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[Review] Mãe! Filme de Darren Aronofsky

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Por Victoria Hope

Provocante e assustador, o filme 'Mãe!' conta a história da criação do Mundo 


Atenção: Contém Spoilers

Darren Aronofsky (Cisne Negro) nunca decepciona no quesito da provocação e na escolha do elemento surpresa em seus filmes, não é a toa que 'Mãe!' era um dos filmes mais aguardados durante o Festival de Cinema em Toronto.

Vale começar a crítica dizendo que 'Mãe!' não é um filme fácil de ser digerido. Ou melhor dizendo, ele precisa ser saboreado aos poucos, mas assim como uma refeição em um restaurante ao qual você nunca visitou antes, nem sempre o prato que lhe será servido será  uma refeição fácil de provar. 

Também é importante dizer que mais do que um filme dramático, 'Mãe!' é um filme bíblico e posso dizer isso sem medo algum, apesar de ser budista e não conhecer tantos preceitos da religião católica.

Do início ao fim, o filme passa uma sensação de claustrofobia, com câmeras que giram ao redor da personagem de Jennifer Lawrence, em uma ambiente que parece o verdadeiro paraíso na Terra, mas que esconde segredos que fariam até o maior vilão sentir arrepios. 

A todo momento, sentimos o desconforto sentido pela personagem de Jennifer. Sentimos toda sua angústia, raiva e momentos de desespero, tudo isso graças a primorosa escolha de cortes e filmagens, bem como a atuação de J.Law, que aqui, diga-se de passagem, foi uma das melhores de sua carreira. 

Javier Bardem também está excelente no filme, demonstrando uma aura e força que chega a ser de outro mundo, na verdade, sua presença traz ainda mais peso para a trama. 

Nesta história, conhecemos dois personagens, a esposa chamada 'Mãe' (Jennifer Lawrence) e marido, chamado 'Ele'. O casal vive nesse pequeno paraíso, uma casa isolada no meio de plantações e bosques verdes. Ele é um poeta renomado que está passando por um grave 'writer's block', que é o que chamamos quando um escritor não consegue inspiração para escrever de jeito nenhum e ao invés de criar, procrastina sem nunca escrever uma linha sequer.

Enquanto Ele continua inquieto para escrever seu próximo poema, Mãe continua criativa, sempre 
mudando algo na casa, reformando as paredes, pintando, organizando tudo. Ela parece uma mulher feliz, que está ansiosa para que seu marido escreva um novo sucesso.

Ele sofreu muito no passado, perdeu sua casa para um incêndio e tudo o que sobrou foi uma curiosa pedra preciosa, que ele encontrou no meio dos escombros. Preste atenção nesta pedra, pois ela será essencial ao longo do filme. 

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Javier Bardem é um poeta que luta para encontrar inspiração / Paramount

Mãe apoia seu marido incondicionalmente, mostrando até mesmo certa devoção ao trabalho do dele, enquanto Ele, pouco se importa com o trabalho duro da esposa, mas interessado em criar seu próximo poema de sucesso. 

Essa história possuía todos os elementos para um romance ou um suspense relacionado a uma esposa que não é 'amada' enquanto seu marido, um 'gênio incompreendido', batalha para amaciar o próprio ego e conseguir fama e sucesso. Só que é a partir daí que a trama sofre uma grande reviravolta. 

Vale ressaltar faz parte do gênero 'Dark Fantasy', então, muitas alegorias, criaturas e personagens, representam essa fantasia. Coisas que não parecem reais, na verdade estão mais do que vivas nessa história. 

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Jennifer Lawrence mais visceral que nunca no papel da 'Mãe' / Divulgação 

A todo momento, durante o primeiro ato, somos lembrados da diferença de idade do casal, pois Mãe é muito mais jovem que Ele, só que vale o aviso, existe um motivo importante por trás dessa diferença gritante e logo mais iremos entrar nesse assunto.

Mãe é muito mais nova e ingênua, porém tem muita energia. Ela é a pessoa que mais trabalha dentro da casa e mesmo assim, continua a ser negligenciada pelo marido. É a partir daqui que a ficção toma forma e notamos que Mãe é capaz de ouvir o 'coração' da casa. Ela diz que seu sonho é criar um pequeno 'Paraíso'  para ela e seu marido. 

Essa casa, representa o próprio corpo da Mãe; é como se ambas estivessem vivas e respirando ao mesmo tempo. Você deve estar se perguntando: Por que será que ela está em sintonia com sua casa, mas seu marido não, se ambos moram lá sozinhos, completamente isolados, sem ninguém na vizinhança?  

Tudo na vida desse casal muda quando um estranho Homem (Ed Harris) encontra essa casa, dizendo ser um médico que busca por abrigo. Esse novo personagem, chamado Homem, se auto-convida para ficar na casa deles e apesar de Mãe não concordar em ter um estranho em casa, seu marido, Ele, insiste que acolham a visita, principalmente porque o Homem demonstrou estar doente.

Mãe desconfia do estranho visitante logo de início, trocando farpas com ele quanto ao fumo, pois em seu 'paraíso' (casa), ninguém pode fumar. É claro que a visita ainda brinca, mas não deixa de fumar no local, mostrando seu total descaso para com a mulher.

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Ed Harris representando o 'Homem' / Divulgação

Enquanto o Homem sofre com crises tosses horríveis, Ele, ao invés de dar atenção à sua esposa que de sente sozinha, sempre está ao lado do Homem. Ele ajuda o Homem a se curar, segurando sua cabeça enquanto o homem passava mal no banheiro, caminhando com o Homem para que o visitante conseguisse respirar um ar mais puro.

Mãe não gosta nem um pouquinho da visita, que logo se acomoda em sua casa, pegando comida sem permissão, sentando-se onde não deve. Ela já estava exausta da visita indesejada, quando de repente, a campainha toca mais uma vez. 

Por que a campainha estava tocando em uma casa isolada? Até então nunca ninguém havia visitado o casal. Então qual o motivo das visitas repentinas? Ao abrir a porta, Mãe se depara com uma Mulher 
(Michelle Pffeifer), a esposa do Homem desconhecido, que misteriosamente descobriu a localização da casa. 

A Mulher é uma moça bem mais velha, porém mais sensual, que ama seu marido acima de tudo e mal chega na casa, mas já logo dá pitacos na vida amorosa de Mãe, provocando-a sobre a diferença de idades entre Mãe e seu marido, provocando-a Mãe, porque a mais jovem não tem filhos e parece frígida. 

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Os personagens 'Mulher' e 'Homem' durante uma cena de provocação / Divulgação

Não poderíamos nos estender ainda mais na trama, pois a partir daqui, tudo muda completamente, mas vamos à explicação de todas as alegorias mostradas até agora. Antes da cena de amor entre o Homem e a Mulher, este casal de visitas indesejadas adentra no quarto do poeta, mesmo que sobre protestos da 'Mãe' e acabam por pegara pedra preciosa do escritor, justamente uma peça que o próprio pediu para que nenhum deles tocasse.

Até mesmo Mãe disse para os visitantes não entrarem lá e não tocarem na pedra, mas eles a tocaram mesmo assim e a partir daí, o clima sombrio e caótico se instala dentro casa. Vemos os dois filhos do Homem e da Mulher invadir a casa do poeta. Um dos irmãos mata o outro, vemos pessoas estranhas que passam a entrar na casa sem permissão alguma da 'Mãe', vemos fãs do escritor entre outros mil detalhes que deixaremos de fora.

O mais importante é saber que a vida dos dois nunca mais será a mesma a partir dali. Você notou quem são os personagens da trama até agora? Vamos voltar ao lado religioso da história. 

Ele representa Deus, o criador do mundo, que fica inquieto enquanto não estiver criando. Mãe é ninguém mais ninguém menos que a Mãe Natureza, a Terra, uma das primeiras criações de Deus, daí a diferença de idades, pois a Natureza ainda é muito nova. 

Homem e Mulher são Adão e Eva, inclusive, vale lembrar que o Homem está ferido no início da trama, em um de seus pulmões, antes de ser curado por Ele, mas no segundo dia após visita do Homem, surge a Mulher do Homem.. 

Os dois filhos do Homem e da Mulher representam Cain e Abel, os irmãos que se odeiam e eventualmente se matam (apenas um deles é morto). Os fãs do escritor Ele, na verdade são seus fiéis seguidores e ao longo do filme, você definitivamente irá entender o porquê.


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Há quem diga que o filme foi uma enorme crítica a instituição religiosa e até mesmo ao próprio Deus, pois o que vemos aqui, representando o criador, é um 'homem cruel', que pouco se importa com a Terra (sua esposa), mas que almeja ser adorado, ter mais fiéis e receber mais presentes e que de certa forma, possui personalidade, assim como os Deuses Gregos. (Isso lembra American Gods). 

É incrível ver como os fãs (fiéis), passam da fase de admiração para a fase de adoração em questão de segundos e logo depois, vemos fiéis distorcendo as palavras do poema e brigando entre si. Isso é uma alegoria genial para a separação da sociedade por religiões. Vemos pessoas na cena se matando, por causa de suas interpretações diferentes das palavras do poema.

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Podemos ir até mesmo além na trama e enxergar a história da Mãe como uma mulher. Ela é uma mulher, que sofre calada, que é tratada como capacho não apenas por seu marido, mas também pela sociedade. É uma mulher que não tem voz, pois toda vez que pede um favor, as pessoas não a ouvem, principalmente seu marido.

Quando a personagem Mãe, finalmente engravida, Ele pouco liga, pois seu poema virou um sucesso mundial e agora ele tem fãs por todo mundo. Logo no primeiro encontro da Mãe com a Mulher, percebemos como a sociedade impõe a maternidade para as mães.

Os fãs e até mesmo o Homem e A Mulher, respeitam e endeusam apenas Ele, enquanto Mãe, fica a ver navios. Isso é definitivamente uma alusão a impotência da mulher na sociedade e você, como expectador se sente da mesma forma que a personagem Mãe.

Será que se ela der um filho ao poeta, Ele finalmente vai valorizá-la? 


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No filme temos até uma cena fortíssima de linchamento, alguns dias após o parto. A criança é tratada como um objeto de consumo para os 'fiéis', enquanto a mãe é apedrejada, leva chutes e socos, ouvindo palavras como 'Vadia! Piranha, sua vaca! Você está morta! Batam nessa doida! Sua rapariga! Batam nessa porca!"

É uma das cenas mais fortes e chocantes do filme, que mais uma vez, fazem alegoria ao tratamento que a sociedade dá à todas as mulheres, principalmente aquelas que acabaram de dar a luz. A partir do momento em que o bebê nasce, a Mãe passa a ser tratada como escória.
Mãe! não é um filme para todos, não é fácil de ser entendido, mas se a intenção era provocar, Darren conseguiu fazer isso de forma primorosa!

Nota: 4/5

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