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Mostra de SP 2026 | Fjord

Por Victoria Hope

E quando a minoria é realmente a minoria religiosa, mesmo que não pareça? Essa é uma das perguntas centrais de Fjord, longa vencedor da Palma de Ouro de Cannes esse ano estrelado pelos indicados ao Oscar Sebastian Stan e Renate Reinsve.

Na trama, acompanhamos uma família conservadora e católica que vive na Noruega vivendo sua vida tranquilamente até que um evento em particular destrói a relação dos pais com os filhos. Sebastian Stan interpreta um romeno chamado Mihai, casado com uma norueguesa chamada Lisbet (Renate Reinsve)
e apesar das diferenças culturais, ambos se dão muito bem.

O casal decide se mudar para a bela e remota vila onde Lisbet nasceu, pois Mihai, que é um engenheiro de software qualificado, consegue ali um emprego na área de TI. Além disso, a região conta com uma forte comunidade religiosa cristã, outro grande atrativo para o casal, que segue o cristianismo conservador fundamentalista de forma bastante rigorosa. 


Apesar da religião, eles são recebidos calorosamente por seus vizinhos (que não são cristãos): o diretor da escola local e sua esposa e também são abraçados por toda a vila, que é bem conhecida por ser um dos locais mais progressistas da europa, principalmente durante os anos 80. 

O filme começa com um momento inquietante e ambíguo: Mihai claramente acaba de aplicar algum tipo de punição à filha adolescente, que, na sequência, é obrigada a dar-lhe um abraço de penitência. A equipe da escola nota que as crianças apresentam marcas e hematomas e começa a desconfiar que talvez as crianças, incluindo a menina, estejam sofrendo maus tratos e é aí que a política, religião e aspecto cultural começam a se chocar.

Lá na Noruega, violência contra crianças é crime passível de retirada das crianças da casa dos pais para que sejam entregues ao conselho tutelar e é justamente com isso que a família de Lisbet e Mihai terão que passar. Afinal, um "tapinha" não é nada demais ou é apenas uma violência tão normalizada que seus perpetuadores veem isso como algo comum?


O tempo todo o filme se apresenta quase como um teste moral dos expectadores, porque por mais que sejamos contra a violência perpetuada contra crianças, será que realmente foi aquilo que aconteceu ou será que a cidade já estava pronta para acusar aquela família sem provas, principalmente por eles serem conservadores? Pois sim, o filme também deixa claro o preconceito da população perante as crenças da família de Mihai, mesmo que eles sejam conservadores.

De forma brilhante, o diretor consegue fazer a audiência sentir empatia pelas crianças que supostamente estão acusando os pais de violência, mas ao mesmo tempo consegue também deixar o sentimento de dúvida sobre o preconceito que os pais estão passando. Afinal, são eles culpados ou não? Até que ponto as visões sociais e políticas das pessoas podem ser objetos de investigação

E é claro que a xenofobia, também tem papel aqui, já que grande parte da perseguição que Mihai sofre por parte da cidade inteira, para muito além da religião, é também o fato de ele ser romeno e vale lembrar que na Europa, há nítido preconceito contra o povo da Romênia, logo, entende-se que qualquer ato de existência de Mihai já é visto com desprezo por aquela sociedade. O final é de tirar o fôlego, afinal, eles nunca poderão ser livres enquanto estiverem ali.

NOTA: 9/10

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