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Mostra de SP | Primetime

 

Por Victoria Hope

Chris Hansen é um herói ou vilão? Essa é a dúvida que paira sobre o aclamado "Primetime" da A24 que teve sua estreia durante a Mostra de Cinema de SP e vale lembrar que o filme não terá novas sessões, pois estará disponível em streaming e nas bibliotecas digitais.

Na trama, acompanhamos o apresentador Chris Hansen, que ficou conhecido por seu programa de sucesso chamado "To Catch a Predator", com uma proposta de capturar ped*filos antes dos criminosos realmente agirem e por muito tempo, supostamente o programa funcionou, mas as implicações de justiça com as próprias mãos seguem ainda gerando impacto até hoje na mídia norte-americana.

Muitos viam a figura de Chris como uma espécie de herói, já que seu trabalho era pegar predadores, mas um dos grandes problemas da vida real, foi o fato de que muitos que foram "pegos" pelo programa, sequer foram presos na vida real devido à falta de evidências e é a partir daí, que de herói, rapidamente o rapaz se tornou "vilão", pois de acordo com parte do público, tudo o que Hansen queria era audiência custe o que custar e não justiça verdadeira.

Primetime / Foto: A24

O filme já inicia em ritmo frenético, muito semelhante à outro longa da A24 intitulado "Jóias Brutas". Enquanto Chris se prepara para mais um programa, o público é apresentado à toda a equipe da produção e seu dia a dia, desde a escolha de cenários à treinamentos para lidar com possíveis criminosos que pretendem fugir.

Robert Pattinson entrega mais um grande trabalho, repleto de nuances tal qual como o Abutre de Jake Gyllenhaal, mas quem verdadeiramente rouba a cena é Skyler Gisondo no papel do jovem ator de babyface que é escolhido como isca para os predadores.

Em alguns momentos, nota-se uma tentativa de transformar Dan Plumb (Gisondo) em uma espécie de pupilo de Chris e isso funciona pois mostra como o ciclo de querer fazer justiça com as próprias mãos pode ser passado de geração em geração.

Primetime / Foto: A24

Todas as sequências para pegar predadores são muito fortes, principalmente quando pensamos que o personagens são inspirados em pessoas da vida real, mas ao mesmo tempo, o longa falha em explorar um pouco mais sobre a vida conturbada do apresentador. 

Tudo isso traria apenas mais nuances para o personagem, nos permitindo entrar em sua mente um pouco mais ao invés de apenas observamos sua saúde mental expiralando. O ritmo se torna cada vez mais frenético até o final avassalador, já conhecido por pessoas que assistiam ao programa na TV. 

Em nenhum momento Primetime apresenta uma resposta concreta sobre a verdadeira natureza das intenções de Chris. Se ele fez o bem ou o mal, apenas sua moralidade poderá dizer, mas quando a realidade e a ficção se misturam, cabe o argumento do perigo em romantizar e criar sensacionalismo ficcional sobre casos criminais da vida real.

NOTA: 8/10 

Mostra de SP 2026 | I Love Boosters

 

Por Victoria Hope

I Love Boosters é tudo o que eu queria e muito mais. Esse é um filme com ideias (talvez até demais), estilo em abundância, atitude, figurinos de tirar o fôlego e um excesso de exuberância muito necessário para a história que está sendo contada. 

O filme funciona num ritmo e cadência que podem ser desafiadores ou difíceis de acompanhar caso as pessoas não estejam acostumadas com o cinema de Boots Riley, mas quem gosta de cinema caótico e revolucionário, político e opulento assim, vai receber um banquete.

Essa é uma comédia maximalista que tem de tudo, desde temas políticos à comédia pastelão, ficção científica, stop-motion e muito mais, sem falar na sátira ácida à exploração capitalista do mercado, principalmente da indústria da moda.

I Love Boosters / Foto: Universal Pictures

Na trama, acompanhamos um grupo de Boosters, jeito mais chic de dizer que são ladras, que roubam peças de roupa luxuosas para revender para a classe trabalhadora periférica da cidade, bem ao estilo Robin Hood às avessas, já que apesar de deixarem o luxo acessível, elas ainda se beneficiam das vendas, pois precisam de dinheiro para se sustentar e sobreviver como todo mundo.

A "Velvet Gang", grupo de boosters, é composta por Corvette (Keke Palmer), Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Paige) e juntas, todas tentam alimentat o sonho de Corvette, que é criar suas próprias roupas, já que uma de suas maiores inspirações é a estilista Christie Smith (Demi Moore), mas tudo muda quando Corvette percebe que sua super heroína não passa de uma charlatã e que ainda rouba designs de pessoas como a própria Corvette. A partir daí é guerra declarada entra a indústria da moda e as boosters. 

O filme tem diversas mensagens muito relevantes, mas a maior de todas elas é a sacada brilhante unir os entusiastas de Oakland (Boosters) aos operários de fábricas chinesas, utilizando o artifício do portal para transportá-los de um lado para o outro, eliminando, literalmente, a distância entre as culturas.

Boosters, enuanto classe trabalhadora, se unirem à trabalhadores das fábricas chinesas seja a ser poético, já que constitui um gesto sutil, porém importante, de solidariedade entre diferentes culturas, outra mensagem extremamente importante nesses momentos em que estamos vivendo.

NOTA: 9/10

Mostra de SP 2026 | A Condessa Sangrenta

 

Por Victoria Hope

Finalmente vampiras lésbicas! Viena transforma-se em um terreno camp recheado de crueldade e desdém aristocrático em uma abordagem de humor ácido sobre a lenda de Báthory com uma Huppert perfeitamente talhada para o papel dessa protagonista.

No drama "A Condessa Sangrenta", Isabelle Huppert interpreta a Condessa Elizabeth Báthory, nobre húngara do século XVI e assassina em série, lendária por ter o sangue de centenas de jovens em suas mãos e de fato, em todo o seu corpo numa tentativa desesperada de alcançar a juventude eterna. 

A personagem já foi retratada anteriormente por atrizes como Ingrid Pitt, Delphine Seyrig, Paloma Picasso, Julie Delpy, entre outras; contudo, certamente nenhuma delas estava tão qualificada quanto Huppert, que, vale ressaltar, não altera nem um pouco sua habitual altivez para o papel.

E tem algo ainda mais diferente nessa nova adaptação, pois aqui, a Condessa Báthory é uma vampira que retorna à Viena dos dias atuais, surgindo inicialmente enquanto desliza pelos esgotos como se estivesse em uma barcaça real.

Acompanhada por sua criada vampira, Hermine (Birgit Minichmayr), ela decide reencontrar parentes, incluindo seu sobrinho Rudi (Thomas Schubert), um membro tímido e frouxo do clã dos Báthory, que já pertence aos mortos-vivos e é acompanhado por seu terapeuta, Theobald (Lars Eidinger). 

Rudi é um entusiasta das belas-artes que acredita ter encontrado, em uma pintura, indícios de um lendário texto poético, envolto em tanta melancolia que, caso um vampiro derrame lágrimas sobre ele, poderia ser curado da imortalidade.

Mas aqui a Condessa Báthory, naturalmente, não demonstra qualquer interesse nisso e parte em busca de saciar sua sede; logo, a cidade é tomada pelo pânico diante das notícias de um assassino em série à solta. Esse é um filme delicioso de assistir para quem sempre ansiou por protagonistas femininas em longas vampirescos, principalmente onde o homoeroticismo e a elegância tomam conta. 

NOTA: 8/10

Mostra de SP 2026 | Uma Família

 

Por Victoria Hope

Uma Família, drama do diretor holandêes Mees Peijnenburg, acompanha uma batalha pela custódia entre dois pais divorciados a partir da perspectiva de seus filhos de 14 e 16 anos, algo que é algo bem raro de ser mostrado, já que na maioria das vezes, tramas assim mostram apenas o lado dos adultos, ou pais em questão, deixando a perspectiva das crianças de lado.

Os primeiros minutos do filme são dedicados a Nina (Celeste Holsheimer), uma jovem loira de 16 anos que gosta de dançar, e à sua namorada, que incusive parece seu clone, cuja família nuclear é, naturalmente, impecável. 

O irmão mais novo de Nina, Eli (Finn Vogels), protagoniza o segundo capítulo do filme, um pouco mais curto, embora com algumas cenas que se sobrepõem, sugerindo que Nina não tem conhecimento de tudo o que acontece na vida do irmão caçula, que aparentemente, não gosta de falar com ninguém.

Enquanto o público observa a vida dos dois irmãos de forma separada, nota-se que eles não parecem frequentar a escola, mas também não vivem aquela atmosfera típica de férias de verão, em que o tempo parece se estender ao infinito e nada acontece. 

Na verdade, os pais (interpretados por Van Houten e por Pieter Embrechts) garantem que algo diferente aconteça todos os dias, seja um passeio diferente, alguma festa com os amigos ou algum concerto. Ao mesmo tempo em que os pais tentam não colocar a pressão do divórcio nos filhos, isso acaba acontecendo.

E um dos pontos mais positivos do filme é que Peijnenburg não atribui a culpa da situação diretamente a nenhum dos pais; ambos se apegam aos filhos como um último vestígio de normalidade após o que deve ter sido uma separação extremamente dolorosa, mas ainda assim, nada disso é suficiente pra transformar essa em uma história interessante.

Faltam mais cenas entre os pais para que o público entenda de fato os conflitos em toda sua totalidade, faltam mais detalhes no roteiro para nós realmente sentirmos uma proximidade com esses dois protagonistas adolescentes também, então apesar de ser um projeto bonito, ainda depende de uma substância maior e um corpo maior para fazer o público realmente se importar com essa família. 

NOTA: 6.5/10

Mostra de SP 2026 | John Leguizamo de A Odisseia, Moulin Rouge estará na 50ª edição para homenagem

 

Por Victoria Hope

Uma grande surpresa para os fãs! Vencedor do Special Tony Award e do Primetime Emmy Award, o ator John Leguizamo vem a São Paulo para a 50ª Mostra. Na segunda-feira, 26 de outubro, ele participará de uma masterclass e receberá, pelo conjunto de sua carreira, o prêmio Leon Cakoff das mãos da diretora da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Renata de Almeida.

Considerado um dos atores mais versáteis e camaleônicos do cinema, TV e teatro, John Leguizamo ganhou destaque na década de 1990 com performances marcantes como no filme Para Wong Foo, onde interpreta a drag queen Chi Chi, além de seu papel icônico como Príncipe dos Gatos, Tibaldo, na genial versão de Romeu e Julieta de Baz Luhrmann, além de seu papel emocionante como o pierrot em Moulin Rouge – Amor em Vermelho, mas é claro que seu trabalho na dublagem é conhecido, já que o ator é a voz original do hilário Sid da franquia Era do Gelo e também pela voz de Bruno Madrigal em Encanto.

Leguizamo também estrela A Odisseia, de Christopher no papel de Eumeu, fiel amigo e servo de Odisseu, vivido por Matt Damon e também faz parte do elenco de O Exorcista: Mártires de Mike Flanagan, filme que estreia 12 de março de 2027 nos cinemas.

Mostra de SP 2026 | Fjord

Por Victoria Hope

E quando a minoria é realmente a minoria religiosa, mesmo que não pareça? Essa é uma das perguntas centrais de Fjord, longa vencedor da Palma de Ouro de Cannes esse ano estrelado pelos indicados ao Oscar Sebastian Stan e Renate Reinsve.

Na trama, acompanhamos uma família conservadora e católica que vive na Noruega vivendo sua vida tranquilamente até que um evento em particular destrói a relação dos pais com os filhos. Sebastian Stan interpreta um romeno chamado Mihai, casado com uma norueguesa chamada Lisbet (Renate Reinsve)
e apesar das diferenças culturais, ambos se dão muito bem.

O casal decide se mudar para a bela e remota vila onde Lisbet nasceu, pois Mihai, que é um engenheiro de software qualificado, consegue ali um emprego na área de TI. Além disso, a região conta com uma forte comunidade religiosa cristã, outro grande atrativo para o casal, que segue o cristianismo conservador fundamentalista de forma bastante rigorosa. 


Apesar da religião, eles são recebidos calorosamente por seus vizinhos (que não são cristãos): o diretor da escola local e sua esposa e também são abraçados por toda a vila, que é bem conhecida por ser um dos locais mais progressistas da europa, principalmente durante os anos 80. 

O filme começa com um momento inquietante e ambíguo: Mihai claramente acaba de aplicar algum tipo de punição à filha adolescente, que, na sequência, é obrigada a dar-lhe um abraço de penitência. A equipe da escola nota que as crianças apresentam marcas e hematomas e começa a desconfiar que talvez as crianças, incluindo a menina, estejam sofrendo maus tratos e é aí que a política, religião e aspecto cultural começam a se chocar.

Lá na Noruega, violência contra crianças é crime passível de retirada das crianças da casa dos pais para que sejam entregues ao conselho tutelar e é justamente com isso que a família de Lisbet e Mihai terão que passar. Afinal, um "tapinha" não é nada demais ou é apenas uma violência tão normalizada que seus perpetuadores veem isso como algo comum?


O tempo todo o filme se apresenta quase como um teste moral dos expectadores, porque por mais que sejamos contra a violência perpetuada contra crianças, será que realmente foi aquilo que aconteceu ou será que a cidade já estava pronta para acusar aquela família sem provas, principalmente por eles serem conservadores? Pois sim, o filme também deixa claro o preconceito da população perante as crenças da família de Mihai, mesmo que eles sejam conservadores.

De forma brilhante, o diretor consegue fazer a audiência sentir empatia pelas crianças que supostamente estão acusando os pais de violência, mas ao mesmo tempo consegue também deixar o sentimento de dúvida sobre o preconceito que os pais estão passando. Afinal, são eles culpados ou não? Até que ponto as visões sociais e políticas das pessoas podem ser objetos de investigação

E é claro que a xenofobia, também tem papel aqui, já que grande parte da perseguição que Mihai sofre por parte da cidade inteira, para muito além da religião, é também o fato de ele ser romeno e vale lembrar que na Europa, há nítido preconceito contra o povo da Romênia, logo, entende-se que qualquer ato de existência de Mihai já é visto com desprezo por aquela sociedade. O final é de tirar o fôlego, afinal, eles nunca poderão ser livres enquanto estiverem ali.

NOTA: 9/10