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Mostra de SP 2026 | Chicas Tristes

 

Por Victoria Hope

Chicas Tristes, que compõe a lista de filmes da Mostra de Cinema de SP desse ano, pinta um retrato emocionante sobre duas adolescentes da Cidade do México  que lidam com as consequências de uma violência sexual sofrida no passado.

As melhores amigas de dezesseis anos, Paula (Darana Alvarez) e Maestra (Rocio Guzman), são inseparáveis. Quando não estão treinando intensamente para representar o México no Campeonato Pan-Americano Júnior de Natação, no Brasil, suas vidas na Cidade do México são um turbilhão adolescente de tarefas escolares, momentos de lazer e festas. 

No entanto, um incidente chocante vira suas vidas de cabeça para baixo, forçando ambas a ressignificar sua relação. O longa-metragem de estreia de Fernanda Tovar (integrante do coletivo criativo Colectivo Colmena, da Cidade do México) é um estudo sensível e perspicaz sobre a amizade entre adolescentes, sustentado por atuações marcantes de suas jovens protagonistas.

Eles estão entusiasmados com o futuro, com a oportunidade de viajar para o Brasil e com as novas experiências que despontam no horizonte. Para Paula, isso inclui sexo e ao contrário de Maestra, ela ainda é virgem e deseja vivenciar a intimidade, especialmente com o colega nadador Daniel (Lucio Lemus), mas ela quer que seja algo significativo, e aguarda com expectativa uma festa em que terá a chance de se aproximar de Daniel. 

De forma muito genial, a câmera se afasta quando ele a segue, sem ser convidado, até o banheiro; mas, a partir desse momento, Paula muda: torna-se retraída, silenciosa e, constantemente, está prestes a chorar e sem precisarmos ver, já sabemos o que pode ter acontecido, aliás, infelizmente, muitas mulheres entendem bem esse olhar.

Quando a garota finalmente revela o que aconteceu para Maestra, numa cena magnífica que se passa durante uma aula de dança ao ar livre, ela o faz de forma hesitante e incerta. "Era o que eu queria", diz ela. "Mas não ali. Eu disse não." Sua confusão aumenta pelo fato de Daniel parecer se comportar como se não tivesse feito nada de errado, perguntando se ela está bem e convidando-a para sair repetidamente. 

Apesar desse ser um tema muito difícil de ser abordado, Chicas Tristes acerta o tom com maestria, mostrando que há vida após uma violência tão grande, que uma pessoa vitimizada é muito mais do que apenas uma vítima e não precisa ser apenas isso a vida toda, além de que ter amigas por perto, é essencial para o processo de cura.

NOTA: 9/10

Mostra de SP 2026 | Entrevista com S.S Rajamouli, diretor dos icônicos R.R.R e Bahuubali

 

Por Victoria Allen Hope

Um dos grandes pioneiros do cinema pan-indiano e de Tollywood, S. S Rajamouli, veio ao Brasil pela primeira vez durante a celebração de 50 anos da Mostra de Cinema Internacional de SP. Além de realizar um bate-papo com fãs após a sessão de seu filme, o diretor também compõe parte da lista de filmes que serão exibidos na Mostra ao longo do mês. 

Com sucessos como o aclamado Bahubali e o indicado ao Oscar de Melhor Canção Original "R.R.R", o diretor é conhecido por filmes que são marcados por espetáculos visuais grandiosos, cenas de ação de grande escala e forte carga dramática baseada em mitologias e heróis épicos.

Com a franquia Baahubali (2015 e 2017), ele quebrou a barreira regional que limitava os filmes do cinema em telugo (Tollywood) apenas ao público local, unificando as diversas indústrias cinematográficas da Índia e criando o conceito de grandes lançamentos nacionais!

E seu reconhecimento Global veio com o Oscar! RRR (2022), é um épico de ação e resistência contra o colonialismo britânico que fez história ao vencer o Oscar de Melhor Canção Original com "Naatu Naatu", a primeira vitória de um filme indiano na categoria na história! Durante a Mostra, tivemos a oportunidade de entrevistar o diretor, que também nos contou detalhes sobre sua próxima superprodução e você confere tudo abaixo:

R.R.R / Foto: Netflix

Amélie Magazine: Essa é a sua primeira vez no Brasil? Como se sente em fazer parte dos 50 anos da Mostra de Cinema de São Paulo?

S.S Rajamouli: É fantástico! Eu estou amando aqui! A primeira coisa que amei daqui são as árvores, tudo é muito verde! Eu também amo as pessoas, todas são muito simpáticas e isso me remete muito à índia também, porque vejo muitas famílias andando juntas por todos os lados, não apenas casais, mas famílias se divertindo por todos os lados. 

Amélie Magazine: R.R.R foi um sucesso, vencendo até mesmo Oscar de Melhor Canção! Com isso em mente, qual foi seu momento favorito nos bastidores?

S.S Rajamouli: Nossa, são tantos! *risos* Tantos momentos incríveis, mas o que mais ficou na minha memória foi a sequência em que eles lutam um contra o outro. As filmagens duraram muitos dias e começamos no verão. Aí a pandemia de Covid-19 aconteceu, pausamos as filmagens e quando voltamos, estava muito frio e tivemos que filmar cenas na água, então foi realmente muito memorável!

Amélie Magazine: O cinema de Tollywood é muito vasto e fantástica. Dito isso, poderia nos indicar filmes essenciais em telugu que todos deveriam assistir pelo menos uma vez?

S.S Rajamouli: Existem tantos filmes incríveis em Tollywood. Mas que tal eu ser um pouco 'ganancioso'? *risos* Vou indicar em primeiro, meu próprio filme, Baahubali, não deixem de assistir! Em seguida, se quiser assistir algo que vai para o caminho totalmente oposto do primeiro filme, veja Eega, outro filme meu que foi um expoente, muito louco inclusive, com um herói bem marcante.

Amélie Magazine: Você tem um projeto gigante à caminho estrelado por Mahesh Babu e Pryanka Chopra, intitulado Varanasi. Poderia nos contar mais curiosidades sobre esse novo título?

S.S Rajamouli: Esse é definitivamente meu projeto mais ambicioso! Estou muito animado. De todos os meus filmes, esse é o que contém uma temática emocional muito mais forte e todas as cenas de ação também serão carregadas de muita emoção. Varnasi é como uma flor brotando, um espetáculo visual.

Filmamos em diversas partes do mundo, desde a Antártidaa à África e diferentes cidades da índia durante períodos distintos. Aí essa história toca em tempos ainda mais antigos, com gigantes e deuses andando pela Terra e tudo isso é carregado com uma grande veia emocional em todos os sentidos e falando por esse lado, essa é uma história de amor. 

Varnasi também foi filmado em IMAX inclusive, o que torna desse filme o primeiro na história da índia a ser filmado completamente em IMAX, usando um ratio que raramente é usado até mesmo em grandes filmes de Hollywood. É realmente um projeto ambicioso que estreia ano que vem nos cinemas. Vamos torcer para que chegue aos cinemas brasileiros também.

Amélie Magazine: Agora vamis imaginar que você está numa ilha deserta e só tem três itens para lhe fazer companhia e para passar o tempo. Quais seriam esses três itens?

S.S Rajamouli: Que criativa! *risos* Será que pessoas contam como itens? Se sim, essa é fácil, primeiro, seria minha esposa. Mas aí ficaria difícil levar mais pessoas porque tenho uma família gigante, mas como minha esposa é meu norte e não funciono direito sem ela, com certeza ela seria a primeira, logo em seguida, uma ferramenta que me ajudasse a construir um barco e por último, uma bússola para eu poder encontrar as direções! Aí ficou fácil, não é mesmo? *risos*

Amélie Magazine: Um filme que você pode assistir milhões de vezes sem se cansar?

S.S Rajamouli: Acho que todos os filmes, mas acredito que Ben-Hur. Juro que assisti esse filme pelo menos cem vezes e assistiria de novo, pois eu nunca me canso desse.

Amélie Magazine: E se você pudesse mandar uma mensagem para o jovem S.S Rajamouli. Qual seria? 

S.S Rajamouli: Para o meu eu mais jovem, eu diria para ele ler mais livros e assistir mais filmes internacionais! 

Amélie Magazine: E para fechar com chave de ouro, uma mensagem para os fãs brasileiros que vão assistir seu filme durante a Mostra de Cinema de SP e acompanhar o seu workshop?

S.S Rajamouli: Primeiro de tudo, gostaria de agradecer ao público brasileiro por me acolherem e por me convidarem para estar aqui e por fazerem de R.R.R um sucesso na Netflix e que vou tentar com todas minhas forças fzer com que Varnasi chegue aos cinemas brasileiros. Dedos cruzados! Espero que mostrem a esse filme o mesmo amor maravilhoso que sempre tem entregado aos meus filmes.

Amélie Magazine:

S.S Rajamouli:


Mostra de SP 2026 | Fjord

Por Victoria Hope

E quando a minoria é realmente a minoria religiosa, mesmo que não pareça? Essa é uma das perguntas centrais de Fjord, longa vencedor da Palma de Ouro de Cannes esse ano estrelado pelos indicados ao Oscar Sebastian Stan e Renate Reinsve.

Na trama, acompanhamos uma família conservadora e católica que vive na Noruega vivendo sua vida tranquilamente até que um evento em particular destrói a relação dos pais com os filhos. Sebastian Stan interpreta um romeno chamado Mihai, casado com uma norueguesa chamada Lisbet (Renate Reinsve)
e apesar das diferenças culturais, ambos se dão muito bem.

O casal decide se mudar para a bela e remota vila onde Lisbet nasceu, pois Mihai, que é um engenheiro de software qualificado, consegue ali um emprego na área de TI. Além disso, a região conta com uma forte comunidade religiosa cristã, outro grande atrativo para o casal, que segue o cristianismo conservador fundamentalista de forma bastante rigorosa. 


Apesar da religião, eles são recebidos calorosamente por seus vizinhos (que não são cristãos): o diretor da escola local e sua esposa e também são abraçados por toda a vila, que é bem conhecida por ser um dos locais mais progressistas da europa, principalmente durante os anos 80. 

O filme começa com um momento inquietante e ambíguo: Mihai claramente acaba de aplicar algum tipo de punição à filha adolescente, que, na sequência, é obrigada a dar-lhe um abraço de penitência. A equipe da escola nota que as crianças apresentam marcas e hematomas e começa a desconfiar que talvez as crianças, incluindo a menina, estejam sofrendo maus tratos e é aí que a política, religião e aspecto cultural começam a se chocar.

Lá na Noruega, violência contra crianças é crime passível de retirada das crianças da casa dos pais para que sejam entregues ao conselho tutelar e é justamente com isso que a família de Lisbet e Mihai terão que passar. Afinal, um "tapinha" não é nada demais ou é apenas uma violência tão normalizada que seus perpetuadores veem isso como algo comum?


O tempo todo o filme se apresenta quase como um teste moral dos expectadores, porque por mais que sejamos contra a violência perpetuada contra crianças, será que realmente foi aquilo que aconteceu ou será que a cidade já estava pronta para acusar aquela família sem provas, principalmente por eles serem conservadores? Pois sim, o filme também deixa claro o preconceito da população perante as crenças da família de Mihai, mesmo que eles sejam conservadores.

De forma brilhante, o diretor consegue fazer a audiência sentir empatia pelas crianças que supostamente estão acusando os pais de violência, mas ao mesmo tempo consegue também deixar o sentimento de dúvida sobre o preconceito que os pais estão passando. Afinal, são eles culpados ou não? Até que ponto as visões sociais e políticas das pessoas podem ser objetos de investigação

E é claro que a xenofobia, também tem papel aqui, já que grande parte da perseguição que Mihai sofre por parte da cidade inteira, para muito além da religião, é também o fato de ele ser romeno e vale lembrar que na Europa, há nítido preconceito contra o povo da Romênia, logo, entende-se que qualquer ato de existência de Mihai já é visto com desprezo por aquela sociedade. O final é de tirar o fôlego, afinal, eles nunca poderão ser livres enquanto estiverem ali.

NOTA: 9/10

Mostra de SP 2026 | Exposição Tempo e Movimento celebra 50 Anos do festival

 

Por Victoria Hope

Em comemoração aos 50 Anos da Mostra Internacional de SP, o espaço Solar Fabio Prado recebe ao longo do evento a exposição Tempo e Movimento, que por meio de fotos, recortes e objetos marcantes, reconta a história desse que é um dos eventos mais importantes de cinema em São Paulo.

Com curadoria de Daniela Thomas, incluindo cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassar, a exposição celebra as cinco décadas do festival, com direito a linha do tempo, fotografias, obras originais, objetos e cartazes históricos que visitantes vão poder ver de pertinho até o dia 29 de outubro.

A quinquagésima edição da Mostra também apresenta o lançamento de dois livros que contam a história do evento, intitulado 50 anos, 50 cartazes: a história dos cartazes da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e Antes que eu me esqueça: um ensaio de lembranças para os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Confira as fotos da exposição abaixo:






Mostra de SP | Privadas de Suas Vidas

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Por Victoria Hope

Nunca imaginei que um dos meus filmes favoritos da Mostra de Cinema de SP Seria um terror trash brasileiro sobre privadas matadoras, mas eis que estou aqui para falar sobre "Privadas de Suas Vidas", terrir nacional dirigido por Gurcius Gewdner. 

Na trama, uma mãe que está passando por um luto muito difícil, precisa enfrentar um pesadelo surreal quando banheiros se transformam misteriosamente em seres assassinos, forçando-a a confrontar seus demônios pessoais e essas bizarras ameaças sobrenaturais.

Com essa temática, parece impossível levar a história a sério, mas o que foi entregue aqui é algo completamente único, diferente e um sopro de ar fresco pro gênero há muitos anos, principalmente no Brasil, não tem saído muito fora da caixinha.

Privadas de Suas Vidas / Foto: O2 Filmes

Para fãs de terror e comédia que adoram humor escatológico e análises sobre sexualidade e identidade de gênero, o filme é um verdadeiro banquete, vez ou outra trazendo pequenas homenagens espirituais à um dos maiores nomes do terror nacional: Zé do Caixão. Mesmo sem a presença dele, nitidamente o espírito transgressor e revolucionário de seus filmes pode ser encontrado aqui.

Não tinha um momento em que a sala não vibrou em gargalhadas com o público da mostra, mas mesmo em meio à tantas risadas e escatologia, foi possível encontrar momentos singelos, emocionante e aterradores e porque não, até mesmo momentos extremamente relevantes em termos políticos.

São tantas participações especiais, que seria impossível falar de todas sem estragar a surpresa, mas todas foram muito bem vindas e trouxeram ainda mais do sentimento camp e queer que a produção gostaria de passar ao público. 

Privadas de Suas Vidas / Foto: O2 Filmes

Um dos grandes destaques de Privadas de Suas Vidas, além da atuação primorosa de Martha Nowill, é a excelente direção de fotografia de Daniel Venosa, um dos pontos mais altos do longa. Toda a história é muito bem filmada e tanto o design de produção quanto o uso de efeitos práticos físicos adicionam ainda mais beleza à essa história.

É claro que, tirando todas as fezes e fluídos que aparecem e causam nojo e repulsa (propositalmente), existe um tema muito relevante e atual a ser explorado na história que vai para além de questões de identidade.

Parece piada dizer que a grande lição moral do filme é a de aceitar as pessoas como elas são e deixar o passado onde ele precisa estar, que é justamente nesse passado. Reviver antigas dores não é tão importante quanto trabalhar com elas e aprender que apesar de tudo o que aconteceu, ainda existe vida depois da tragédia e às vezes, tudo o que precisamos está bem na nossa frente. Só precisamos limpar os olhos, ou melhor, nesse caso, o estômago antes de seguirmos com nossas vidas.

NOTA: 8.5/10 

Mostra de SP 2026 | Review | Homem ao Mar

 

Por Victoria Hope

Na comédia dramática "Homem ao Mar", que marca a estreia direcional de Gael Carcia Bernal, acompanhamos o casamento conturbado e a carreira de um homem que do dia pra noite, de salva-vidas, se tornou um grande empresário com ajuda do sogro.

O longa apresenta figuras excêntricas, desde Juana (Esmeralda Pimental), uma burguesa entedeada com a própria vida, seu esposo Camilo (Gael Carcia Bernal) e a grande surpresa para brasileiros, a atriz global Debora Nascimento, fazendo papel de Fabiana, uma atriz conhecida daquele universo.

O pai de Juana, que no passado foi salvo de um acidente no mar pelo cunhado Camilo, dedica sua vida à indústria  e sua fábrica, mas agora está começando a investir em peças publicitárias para lançar sua carreira política, enquanto os funcionários de sua empresa estão revoltados com os cortes de equipe e demissões em massa.

Homem Ao Mar / Foto: Ingresso.com

Todas as noites, Camilo, que vê seu relacionamento piorando cada vez mais, passa as noites em um quarto separado de sua esposa, assistindo uma novela brasileira que conta a história do jovem Lula, uma escolha um tanto quando relevante nesse exato momento político, que casa exatamente com o mesmo problema que os personagens do filme, os funcionários da fábrica, estão passando. 

Ao mesmo tempo em que o filme apresenta muitos temas relevantes, a mistura de todos os temas nem sempre funciona, eventualmente transformando a história em uma verdadeira bagunça caótica, onde a mensagem principal acaba se perdendo.

Gael Garcia Bernal, como esperado, entrega uma excelente performance no longa, mas isso não é suficiente para entregar uma história coesa. Temas como xenofobia, capitalismo, política e indústria são abordados de forma bem superficial, mas ainda assim, é um projeto interessante.

NOTA: 6/10