Por Victoria Hope
Chicas Tristes, que compõe a lista de filmes da Mostra de Cinema de SP desse ano, pinta um retrato emocionante sobre duas adolescentes da Cidade do México que lidam com as consequências de uma violência sexual sofrida no passado.
As melhores amigas de dezesseis anos, Paula (Darana Alvarez) e Maestra (Rocio Guzman), são inseparáveis. Quando não estão treinando intensamente para representar o México no Campeonato Pan-Americano Júnior de Natação, no Brasil, suas vidas na Cidade do México são um turbilhão adolescente de tarefas escolares, momentos de lazer e festas.
No entanto, um incidente chocante vira suas vidas de cabeça para baixo, forçando ambas a ressignificar sua relação. O longa-metragem de estreia de Fernanda Tovar (integrante do coletivo criativo Colectivo Colmena, da Cidade do México) é um estudo sensível e perspicaz sobre a amizade entre adolescentes, sustentado por atuações marcantes de suas jovens protagonistas.
Eles estão entusiasmados com o futuro, com a oportunidade de viajar para o Brasil e com as novas experiências que despontam no horizonte. Para Paula, isso inclui sexo e ao contrário de Maestra, ela ainda é virgem e deseja vivenciar a intimidade, especialmente com o colega nadador Daniel (Lucio Lemus), mas ela quer que seja algo significativo, e aguarda com expectativa uma festa em que terá a chance de se aproximar de Daniel.
De forma muito genial, a câmera se afasta quando ele a segue, sem ser convidado, até o banheiro; mas, a partir desse momento, Paula muda: torna-se retraída, silenciosa e, constantemente, está prestes a chorar e sem precisarmos ver, já sabemos o que pode ter acontecido, aliás, infelizmente, muitas mulheres entendem bem esse olhar.
Quando a garota finalmente revela o que aconteceu para Maestra, numa cena magnífica que se passa durante uma aula de dança ao ar livre, ela o faz de forma hesitante e incerta. "Era o que eu queria", diz ela. "Mas não ali. Eu disse não." Sua confusão aumenta pelo fato de Daniel parecer se comportar como se não tivesse feito nada de errado, perguntando se ela está bem e convidando-a para sair repetidamente.
Apesar desse ser um tema muito difícil de ser abordado, Chicas Tristes acerta o tom com maestria, mostrando que há vida após uma violência tão grande, que uma pessoa vitimizada é muito mais do que apenas uma vítima e não precisa ser apenas isso a vida toda, além de que ter amigas por perto, é essencial para o processo de cura.
NOTA: 9/10
