Alguns momentos são intimistas, outros beiram ao cômico, deixando clara toda a influência de Peele ao estilo de filmagem, que além de bela, traz um outro olhar para o universo do Horror. Durante todo o filme, notamos a "coisificação" de negros norte americanos e podemos perceber o verdadeiro significado da palavra apropriação cultural (literalmente mostrada sobre a forma de dominação do corpo, da moda e dos costumes negros). 

"O preto está na moda."-  É a frase dita por um magnata branco e idoso em uma das cenas mais tensas do filme, que serve como um divisor de águas para o protagonista Chris.

Em nenhum momento o filme esconde sua real mensagem, fazendo com que a plateia se sinta desconfortável nos momentos certos e em que em instantes, sinta toda a dor e angústia do protagonista. O filme te faz rir, mas ao mesmo tempo, traz a sensação de que algo muito errado está acontecendo.

Cena de Get Out / Divulgação

Um dos pontos mais geniais da trama foi o retrato dos antagonistas, que de início parecem apenas cidadãos comuns, quando na verdade escondem muito mais do que sua aparência denuncia.

Vemos aqui típicas famílias brancas liberais norte americanas, que votaram no Obama, que apreciam a música, arte e cultura negra, mas que ainda carregam dentro de si diversos preconceitos e engajam com micro agressões racistas contra o protagonista entre outros personagens negros a sua volta.

O filme mostra que o racismo é praticado por muitos, ainda que de forma velada e inclui um importante detalhe que para muitos pôde até passar despercebido: A participação de membros da comunidade asiática no sentimento anti-negro, assunto ainda tabu, mas importantíssimo de ser retratado.

Detalhes como a colheita de algodão (mencionada de modo subjetivo, mas genial),  a xícara de chá, também utilizada por damas brancas como 'sino' para chamar escravos e por fim, o cervo, conhecido como BUCK, termo pejorativo muito usado até os anos 50 nos Estados Unidos para chamar homens negros que não baixavam obedeciam seus senhores, enriquecem ainda mais a crítica social formada pela trama. 

Mais uma vez, todos esses pequenos detalhes fazem com que o filme seja uma obra prima moderna, que retrata uma ficção que poderia muito bem acontecer no mundo real (claro, que com algumas ressalvas).

Cena do filme / Dilvulgação
Vale lembrar que o filme apresenta algumas cenas de susto, que não são forçadas de forma alguma, porém, podem fazer você pular da cadeira. O título de horror ainda intriga, pois o filme mais assemelha-se mais ao conceito de suspense psicológico, mas entendo a necessidade do rótulo.

Corra! de Jordan Peele estreia em todos os cinemas do Brasil no dia 18 de Maio!

Nota: 5/5

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