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Festival Filmelier 2023 | Blue Jean

 

Por Victoria Hope

Inglaterra, 1988 - O governo conservador de Margaret Thatcher's está prestes a aprovar uma lei que estigmatiza e criminaliza gays e lésbicas, forçando Jean, uma professora de educação física, a esconder sua sexualidade e viver uma vida dupla, mas a chegada de uma nova aluna fará essa mulher repensar suas escolhas. Essa é a trama de Blue Jean, filme premiado que estará em cartaz durante o Festival Filmelier no Cinema. 

Não há hora mais propícia do que agora para que o público conheça e assista Blue Jean no Festival Filmelier, principalmente nesse momento onde o retrocesso e leis prejudiciais contra a comunidade LGBTQIAP+ voltaram com força total ao redor do mundo. 

Essencialmente, Blue Jean é um conto sobre auto aceitação e sobre a solidariedade intergeracional entre lésbicas, mostrando a importância da união da comunidade em tempos tão sombrios onde os poucos direitos que diversas minorias tem, pouco a pouco são dizimados.

O filme acerta ao trazer uma protagonista cheia de conflitos: Ela não é heroína, tampouco vilã, mas sim uma pessoa com medo do que pode acontecer com ela, sua família, seu emprego e amigos em meio há tanta violência. Rosy McEwen, que interpreta Jean, entrega uma performance contida, porém poderosa ao mostrar as diversas facetas da personagem.

Alguns dos melhores momentos do filme acontecem enquanto Jean está em contato com o espaço seguro sáfico, onde a diversão, romance e o sentimento de fraternidade tomam força e a principal mensagem  que fica é a de que a comunidade precisa se unir, mas acima de tudo, pessoas de fora, aliados, devem se unir a comunidade para lutar e evitar que o retrocesso retorne. 

NOTA: 9/10

Festival Filmelier 2023 | Herói de Sangue

 


Por Victoria Hope

Heróis de Sangue é um dos destaques do Festival Filmelier no Cinema, uma realização da Sofá Digital, com venda aberta no site oficial do evento. Ao longo de três semanas, de 19 de abril a 10 maio, o festival vai exibir 20 filmes inéditos cinemas de mais de 30 cidades brasileiras.

Estrelado por Omar Sy ('Intocáveis'),  Herói de Sangue (Father & Soldier) é um drama de guerra franco-senegalês que estreou na mostra "Un Certain Regard" no Festival de Cannes 2022. Sy, que também é produtor do filme, entrega uma atuação impactante e fora de seu lugar de conforto, enquanto a história baseada em uma história pouco contada da Primeira Guerra é um retrato emocionante da relação pai e filho. 

O filme tenta de forma interessante, analisar o colonialismo francês e foi sucesso de bilheteria na França, mostrando como os soldados franceses, com uso de força bruta, retiraram homens senegaleses de suas famílias para obrigá-los a lutar na guerra.

Omar Sy interpreta Bakary, resgatando o idioma Fula de sua origem ao trazer esse pai para a tela. Em um ato de amor e desespero, Bakary se alista ao exército francês para ficar ao lado de seu filho e acompanhá-lo em sua jornada, prometendo nunca deixá-lo sozinho. 

De forma primorosa, o longa estampa a futilidade da busca pela 'glória' através da guerra e também serve como um memorial aos homens senegaleses que  forram forçados a lutar e perderam suas vidas em nome de um país que quase os dizimou. Apesar do ritmo demasiadamente lento do filme em alguns momentos, a história emociona, principalmente nos minutos finais onde vemos os resultados da guerra, relembrando que o apagamento da história é algo real, intencional e que não pode ser aceito.

Nota: 8.5/10

Festival Filmelier 2023 | Sem Ursos

 

Por Victoria Hope

Em 'Sem Ursos' (Khers Nist) vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Veneza, testemunhamos um retrato de duas histórias de amor contadas em paralelo. Em ambas, os amantes são afetados por obstáculos ocultos e inevitáveis, pela força da superstição local e pelos mecanismos do poder. O filme foi exibido nos festivais de Veneza e Toronto e agora chega ao Brasil pelo Festival Filmelier, que acontece de 19 de abril a 10 de maio em mais de 30 cidades brasileiras!

O longa toca em um ponto que é extremamente importante para esse momento que é a luta pela liberdade da imprensa em meio à represálias e censura cultural e intelectual, mas para entender o contexto é importante conhecer a história do diretor. Em 2010, Jafar Panahi, cineasta iraniano que dirigiu, roteirizou e protagonizou Sem Ursos, foi condenado a prisão domiciliar e uma pena de 20 anos sem filmar por apoiar o candidato de oposição ao atual governo e logo em seguida, foi acusado de filmar sem autorização, isso porque cinco longas metragens dele já haviam sido filmados de maneira improvisada.

Por mais 'simples' que o filme pareça, quando se tem o contexto de tudo o que aconteceu na vida do diretor para que ele simplesmente filmasse, já demonstra que de simplicidade, nem a trama nem o projeto tem, mas que de forma despretensiosa, aponta o dedo na ferida ao demonstrar sem medo tudo o que está acontecendo ao seu redor, desde alegrias a tristezas, tudo em meio a um regime autoritário.


Sem Ursos / Foto: Festival Filmelier

É acompanhando a vida do povo daquela cidade do interior, que o público percebe como a vida das pessoas pode mudar do dia para a noite sem saberem que a mudança inevitável e cruel está pairando ao redor, mas por incrível que pareça, o tal romance, que é 'foco' na sinopse, não é tão focado assim, pois acaba sendo mais fácil se conectar com outros personagens, incluindo o próprio cinegrafista, do que com ambos os casais (a não ser nos momentos finais). 

O final é completamente impactante, é impossível não sentir arrepios nos depararmos com a verdadeira realidade que o diretor tentou mostrar com esse longa. As duas últimas cenas são de cortar o coração e traduzem perfeitamente o quão desafiador e perigoso é fazer reportagem investigativa e também, quão difícil foi para esse diretor fazer esse filme em meio a tantos perigos. 

NOTA: 8.5/10