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Annecy Festival 2026 | We Are Aliens, um filme sobre dores que nunca se apagam

 


Por Victoria Hope

No drama japonês "We Are Aliens", certo verão, quando cursavam a terceira série, um menino reservado chamado Tsubasa conhece Kyotaro — um garoto admirado por todos na turma — e os dois se tornam grandes amigos. Em seu pequeno mundo, eles compartilham momentos insubstituíveis, até que um incidente inesperado acaba por separá-los. Abrangendo mais de trinta anos, esta história delicada e contemplativa convida o público a refletir sobre o sentido da vida por meio dos caminhos que as trajetórias de ambos percorrem.

Essa animação é de longe uma das mais emocionantes e realistas que muitos irão assistir. O filme aborda de forma delicada e ao mesmo tempo caótica, as dores e delícias de viver a infância com um melhor amigo e como a vida pode vir a separar pessoas que antes eram completamente inseparáceis.

Enquanto Tsubasa sempre se enturmou para tentar ser popular, Kyotaro sempre foi uma criança que vivia no mundo da lua; daquelas que acreditam que vieram do espaço e que juram que guardam segredos intergaláticos em sua mente. 

Os dois garotos não poderiam ser mais diferentes um do outro, mas ainda assim, uma bela amizade de infância nasce, com os dois brincando no quintal, fazendo trabalho juntos, passando tempo durante as aulas e intervalos e fazendo todas as atividades do dia a dia juntos.


We Are Aliens | Imagem: Reprodução TMDB

Mas tudo muda, quando Tsubasa começa a sentir a pressão do que é ter um amigo 'diferente', enquanto todos os outros da escola fazem bullying e rejeitam Kyotaro. Há quem diga que o filme traz uma excelente metáfora sobre questões de neurodovergência na infância e como a falta de diagnóstico e tratamento, podem vir a causar muitas questões problemáticas no futuro.

Certo dia, repleto de raiva de Kyotaro, Tsubasa decide atirar o projeto do amigo de uma escada e o projeto acaba sem querer atingindo uma das estudantes. É claro que pra escola, o culpado só poderia ser o "garoto estranhho" Kyotaro e não o "querido por todos" Tsubasa.

Os anos passam e enquanto Tsubasa cresce como uma pessoa 'comum', com amizades (mesmo que problemáticas), Kyotaro não conseguiu ser alguém na juventude, andando por aí como se estivesse excluído e fora da casinha o tempo todo, culpando o amigo por ter destruído sua infância.

Mas a grande questão é que os anos passam e eles não são mais crianças. Por quanto tempo Kyotaro irá guardar essa mágoa sobre erros que aconteceram no passado? Obviamente isso não é algo que pode ser mudado, já que não é possível voltar no tempo.


We Are Aliens | Imagem: Reprodução TMDB

Enquanto Kyotaro acha que a vida de Tsubasa é perfeita porque ele tem "o emprego perfeito" e a "aparência perfeita", na verdade o outro rapaz ainda sofre e remoe pelos erros qque cometeu com o ex-amigo no passado. Mas é sempre tão mais fácil fingir que nada aconteceu, não é mesmo?

As coincidências da vida seguem acontecendo e não importa a passagem do tempo, mesmo passados trinta anos, ainda existem sentimentos ali naqueles dois indivíduos, mesmo que esses sentimentos sejam de culpa e desespero.

O filme não responde se um dia eles irão poder retornar a amizade, mas deixa nítido de que ainda existe uma fagulha de sentimentos bons ali e quem sabe, se eles podem reatar os laços algum dia? Talvez eles não precisem disso, pois só o sentimento de que um dia já fizeram parte da vida um do outro, lhes baste ao final.

NOTA: 9/10

Annecy Festival 2026 | Blaise

 

Por Victoria Hope

Em "Blaise", a família Sauvage anseia desesperadamente por amor. Carole sabe que seus funcionários a detestam e está determinada a conquistá-los a qualquer custo. Jacques nunca trabalhou um dia sequer e não se sente respeitado. Já seu filho Blaise, de 16 anos, introvertido e sem personalidade própria, sempre concorda com tudo e segue a corrente... Tanto que, ao conhecer Josephine, ele embarca, educadamente, em uma cruzada revolucionária, violenta e completamente insana.

Está para nascer uma família mais disfuncional que a de Blaise, pois, enquanto sua mãe está tendo um caso com uma das funcionárias da empresa que trabalha, seu pai é um homem amargo e narcisista que não leva a a vida a sério, mesmo sendo um adulto completamente funcional e nesse meio tempo, Blaise tenta se enturmar com amigos da escola e se distanciar ao máximo dos pais.

Nitidamente, por conta de sua criação, Blaise não sabe bem o que quer ser ou o que quer fazer no futuro e esse combo é a mistura perfeita para um desastre quando ele finalmente encontra uma namorada que não é quem parece ser.


Blaise / Foto: Annecy Festival

Ao passo em que Blaise quer só viver sua vida em paz, a Josephine é uma uma verdadeira revolucionária que deseja criar o caos, tudo isso tentando esconder sua verdadeira origem, que na verdade, é repleta de privilégios. Ela é a completa antítese do tipo de personagem "manic pixie dream girl", já que ela é o verdadeiro pesadelo do garoto e por mais que ele ame ela, ele a acha muito intensa, muito perigosa e mesmo assim, não consegue deixar o relacionamento.

Em meio à diversas críticas sociais ao melhor estilo de vanguarda francesa, o filme mostra como a vida pode ser uma bagunça e que em pequenos momentos, mesmo em meio a famílias disfuncionais, relacionamentos tóxicos e problemas para todo o lado, o mais importante é ter os amigos e a família ao seu lado.

O estilo da animação lembra muito as técnicas utilizadas em uma clássica animação dos anos 90 chamada Angela Anaconda, o que foi uma bela surpresa para quem cresceu naquela época e sente falta de mídias que misturam texturas reais com ilustradas dessa forma super irreverente. Em "Blaise", o ritmo da história em alguns momentos se torna arrastado, mas cada detalhe vai fazer muito sentido conforme o andamento do filme progride.

NOTA: 8/10

Annecy Fest 2026 | Chimney Town, Frozen in Time

 

Por Victoria Hope

Na animação dramática "Chimney Town, Frozen em Time", após o desaparecimento de seu amigo Poupelle, Lubicchi entra em um mundo estranho com um relógio de torre parado às 11:59. Ele precisa fazê-lo funcionar novamente e redescobrir a fé para eontrar o caminho de volta para casa.

A história é baseada no livro infantil ilustrado de mesmo nome, de 2016, escrito por Akihiro Nishino e logo no início do longa, quem cresceu assistinto animes como FullMetal Alchemist, irá reconhecer imediatamente a referência de alquemia enquanto o protagonista tenta reviver, sem sucesso, seu melhor amigo. 

Lubicchi é aquela típica criança arteira, mas adorada por todos e que está tentando superar o trauma de perder seu melhor amigo, mas tudo muda quando em um acidente, o garoto vai parar em um mundo que nunca havia visto antes e lá, ele faz novos amigos dos quais jamais irá se esquecer.

O filme conta duas histórias paralelas, a de Lubicchi e sua nova amiga gata, Fluffy, encarregada de levar as almas até um ser milenar e na outra história, acompanhamos o Reojoeiro Gus e sua amada amiga. Simultaneamente acompanhamos a saga do garoto enquanto ele tenta retornar para casa, ao mesmo tempo em que o casal vive em harmonia.

Sem tocar no território de spoilers, o longa é visualmente belíssimo e emocionante, com personagens bem desenvolvidoas e uma trama envolvente, apesar de alguns cortes abruptos aqui e ali em alguns momentos cruciais.

A mensagem de que almas vivem em coisas que são queridas é algo extremamente bonito e mostra uma lição que não apenas crianças, mas todas as gerações deveriam aprender. O tom otimista da história é algo muito bem vindo em tempos onde a apatia reina.

Fãs de animação vão sentir que alguns momentos lembram as produções do estúdio Gibhli, principalmente na caracterização e design dos personagens, mas as semelhanças terminam por aí, dando espaço para uma história completamente original sobre a relação das pessoas com o tempo, o luto e o amor. 

NOTA: 8.5/10