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Music da Sia tem crip-face e faz desserviço à comunidade autista

Por Victoria Hope

Começo esse artigo dizendo que sempre adorei o trabalho de SIA como compositora e produtora musical, porque seus projetos sempre saíram fora da caixa e seus collabs com artistas como Rihanna, Diplo, Labrinth e muitos outros, foram bem memoráveis.

Quando a imprensa noticiou pela primeira vez que SIA ia se aventurar atrás das câmeras, fiquei animada, afinal, ela sempre foi dona de uma mente criativa, mas a partir do momento em que vi qual seria o tema e quem representaria a protagonista, foi aí que minha admiração pela cantora, desapareceu.

Eu sou uma mulher autista de 28 anos e até o ano retrasado, guardei isso para mim, afinal, a indústria da comunicação não alivia para pessoas neuroatípicas. Existe uma diferença no diagnóstico de autismo entre mulheres e homens, porque por muitos anos, casos assim eram considerados como uma questão 'masculina'. inclusive, o comportamento era estudado apenas em meninos, nunca meninas. 

Mulheres, tem mais dificuldade de receber um diagnóstico, porque nós crescemos fazendo uma prática que se chama masking, que significa, mascarar os sintomas. Isso é algo imposto pela sociedade e não algo que nascemos fazendo conscientemente.

Music / Vertical Entertainment

Dito isso, o primeiro problema do filme começa com o casting. A protagonista de 'Music' , é interpretada pela dançarina Maddie Ziegler (Dance Moms), que não possui autismo e sequer é atriz para começo de conversa. A menina ganhou fama e reconhecimento por protagonizar quase todos os clipes de SIA com suas habilidades incríveis de dança, mas atuar mesmo, a atriz apenas o fez nesses vídeos.

Em 'Music', Maddie representa uma menina autista que 'teoricamente' pertence a um espectro mais 'forte', mas vale lembrar que até mesmo o conceito de grau de autismo, já é hoje considerado ultrapassado por quem faz parte da comunidade. 

Trajada com roupas coloridas, Maddie faz o que sempre fez, caras e bocas que entram absolutamente no estereótipo de crip-face, prática muito usada pelo cinema, onde atores que não possuem neurodivergência, fazem gestos e se movem de forma exagerada, quase como numa forma de 'zoação', com os sintomas de pessoas neuroatípicas, principalmente autistas.

Music / Vertical Entertainment

Quando questionada sobre o casting, as reações da SIA não poderiam ter sido piores. Ao invés de ouvir o público, a cantora e diretora, gritou com fãs em seu twitter, retrucando todos os comentários de artistas autistas, dizendo que provavelmente eles eram atores ruins e por isso não eram contratados, justamente quando uma atriz autista comentou que faltam oportunidades.

É muito triste observar como todas as produções hollywoodianas trabalham esse tema, de uma forma completamente estereotipada e ofensiva, desconsiderando, toda a diversidade que existe no espectro do autismo (que consta na DSM-5). 

Nós sabemos que a desinformação gera preconceito e que preconceito influencia a nossa vida no dia a dia, sendo o capacitismo, um dos grandes fatores para o número de desemprego entre profissionais neuroatípicos, principalmente no universo cinematográfico.

Atypical / Netflix

É por isso que é tão importante contratar atores neuroatípicos para interpretar esses papéis de personagens neuroatípicos. Séries como 'Atypical' ou 'O Bom Doutor', podem não ser protagonizadas por autistas e isso é problemático, mas ao menos essas produções, tratam a temática com respeito e contam com elenco coadjuvante realmente no espectro. 

Parafraseando a frase de Viola Davis, o que falta é oportunidade. Isso é uma verdade universal, já está mais do que na hora da indústria dar espaço para que mais minorias contem suas história, lembrando que ainda mais importante do que o protagonismo na frente da tela, minorias precisam também estar nos bastidores, na sala de roteiristas, por trás das câmeras. 

Ter ao lado organizações como 'Autism Speaks', que nada mais é do que um grupo de ódio de mães que acreditam que o autismo tem 'cura', como esse filme teve, é apenas o último prego no caixão da credibilidade que esse filme algum dia poderia ter. 

Music / Vertical Entertainment

Não é 'apenas um filme'. O público não separa realidade da ficção, como já exemplifiquei aqui, então, comportamentos esteriotipados, são normalizados pela sociedade, o que acaba criando a normalização da forma preconceituosa que a sociedade lida com autistas e pessoas neurodivergentes em geral.

Muitas vezes, esse preconceito inclusive, pode ser até mesmo uma sentença final para muitas crianças e adultos autistas, que sofrem para conseguir viver uma vida digna, pois muitas vezes, famílias acabam rejeitando essa realidade de seus filhos.

O cinema nunca deixará de ter influência na mente das pessoas e esse filme 'Music', nada merece além do ostracismo. Atualmente o longa está sendo merecidamente massacrado pela crítica. 

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