Navigation Menu

Ad Block

Recent Posts

Sundance 2022 | Entrevista com Alli Haapasalo, diretora de Girl Picture

 

Por Victoria Hope

Essa edição do Sundance recebeu o incrível longa 'Girl Picture', dirigido por Alli Haapasalo, com roteiro de Daniela Hakulinen e Ilona Ahti, o filme é uma verdadeira carta de amor as mulheres em uma das épocas mais complicadas e maravilhosas de suas vidas: a adolescência. Com a mensagem de amor, respeito, sexualidade e descobertas, o filme conta a história de três garotas que estão navegando por suas vidas em meio a sonhos, alegrias e tristezas.

Girl Picture manifesta a energia jovial, força e a importância das amizades femininas, onde todas se apoiam, todas torcem umas pelas outras e sabem que podem contar uma com as outras nos momentos mais difíceis. De forma revigorante, Haaapalaso retrata com muita positividade e autenticidade, a vida desse trio de melhores amigas, interpretadas brilhantemente por Linnea Leino, Aamu Milonoff e Eleonoora Kauhanen.

Nessa quarta (26), tivemos a oportunidade de bater um papo com a diretora Ali sobre o filme e conhecer um pouco mais sobre o processo de criação desse projeto. Para conferir a crítica completa do filme, acesse aqui.


CONFIRA A ENTREVISTA

Amélie: O que a inspirou a contar a história de Girl Picture? 

Alli: A ideia inicial veio das roteiristas Ilona Ahti e Daniela Hakulinen, que foi quem fez o pitch dessa história para mim, mas acho que todas nós compartilhávamos a necessidade de contar a história de uma jovem mulher ou a história de jovens mulheres, que seria 'hoje', moderno, fresh, talvez com personagens mais complexas do que estávamos acostumadas a ver nas telas. 

Foi um dos nossos objetivos entregar uma história onde garotas estão no centro, onde elas vivem por conta própria, em seus próprios termos, onde  não são definidas por garotos ou adultos e onde garotas são livres para ser quem elas são, sem estarem em perigo ou serem diminuídas como pessoas, mas também queríamos fazer isso de uma forma divertida e emocionante, com leveza mas com essa força para essa representação das mulheres. 

Amélie: Quais foram os maiores desafios durante as filmagens?

Alli: A resposta chata é tempo e dinheiro (risos) porque nós tínhamos apenas 25 dias para filmar e tínhamos um budget pequeno, o que sempre é uma dor de cabeça. Existem coisas que queremos levar mais tempo fazendo e algumas cenas. 

Mas artisticamente falando, percebi que o maior desafio era confiar na história, porque se você focar na parte artística, é um filme menor em termos de plot, pouca ação acontece e tudo acontece em uma frequência que funciona mais como um estudo dos personagens e você precisa fazer certo e fazer de forma real em relação a como as garotas se sentem.

Quais são as emoções delas e como fazer a audiência se conectar com isso e eu acredito que o público apenas se conecta, se isso for genuinamente real, não pode ser apenas 'esteticamente' colocado ali.  É claro que eu acreditei na trama, mas fiquei me perguntando 'existe história suficiente?' Porque num filme de ação, você sabe que o roteiro tem que ser excitante do início ao fim, agora aqui como o roteiro é poroso, muito do que aconteceu teve que ser deixado para o set, o que é ótimo, mas também foi o maior desafio. 

Amélie: Eu amei o casal sáfico e adorei o fato de que elas simplesmente existiam no plot, sem a necessidade da fase de 'sair do armário'. O que pode dizer sobre isso?

Alli: Sim, esse foi outro aspecto importante para nós. Nós, tanto eu quanto as roteiristas, acreditamos que a orientação sexual deveria ser tratada de forma comum, sem que (ela) seja um problema, aliás, ela não deveria ser. Ponto. Eu não digo que não tenhamos que fazer histórias sobre 'sair do armário'. Histórias sobre 'sair do armário' são  muito importantes.

Eu tenho certeza que em vários lugares desse mundo, onde é extremamente perigoso revelar-se, então eu não estou dizendo tipo 'Ah, você sabe, chega disso, todos deveriam estar bem com isso', mas eu acredito que deveria existir um mundo nas telas, onde a orientação sexual não é um problema, onde é algo muito comum e aceito por todos, porque então isso existe ali, pode ser assistido por pessoas e pode empoderar essas pessoas que ainda não se sentem dessa forma, mas querem e eu gostaria de criar esse mundo. 

Amélie: Enquanto filmava, você conseguiu se ver em alguma das personagens? 

Alli: Não uma, mas todas as três (risos). Em vários aspectos, eu fui a 'boa aluna' como Emma, que era super focada na patinação, eu não fazia patinação artística, nunca fui atlética (risos), mas eu era uma garota muito focada, mas aí eu também sempre fui espalhafatosa e sempre me postei a frente, como Rönkkö e eu também era muito interessada nos garotos e em descobrir minha identidade, aprender tudo e também tem o lado da 'estranheza'.

Mas também acho que se uma dessas três garotas se tornasse uma diretora em suas vidas, essa garota seria Mimmi, porque ela é analista de filmes e que gosta de pensar criticamente em questões de cultura e sociedade e ter essas conversas. Ela também é interessada por artes visuais, então eu posso me identificar com todas elas. 

Amélie: Como diretora, qual seria o projeto dos seus sonhos para os próximos anos?

Alli: Meu trabalho dos sonhos seria pegar o roteiro no qual estou trabalhando faz anos com Carolina, uma roteirista aqui da Finlândia, e essa história seria sobre uma mulher que vive uma vida dupla. Eu praticamente pensei na história original há muito tempo atrás, eu ainda estava em Nova York, na faculdade de Cinema e isso já faz praticamente 8 anos, eu acho e nós estamos escrevendo ele desde então. A história já teve várias voltas, mas está ficando pronto e sinto que nós estamos prontas para ele, então esse seria meu sonho se tornando realidade. 

Amélie: Se você pudesse enviar uma mensagem para a Alli adolescente, qual seria?

Alli: Você não sabe agora, porque você ainda é nova e não tem a perspectiva, mas você não precisa resolver tudo sozinha imediatamente. A vida também irá levá-la, as coisas vão acontecer e você irá ganhar perspectiva. Nem tudo precisa acontecer agora mesmo, você pode acreditar na vida, ela vai te levar a lugares. 

Amélie: Um recado para as mulheres que sonham em trabalhar como diretoras nessa indústria? 

Alli: Acredite de verdade em você, acredite em quem você é. Seja você mesma. Esses são os melhores conselhos que eu tento dar a mim mesma até hoje. Você não precisa ser nenhuma outra pessoa, você precisa focar em quem é você mesma. 

Você pode nem sempre saber quem você é e você talvez precise descobrir isso e isso pode levar tempo, mas é claro, nós mudamos, mas tente, tente tocar em quem você é e acredite nisso. Não tente mudar quem você é, não acredite em que tenta te diminuir. 

Acredite que é boa, acredite que é inteligente, acredite que você é talentosa, porque você é e apenas, vai fundo, acredite em você mesma.

Sundance 2022 | Piggy

 


Por Victoria Hope

[TW: Gordofobia, Violência, Gore] 

Em 'Piggy', a diretora Carlota Pereda aborda uma violência social que é normalizada pela sociedade, usando o horror para mostrar os medos e angústias de uma adolescente que desesperadamente quer se encaixar no padrão. 

Com o verão à espreita em uma cidade rural da Espanha, Sara passa seus dias trabalhando no balcão de vendas do açougue de seus pais. O peso da garota é constantemente feito de chacota pelas garotas do bairro, que nunca perdem oportunidade de entrar no açougue apenas para praticar bullying com ela diariamente. 

Tudo muda quando após ser humilhada pelas meninas enquanto estava na piscina pública da cidade, Sara vê as garotas que a humilharam sendo brutalmente sequestradas por um estranho homem que as coloca em uma van. Quando a polícia começa a fazer perguntas para Sara sobre as vítimas, ela entra em um conflito interno, dividida entre revelar o que viu ou ajudar o estranho homem que a salvou da humilhação praticada pelas garotas.   

Piggy / Foto: Sundance

Vale o aviso inicial de que as cenas de bullying contra Sara são extremamente pesadas, em momentos a precisei pausar e respirar porque minha cabeça começou a doer de tanto chorar, mas a angústia inicial logo se transforma em algo muito maior.

Laura Galán, que interpreta Sara, entrega uma das melhores performances de todo o Sundance esse ano, ficando lado a lado com nomes fortes como Regina Hall, Sterling K Brown e Anna Diop. Esse filme pode ser considerada uma homenagem a 'Carrie', porém é ainda mais brutal, onde o sequestrador e 'vilão' é de longe a coisa menos assustadora de toda história. 

A diretora triunfa ao fazer o público ver o mundo através dos olhos de Sara, nesse conto coming-of-age as avessas que prepara o público para um final completamente imprevisível. Com isso em mente, "Piggy" é sem dúvida um dos maiores lançamentos da sessão Midnight no festival desse ano. 

NOTA: 10/10 

Sundance 2022 | Ressurection

 

Por Victoria Hope

[TW: Stalking] Em 'Ressurection', segundo longa do diretor e roteirista Andrew Semans lançado no Sundance, Margaret (Rebecca Hall) tem uma vida de sucesso bem organizada, balanceando perfeitamente as demandas de sua carreira e a maternidade solo de sua forte e independente filha Abbie. 

Mas esse equilíbrio todo muda a partir do momento em que ela tem o vislumbre de um homem que ela reconhece imediatamente, alguém que marcou seu passado. Um tempo depois, ela o encontra novamente. Margaret começa a ver David (Tim Roth) por todos os lados e seus encontros logo começam a parecer que não são apenas mera coincidência.

Lutando contra seu medo crescente, Margaret precisa confrontar esse monstro do qual ela conseguiu escapar das garras há duas décadas atrás, que retornou agora para terminar o que começou. Com a mistura de drama e horror 'Ressurection' explora como a vida equilibrada de uma mulher pode cair aos pedaços quando seu passado começa a assombrá-la. 

Rebeca Hall entrega uma performance brilhante e chega a ser impossível não sentir o mesmo frio na barriga que a protagonista Margaret ao notar a presença assustadora daquele homem que tanto a fez mal no passado, mas não fosse a atuação dela, o filme quase impossível de assistir, principalmente devido a bizarrice durante o plot twist. Esse é definitivamente é um dos filme mais divisivos desse ano no festival.

Aos poucos, descobrimos que Margaret na verdade foi vítima de um relacionamento abusivo no passado quando tinha apenas 18 anos e começou a ter um relacionamento com um homem mais velho, homem este que trabalhava na mesma universidade que seus pais em Londres. O que era sonho, se torna um pesadelo quando a jovem garota percebe que David, não era um príncipe, mas sim um lobo na pele de cordeiro.

NOTA: 7/10

Sundance 2022 | Honk for Jesus, Save your Soul

 

Por Victoria Hope

Nessa estreia das gêmeas Ebo, Adamma Ebo (diretora e roteirista) e Adanne Ebo (Roteirista), acompanhamos a adaptação do curta de mesmo nome 'Honk for Jesus, Save your Soul'.  Na trama, sendo uma orgulhosa primeira dama de uma mega igreja Batista do Sul, Trinitie Childs (Regina Hall) carrega a imensa responsabilidade em seus ombros: cuidar de sua igreja chamada Wander to Greater Paths, que antes servia de congregação para milhares.

Mas após um escândalo sexual envolvendo seu esposo, o Pastor Lee-Curtis  Childs (Sterling K. Brown), a igreja é forçada a fechar as portas temporariamente, Trinity está sofrendo as consequências e lutando para reconstruir sua congregação, além de reconciliar sua fé de qualquer forma e fazer o melhor retorno que a religião já viu.

Cercados por luxo em sua mansão recheada de peças de designers, o casal sempre foi abastado devido ao dinheiro que recebiam de seus fiéis, mas agora com a reputação de sua igreja manchada, eles terão que encontrar uma forma de recuperar todos os frequentadores de volta nessa dramédia. 

Honk for Jesus, Save your Soul / Foto: Sundance

Filmado parcialmente em um formato de documentário falso, a sátira do filme tem foco em apontar o dedo para religiões que lucram em cima da fé de seus seguidores e como algumas lideranças religiosas criam uma imagem de fachada para esconder coisas mais graves do que qualquer um poderia imaginar.

Com performances absolutamente impecáveis e hilárias de Regina Hall e Sterling .K Brown, o filme com certeza irá gerar um burburinho, principalmente quando estrear nos cinemas americanos. Tentando driblar a negatividade enquanto as notícias começam a ficar mais intensas, o casal e principalmente a primeira dama, veem sua vida desmoronar.  

A mídia começa a questionar o motivo pelo qual Trinitie continua defendendo seu esposo, mesmo após um caso tão grave, colocando em pauta justamente como muitas pessoas envolvidas nos escândalos, vão continuar defendendo a figura de autoridade até o fim, custe o que custar. O casal que parecia tão perfeito, na verdade esconde muito mais do que aparece na superfície, mas até quando todo esse teatro irá durar? 

NOTA: 10/10

Sundance 2022 | Girl Picture

 

Por Victoria Hope

Girl Picture é o coming of age e segundo filme solo de Alli Haapasalo que teve estreia no Sundance desse ano e conta a história de três amigas muito diferentes, mas que compartilham os mesmo sonho: encontrar a felicidade. As melhores amigas Mimmi e Rönkkö trabalham na cantiga após o expediente da escola, servindo smoothies e lá, enquanto servem clientes, trocam histórias sobre suas frustrações amorosas e desejos em termos de amor e sexo. 

Mimnmi, uma arruaceira punk do grupo, inesperadamente começa um romance com Emma, uma patinadora profissional que está treinando para o campeonato europeu e ainda tem dificuldades em acreditar em compromissos, devido a uma experiência ruim no passado.

Enquanto isso, a incansável Rönkkö adora participar de várias festas teens, tropeçando por vários encontros amorosos com diversos rapazes, na esperança de encontrar o rapaz ideal para atingir prazer e felicidade. 

No longa, em nenhum momento parece que estamos espiando, tudo parece acontecer de acordo com o ponto de vista das personagens, como se estivéssemos nos pés delas, passando pelas mesmas situações e a química entre as três atrizes, definitivamente faz tudo parecer muito real. 

Girl Picture manifesta de forma positiva, as amizades entre garotas adolescentes, se esquivando daquele mesmo padrão cansativo de rivalidade, já que no longa, todas as personagens querem o bem uma das outras e torcem para que todas alcancem seus sonhos. 

A formação do casal lésbico tem uma construção incrível de se acompanhar, sem cair no clichê da história de obrigar as personagens a 'saírem do armário' para as famílias e todas as atrizes entregam tudo o que o público irá amar em termos de atuação, enquanto as roteiristas, Daniela Hakulinen e Ilona Ahti estão presentes no filme, trazendo a complexidade das personagens à flor da pele através do roteiro. 

Girl Picture / Foto: Level K

NOTA: 10/10 

Sundance 2022 | Nanny

 

Por Victoria Hope

No suspense sobrenatural 'Nanny' dirigido por Nikyatu Jusu e brilhantemente estrelado por Anna Diop, conhecemos a história de Aisha, uma imigrante senegalesa sem documentação que encontra um emprego de babá na casa de um rico casal em Manhatan. Enquanto ela  facilmente ganha a afeição de Rose, filha do casal, ela acaba se tornando um obstáculo para o casamento de seus chefes. 

A mãe é controladora enquanto o pai, é tranquilo e até mesmo 'woke'. Assombrada pela ausência de seu filho que ela deixou no Senegal, Aisha espera que seu novo emprego consiga pagar suficiente pra ela conseguir sustentar sua família e trazer o garoto para a America, mas conforme a chegada do garoto se aproxima no país, uma presença sobrenatural começa a invadir os sonhos da babá e sua também sua  realidade. 

Com inspiração no folclore africano do Oeste e um pouco de referências à vida pessoal da própria diretora como imigrante, o longa que está competindo na categoria de Filme Dramático dos EUA, fala sobre a força e importância dos imigrantes na América, mas também examina a vida e o legado que a babá Aisha gostaria de deixar em seu legado. 

Nanny / Foto: Sundance

No início o trabalho parece um sonho, a criança se sente feliz, Aisha é bem tratada pela família e está encontrando um novo amor, mas logo, tudo muda ao ela perceber que tudo não passa de uma fachada para essa família, que está se quebrando aos poucos. Os pagamentos de Aisha começam a atrasar, porque a mãe de Rose está trabalhando mais do que nunca, agora que desconfia que seu ex-esposo tem outra mulher e enquanto a babá sabe quem é outra mulher do patrão, ela prefere se manter calada sobre o que viu. 

Tudo muda ainda mais quando a babá  avista uma misteriosa mulher no rio da cidade, que pode ser a presença da sereia Mami Wata, uma divindade africana da fertilidade e em seguida, começa a perceber a notar também uma outra divindade africana à espreita, Anansi, o deus aranha. Enquanto a protagonista teme pelas figuras, uma sábia idosa, mãe do namorado de Aisha, revela que essas duas figuras representam a opressão de um povo, são símbolos que podem trazer uma mensagem importante.

O final é de cortar o coração, mas mostra mais do que nunca, a importância de entender os chamados espirituais que muitas pessoas recebem, mas tendem a ignorar os sinais. A revelação de que as mães imigrantes são renegadas ao sonho americano até o fim, é extremamente dolorida e pontual. 

NOTA:10/10

Sundance 2022 | Spider (Short Film)

 

Por Victoria Hope

"É tudo uma diversão até alguém perder um olho", essa frase marca abertura do curta "Spider", que está na lista especial de Anniversary Shorts do Sundance nesse ano. Em um curta extremamente rápido mas certeiro, um casal tóxico briga enquanto dirige pela estrada. 

O namorado está determinado a ganhar a namorada de volta, mas é claro que ele não resiste a pregar uma peça na garota, para tentar fazê-la rir. Ele pega diversos bombons, flores para presentear a mulher e uma aranha de brinquedo para fazer a pegadinha, que ele tem certeza que irá melhorar o humor da namorada. 

Mas tudo dá errado quando a garota demonstra ter fobia de insetos e ao sair assustada do carro, é atropelada por um carro em alta velocidade. O namorado, em choque não sabe o que fazer, mas espera a ambulância chegar. Em um plot twist, a mesma aranha de plástico no chão, assusta um dos paramédicos que sem querer acaba atingindo o namorado da garota bem no olho. O curta prova que o carma existe e que o que ocorreu com ele, foi ele mesmo quem buscou, já que a leu da causa e efeito existe. 

NOTA: 9/10