Por Victoria Hope
O Homem-Aranha é, sem dúvida, um dos super-heróis que mais teve versões alternativas ao longo de sua trajetória, desde Homem-Aranha 2099 ao Porco-Aranha, Gwen-Aranha, Homem-Aranha Superior entre muitos outros, entretanto, uma de suas versões mais intrigantes é a versão Noir - uma série de quadrinhos que colocava seus heróis em cenários inspirados em filmes noir e pulp fiction.
Com uma estética sombria, que mistura elementos steampunk e detetivescos, ambientado em uma Nova York dominada pelo crime, somos introduzidos a um fascinante universo alternativo de Spider-Noir, um dos personagens mais complexos e intrigantes da família aracnídea.
É nesse cenário que o público acompanha as aventuras (e desventuras) do complicado Ben Riley (Nicolas Cage) na nova série original do Prime Video! Na trama, o detetive particular é contratado para casos simples, até que gângsteres, monstros e uma misteriosa femme fatale tecem uma teia que o obriga a confrontar seu passado como o único super-herói de Nova York: O Spider.
Spider- Noir ocorre em um cenário político agitado da década de 30, retratando um cenário social completamente arruinado pela crise de 29, transmitindo um sentimento de desesperança e medo na população. A série está sendo aclamada pelo público pela fotografia ímpar e a possibilidade de ser assistada tanto de forma colorida quanto em preto e branco pelo público, ambas escolhas muito acertadas!
Nossa equipe teve a oportunidade de entrevistar os dois brilhantes cinegrafistas Darran Tiernan (Pinguim) e Peter Deming (Pânico 2 e 3), para comentar sobre Spider-Noir, essa nova produção que ganhou o coração dos aficionados por quadrinhos e séries investigativas.
 |
| Darran Tiernan e Peter Deming, diretores de fotografia de Spider-Noir |
Amélie: Como foi trabalhar em uma série que se passa na década de 30? Essa é uma estética que vocês gostam e já abordaram antes em produções anteriores?
Darran: Sim! Essa é a segunda vez que tenho a oportunidade de trabalhar com esse tema e eu amo aquele mundo. É muito interessante principalmente quando abordamos a década de 30 nos Estados
Unidos, por conta da era da Grande Depressão.
Todas as texturas, a tecnologia da época, a moda, tudo o que estava acontecendo culturalmente naquele período, sabe? A fotografia estava em seu auge e a indústria cinematográfica que conhecemos estava começando a tomar forma, então pessoalmente, acho que era um período muito bonito, visualmente falando.
Peter: Sem dúvidas! Acredito que ambos já trabalhamos em abordagens desse período, mas nunca com esse visual. É como se explorássemos uma releitura moderno e tudo parece tão mais autêntico, sabe? Como se realmente fosse daquela época *risos* e é claro que sabemos que não é da época, mas a ideia era deixar o mais próximo possível.
Amélie: Todas as cenas realmente possuem uma textura e riqueza enorme de detalhes. Com isso em mente, quando falamos da escolha em apresentar o projeto em dois formatos, tanto em preto e branco quanto colorido, existe uma preferência para cada um?
Darran: Tenho muito orgulho das duas versões! Foi uma verdadeira jornada chegar nisso, criar esses dois visuais que deveriam coexistir e agora, parando para pensar, acredito que em algumas cenas, existe um distanciamento emocional entre o colorido e o preto e branco e você sabe, cada pessoa vai reagir de uma forma diferente à cada versão, mas para mim, tenho muito orgulho das duas, por razões diferentes também.
Peter: Eu diria que gravito mais para o lado preto e branco! Quando eu estava filmando, estava completamente absorto nessa versão, mas é claro, também observando a versão colorida ao mesmo tempo e agora que a série foi finalizada, eu ainda acho que prefiro a versão preto e branco, mas ainda assim sou grato pela versão colorida e da mesma forma que fomos incentivados à usar o preto e branco, também fomos incentivados a utilizar o colorido.
Falando com pessoas que assistiram a série inteira nos dois formatos, muita gente comentou que se sentiu assistindo duas séries completamente diferentes devido a ausência ou adição de cores, sabe? Elas evocam sentimentos diferentes e eu acho isso fascinante.
Amélie: Vamos falar sobre o uso da dioptria dividida nas cenas! Elas ajudaram muito a evocar aquela sensação de estarmos lendo páginas de quadrinhos! Como foi utilizar essa técnica na série?
Darran: Claro! Que projeto incrível é esse, que nos deixou usar dioptria dividida! Nós dois utilizamos a técnica de formas diferentes e é sempre tão animador ter permissão de fazer isso *risos* Alguns desses momentos foram planejados, outros simplesmente apareceram de forma natural enquanto estávamos montando as cenas. Elas são sempre muito divertidas e eu quero usar mais no futuro!
Peter: Concordo totalmente! Quando você olha para o pacote das câmeras e vê dioptria dividida ali, imediatamente você pensa que está prestes a fazer ser algo muito divertido! Você sempre busca por oportunidades para poder fazer isso da maneira correta, sabe? Tipo, esconder bem aquela linha que divide os quadros da melhor forma possível.
Depois que filmamos, comecei a pensar que vou levar essa técnica para absolutamente tudo o que eu fizer a paertir de agora *risos* Vamos fazer isso mais vezes! Sabe, teve um momento que a assistente chegou a perguntar "É isso mesmo que você quer?" e eu disse: "É claro!" e felizmente, todos que estavam envolvidos nesse projeto concordaram e disseram "Vamos fazer isso!"
 |
| Spider-Noir / Foto: Prime Video |
Amélie: Imaginem que a partir de agora, todos nós fazemos parte do universo do Homem-Aranha! Se vocês pudessem escolher uma habilidade aracnídia, qual seria?
Darran: Wow, essa é uma pergunta incrível! Tem tantos! Eu queria poder escolher mais de um! *risos*, mas acho que nesse mundo em que vivemos agora, eu escolheria ter Super-Força!
Peter: Para mim são definitivamente as teias! Eu acho que você até pode usar elas pra lutar com pessoas, mas eu acho que eu queria mesmo era voar pela cidade usando as teias! *risos*
Darran: Acho que eu teria muito medo de praticar voo com teia!
Peter: Mas é para isso que a gente teria quer praticar *risos*
Amélie: Excelente! Eu acho que eu gostaria de ter oito olhos para poder ver oito telas de cinema ao mesmo tempo!
Darran: *Risos* Esse é um poder muito incrível!
Peter: Eu achei esse poder a sua cara! *risos*
Amélie: Sobre Spider-Noir, qual foi o momento favorito dos episódios que dirigiram?
Darran: Tem Muitos momentos! Mas a que eu mais gosto de reassistir é a cena da Li Jun Li interpretando a Felicia 'Cat' Hardy. A cena da performance musical dela no primeiro episódio foi fascinante, aliás, desde o momento da entrada do Ben no local até ele conhecê-la. Eu amo essa sequência.
Peter: Eu adoro a cena em que ele [Ben] aparece no apartamento da Felicia, numa última súplica para que eles fiquem juntos, sabe? Para eles fugirem juntos. E na verdade essa foi a primeira cena que eu filmei para a série. Tinham muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo!
Era meu primeiro dia no set, nós estávamos no palco tentando deixar tudo o mais impecável possível. O set inclusive, estava com aquele visual perfeito noir e Nic Cage estava fazendo o que faz de melhor e ele estava tão empolgado e aquela cena da súplica realmente marcou demais.
 |
| Spider-Noir / Foto: Prime Video |
Amélie: Falando em Nicolas Cage, como é trabalhar com esse ator tão icônico?
Darran: Maravilhoso, na verdade! Não apenas ele é uma pessoa muito legal, como ele também sabe muito sobre filmes! Sabe muito sobre a década de 30 e sobre quadrinhos também! É um profissional completo e uma pessoa realmente maravilhosa. Sempre pontual, sempre pronto sem se atrasar. Ele sabe tudo sobre os projetos e se envolve bastante em todos os processos.
Quando começávamos a filmar, a primeira coisa que ele dizia era "Onde vocês me querem para essa cena? Aqui? Ali?" E ele também sabe muito sobre como e onde encontrar a câmera independente da composição das cenas, era incrível! Fazia parte de sua conexão com sua performance!
Ele realmente acompanhava tudo, era o primeiro a chegar para a leitura de roteiro e isso transparesse para todos que assistem a série também, esse envolvimento dele. Ele também era muito generoso com os outros atores, sempre querendo acompanhá-los, se conectando muito bem com todo o elenco.
Peter: Eu concordo com tudo isso e acho que o Nic gosta de impulsionar sua performance. Tinham muitas coisas interessantes, por exemplo, ele não era quem você imaginaria nesse papel quando lê o roteiro, mas ele é tão bom nas telas, planeja tudo minuciosamente na cabeça dele em termos do progresso do personagem, que consegue acertar muito e nenhuma cena é igual a outra! Toda vez que tínhamos que voltar a filmar a mesma cena, ele perguntava "O que podemos fazer diferente agora?" *risos* E nunca era algo igual; ele sempre trazia algo novo e diferente.
Amélie: Na série, eventualmente, Ben redescobre seu amor por ser um Homem-Aranha; já que a muito tempo isso estava enterrado. Em algum momento de suas carreiras, vocês já se sentiram como Ben? Como se algo importante na carreira de vocês tivesse se apagado, mas que de repente, num belo dia, algo voltou a ignar sua paixão pela cinematografia?
Darran: Pessoalmente sim, viu? Às vezes você faz um projeto que não está fluindo bem e isso pode amargurar sua criatividade e de repente, aparece um projeto onde você diz "Uau!" É claro que não vou nomear nenhum projeto, mas vez ou outra aparece um projeto que me faz amar direção de fotografia de novo! É como se algo me dissesse que estou exatamente onde deveria estar! Mas também é muito sobre como você lida com a situação, sabe?
Muitas vezes você precisa passar por aquilo; você vai fazer o seu melhor e não vai deixar as outras pessoas do projeto de lado, mas aí em outras vezes, tudo vai fluir perfeitamente e vai se encaixar muito bem! Como em Spider-Noir para mim, tudo funcionou muito bem!
Peter: Concordo totalmente. Existem projetos ou momentos de alguns projetos onde é muito difícil ficar animado com a parte visual do projeto, mas eu sempre faço um lembrete à mim mesmo de que é um privilégio fazer o que a gente faz, sabe?
Estar em um set e gastar o dinheiro de outra pessoa *risos* para fazer coisas que você quer fazer! Obsviamente é uma colaboração, mas a forma que você captura as imagens, suas escolhas nas gravações, são algo muito pessoal e único seu e saber disso é que me ajuda nos momentos mais difíceis.
As vezes o trabalho pesa na sua alma, mas quando você pode ver esse trabalho crescendo ao lado do roteiro, da atuação, tudo vai se encaixando e aparece no produto final, que todo mundo envolvido sempre deu o 100% de tudo.