Por Victoria Hope
Nunca imaginei que um dos meus filmes favoritos da Mostra de Cinema de SP Seria um terror trash brasileiro sobre privadas matadoras, mas eis que estou aqui para falar sobre "Privadas de Suas Vidas", terrir nacional dirigido por Gurcius Gewdner.
Na trama, uma mãe que está passando por um luto muito difícil, precisa enfrentar um pesadelo surreal quando banheiros se transformam misteriosamente em seres assassinos, forçando-a a confrontar seus demônios pessoais e essas bizarras ameaças sobrenaturais.
Com essa temática, parece impossível levar a história a sério, mas o que foi entregue aqui é algo completamente único, diferente e um sopro de ar fresco pro gênero há muitos anos, principalmente no Brasil, não tem saído muito fora da caixinha.
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| Privadas de Suas Vidas / Foto: O2 Filmes |
Para fãs de terror e comédia que adoram humor escatológico e análises sobre sexualidade e identidade de gênero, o filme é um verdadeiro banquete, vez ou outra trazendo pequenas homenagens espirituais à um dos maiores nomes do terror nacional: Zé do Caixão. Mesmo sem a presença dele, nitidamente o espírito transgressor e revolucionário de seus filmes pode ser encontrado aqui.
Não tinha um momento em que a sala não vibrou em gargalhadas com o público da mostra, mas mesmo em meio à tantas risadas e escatologia, foi possível encontrar momentos singelos, emocionante e aterradores e porque não, até mesmo momentos extremamente relevantes em termos políticos.
São tantas participações especiais, que seria impossível falar de todas sem estragar a surpresa, mas todas foram muito bem vindas e trouxeram ainda mais do sentimento camp e queer que a produção gostaria de passar ao público.
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| Privadas de Suas Vidas / Foto: O2 Filmes |
Um dos grandes destaques de Privadas de Suas Vidas, além da atuação primorosa de Martha Nowill, é a excelente direção de fotografia de Daniel Venosa, um dos pontos mais altos do longa. Toda a história é muito bem filmada e tanto o design de produção quanto o uso de efeitos práticos físicos adicionam ainda mais beleza à essa história.
É claro que, tirando todas as fezes e fluídos que aparecem e causam nojo e repulsa (propositalmente), existe um tema muito relevante e atual a ser explorado na história que vai para além de questões de identidade.
Parece piada dizer que a grande lição moral do filme é a de aceitar as pessoas como elas são e deixar o passado onde ele precisa estar, que é justamente nesse passado. Reviver antigas dores não é tão importante quanto trabalhar com elas e aprender que apesar de tudo o que aconteceu, ainda existe vida depois da tragédia e às vezes, tudo o que precisamos está bem na nossa frente. Só precisamos limpar os olhos, ou melhor, nesse caso, o estômago antes de seguirmos com nossas vidas.
NOTA: 8.5/10


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