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Sundance 2026 | Without Kelly | Short Film

 

Por Victoria Hope

E começa mais um ano do Festival Sundance, com diversos curtas completamente únicos, incluindo "Without Kelly", dirigido e escrito por Lovisa Sirén, Na trama, obrigada a deixar sua filha recém-nascida com o pai da criança, a jovem mãe Esther se vê tomada pelo desespero e pela saudade. Durante a noite, ela busca contato físico e conforto, procurando maneiras de se agarrar a quem mais ama.

O curta começa com Esther, uma mãe de olhar distante, parecendo um tanto quanto perdida por estar sozinha, até o momento em que ela se desespera e começa a buscar por sua filha, Kelly. Logo o público já entende que se trata de uma mãe jovem, talvez até jovem demais. 

Logo somos introduzidos ao pai da criança, Anton, que parece ser tão jovem quanto Esther e logo percebemos que a mãe tem grande dificuldade em estar longe da filha. Nitidamente esse é um casal que não está mais em um relacionamento amoroso, porém ainda compartilham a guarda da criança, mas essa divisão realmente parece ainda mais pesada na concepção da mãe.

A todo custo, Esther tenta ganhar atenção do ex-namorado, mas claramente ele ainda a vê como alguém que não tem maturidade ou responsabilidade suficiente. Enquanto público, não sabemos porque a relação terminou ou se é que houve antes um relacionamento anterior até a concepção da filha, mas nitidamente, algo marcou aqueles pais para sempre. 

Enquanto a protagonista sai por aí sem rumo, buscando por amores em estranhos, ela para para refletir o que é sua vida sem Kelly, ou na verdade, sobre o peso que é ser uma mãe agora, enquanto todo o universo dela gira em torno da filha.

O curta é carregado por performances simples, mas completamente cativantes de Medea Strid e Truls Carlberg, com a temática da solidão e da necessidade de conexão que personagens como Esther sentem após a maternidade enquanto ainda são tão jovens, tão voláteis e ainda assim, tão complexos. 

NOTA: 8/10

SXSW 2025 | Video Barn (Short)

 

Por Victoria Hope

No curta de terror Video Barn de Bianca Poletti, duas garotas excêntricas que trabalham na locadora de vídeo local de uma cidade pequena tentam resolver os mistérios do passado obscuro da cidade quando uma delas desaparece misteriosamente. 

Estrelado por Grace Van Dien e Reina Hardesty, o curta homenageia os filmes surrealistas dos anos 80, misturando humor ácido, com a temática da amizade e a atração pelo desconhecido para criar essa história singularmente assustadora. 

Na trama, Jules e Hannah nitidamente tem uma amizade daquelas especiais onde há cumplicidade. Elas se unem pelo amor que tem por filmes de horror e suspense, o que ajuda a criar ainda mais uma atmosfera sombria para essa história.

O curta lembra em alguns momentos das obras surrealistas  inciais de David Lynch, com uma pitada da de Poltergeist e Twilight Zone. A trama é envolvente do início ao fim e nos faz querer acompanhar mais sobre os mistérios da cidade e sobre os segredos guardados naquela fita cassete

Poletti conasegue em um espaço bem curto de tempo, criar personagens envolventes e que realmente interesssam ao público, o que nos faz pensar que esse seria um excelente filme longa metragem mais para frente, com alguns toques aqui e ali para expandir ainda mais essa história.

As escolhas de figuros, maquiagem e roteiro também são excelentes e ajudam a criar a atmosfera oitentista, ano auge onde diversas produções com essa temática encantavam e assustavam diversas gerações. Atualmente existem poucas séries de televisão genuinamente de terror, então Video Barn é um sopro de criatividade que a indústria precisa para se renovar. 

NOTA: 9/10

SXSW 2025 | Baggage (Animation Short)

 


Por Victoria Hope

No belíssimo curta de animação em stop-motion "Baggage",  de Lucy Davidson (da equipe dop indicado ao Oscar "Memórias de Um Caracol"), três amigas despacham suas bagagens no aeroporto, mas uma delas está carregando um pouco mais que as outras. Enquanto elas viajam pela esteira rolante até a segurança, ela consegue esconder o que tem dentro? 

O curta de Lucy Davidson é um filme cômico, mas comovente, que explora a amizade feminina e o peso emocional que os verdadeiros amigos ajudam a carregar pela vida.  Além de ser  selecionado para o London International Animation Festival e Flickerfest, ganhou o prêmio de "Melhor Curta de Animação" no Peninsula Film Festival

Com uma ideia simples, mas muito emocionante, Baggage é o curta de animação mais interessante dos últimos anos. Seguindo a temática de toda a bagagem emocional que mulheres levam ao longo de suas vidas, o filme mostra, com muito bom humor, como todas são julgadas pelo seu passado, principalmente pela sociedade, mas que ter amizades verdadeiras é crucial para erguer as mulheres e fazê-las terem orgulho de suas jornadas.

O estilo stop-motion é excelente pra contar esse tipo de narrativa e a cada momento, a audiência vai se pegar pausando os olhos em cada detalhe da mala, com certeza se identificando com alguns dos traumas, medos, receios e sonhos abandonados que a personagem carrega.

Baggage é um curta muito empoderador ao nos lembrar que nunca estamos sozinhas e que muitas já passaram pelas mesmas dores. Não é vergonha ter abandonado sonhos ou não ter relacionamentos que deram certo no passado, afinal, sempre há tempo de recomeçar e é por isso que o apoio de quem está próximo é tão importante para a jornada de cura. 

A grande mensagem é a que está tudo bem carregar esse peso, ele incomoda, mas também mostra o quanto a pessoa já viveu e quantas vezes ela pode retomar sua própria vida, afinal, todos temos bagagens. e tudo vai ficar bem, eventualmente.

NOTA: 10/10

Festival do Rio 2024 | O Céu Não Sabe seu Nome, curta de Carol Aó, é selecionado

Por Victoria Hope

O curta-metragem O Céu Não Sabe seu Nome, dirigido por Carol AÓ, integra a mostra competitiva Première Brasil - Novos Rumos no Festival do Rio. O filme, que faz sua estreia mundial no festival, mergulha nos laços entre gerações, acompanhando uma neta que ressignifica a morte de sua avó através das memórias antes não ditas. A obra explora de forma delicada a fusão entre passado e presente, permitindo uma reflexão sobre legado, memória e sonhos.

A Mostra Novos Rumos do Festival do Rio celebra os novos talentos e experimentações do cinema brasileiro. O Festival, conhecido por exibir obras premiadas em Cannes, Veneza e outros festivais de renome, tem como compromisso ser a maior vitrine da produção audiovisual brasileira.

O filme conta com a sensível atuação de Inês Mendes, pela primeira vez trabalhando como atriz, uma mulher negra cuja história de vida tem paralelos muito fortes com a personagem que interpreta. Sua neta, Jamile Cazumbá, atuou ao seu lado como coprotagonista, tornando a experiência ainda mais especial e emocionante para todos os envolvidos.


O Céu Não Sabe seu Nome / Foto: Arruda Filmes

Sinopse:

Em um dia qualquer, Preta falece enquanto regava o seu jardim no quintal. No outro canto da cidade sua neta se desloca ao seu encontro para tomar um café. Presente e passado se fundem na memória de ambas nos permitindo conhecer cada pedaço de história da matriarca que acabou de fazer sua passagem, abrindo caminho para quem ficou ressignificar e seguir mais forte no agora.

O Festival do Rio 2024 acontece de 3 a 13 de outubro e a programação diária será anunciada em breve.

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Carol AÓ, soteropolitana e cofundadora da ARRUDA FILMES, constrói uma narrativa sensível e poética que reflete sua experiência de mais de uma década na produção audiovisual. Desde 2009, Carol atua como continuísta, diretora, roteirista e produtora criativa, participando de produções para plataformas como Netflix, Amazon, HBO e outras, além de projetos independentes.


Narrativas Negras Não Contadas, da Warner Bros Discovery, entra em fase final com apresentação de dez curtas documentais

Por Victoria Hope

Narrativas Negras Não ContadasBlack Brazil Unspoken, programa da plataforma de Diversidade, Equidade e Inclusão da empresa – WBD Access, chega em fase final, com dez projetos de curtas documentais, após três meses de ciclo formativo remunerado com a participação de profissionais negros renomados no mercado, como Emílio Domingues, Everlane Moraes e mentoria da diretora, produtora e roteirista, Chica Andrade.

O programa, desenvolvido em parceria com a WIP Ventures - gestora de propriedades intelectuais e desenvolvedora de negócios no entretenimento - tem como objetivo gerar acesso e desenvolvimento para roteiristas e diretores da comunidade negra, que terão suas histórias produzidas e veiculadas nas plataformas da empresa. Esta é a primeira edição do programa fora do Reino Unido, onde já foram realizadas duas edições. WBD Access atua através de programas de desenvolvimento e mentoria, gerando oportunidades e exposição na mídia, operando como um poderoso canal que conecta talentos de grupos subrepresentados aos nossos conteúdos e marcas.

É uma grande honra estar envolvida em um programa como esse, que tem um propósito tão importante de representatividade e gerar oportunidades reais para que esse profissionais de fato contem as suas histórias, do seu próprio ponto de vista”, comenta Adriana Cechetti, Diretora de Conteúdo de Produções de Não-Ficção da Warner Bros. Discovery para o Brasil, que teve a chance de conversar com os participantes durante o ciclo formativo sobre o que torna uma produção de não-ficção incrível para a WBD. “Estamos muito animados com o resultado desses projetos, cada um com uma identidade e narrativa muito forte.”

A Warner Bros Discovery selecionará ao menos três curtas documentais dentre os dez projetos apresentados, que serão desenvolvidos, produzidos e lançados pela companhia ainda em 2024. 


Conheça abaixo os 10 participantes do programa:

André Sandino: é cineasta com formação cineclubista. Iniciou seus estudos na área audiovisual em 2004 através de cursos livres e escolas populares de audiovisual como o Cine Maneiro no Rio de Janeiro. O carioca já participou em diferentes funções de diversos filmes de curta metragem, três filmes de longa-metragem, além de séries para a Web. Também co fundou e coordenou diferentes cineclubes, além de participar ativamente da Associação de cineclubes do Rio de Janeiro, Ascine-RJ e do Conselho Nacional de cineclubes, CNC.

Carol Rocha: é diretora nascida em uma favela da zona leste de São Paulo. Mulher negra e queer, está desde 2016 no audiovisual e passou pelos cursos de direção e roteiro na academia internacional de cinema. Em 2018, co-fundou a produtora PUJANÇA, que trabalhou apenas com profissionais negres e LGBTs, e no mesmo ano fez seu primeiro trabalho internacional, fruto de um convite para registrar Camila Pitanga, Djamila Ribeiro e Nátaly Neri refazendo os passos de Mandela, na África do Sul. Mais recentemente, roteirizou e dirigiu um filme documental para a Disney, com 5 artistas brasileiros recriando 5 personagens negros da Marvel.

Danielle Valentim: é mestre em Ciências das Artes e da Comunicação pela Universidade de Oldenburgo (Alemanha) e iniciou sua carreira trabalhando em emissoras de televisão como a TVU (Recife) e o canal alemão NDR. Há cerca de dez anos tem se dedicado aos setores executivo e financeiro de mostras de cinemas e de filmes de curta e longa metragem. Em 2020, lançou o curta experimental “Carta ao Mar” e em 2023 a série de interprogramas “Pretas de História”, exibidos nas TVs públicas de Pernambuco.

Day Rodrigues: Diretora, roteirista, pesquisador audiovisual e professor multidisciplinar. Entre 2022 e 2023, foi coordenadora audiovisual e coordenadora de formação pedagógica do Curso Multimídia do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Produziu, escreveu e dirigiu o documentário "O Corpo da Terra" (2023), exibido na 18ª Mostra Internazionale di Architettura: Laboratório do Futuro, como parte da exposição "Terra" (Pavilhão do Brasil). Também fez parte da equipe de direção das séries “O Enigma da Energia Escura” (Lab Fantasma), criada por Emicida e Evandro Fióti e finalista do Festival de Cinema de Nova York 2022 – e “Quebrando o Tabu” (Spray Filmes).

Laís Ribeiro: é produtora, diretora estreante e advogada, vinda do Sapopemba, zona leste de São Paulo. Atua em projetos com grandes players e também desenvolve e fortalece diversos projetos audiovisuais autorais e independentes. Foi selecionada pelo PROAC/2023 para direção de seu curta Atelier, sobre um dos primeiros estúdios de rap do país e também foi selecionada pela Aldir Blanc/2021 para desenvolver Nuances, sobre miscigenação racial. Esteve na produção da série documental "Sócrates", dirigida por Walter Salles, com produção de Rodrigo Teixeira e também atuou na produção dos longas-metragens "Dystopia" e "Pai pátria", da diretora Petra Costa. 

Larissa Nepomuceno: é Pesquisadora Cinematográfica, Roteirista e Documentarista. Membra da APAN, formada em Cinema pelo Centro Europeu, em Artes Visuais pela UFPR e Mestre em Educação pela UFPR. Dirigiu os premiados "Megg - A Margem que Migra para o Centro" (2018) (Festival Guarnicê de Cinema), e "Seremos Ouvidas" (2020) (10+ Favoritos do Público - Festival de Curtas de São Paulo). Dirigiu “Emerenciana”(2023) (18º Fest Aruanda). Atuou como Diretora Assistente no longa-metragem "Nem Toda História de Amor Acaba em Morte" (em finalização). Foi semifinalista do Prêmio Cabíria de Roteiro - Categoria Série de Não Ficção com o roteiro do episódio piloto da série documental Seremos Ouvidas, prestou Consultoria no Lab de Projetos Documentais - VII ROTA Festival de Roteiro Audiovisual de 2023 e atualmente está desenvolvendo seu primeiro longa-metragem.

Luciana Oliveira: graduada em Com. Social Hab. Audiovisual, Mestra em Cinema e Narrativas Sociais e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe.É co-idealizadora e diretora geral da EGBE - Mostra de Cinema Negro e cineclubista no Cineclube Candeeiro. Faz parte da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), integra o Fórum Permanente Audiovisual Sergipe e é sócia na Rolimã Filmes, onde atua como diretora e figurinista. Dirigiu os curtas-metragens "O corpo é meu" (2014), "Puerpério" (2021), "A mulher que me tornei" (2021), e "Espelho" (2022).

Rayane Teles: “catingueira” do interior da Bahia e formada em Cinema e Audiovisual pela UESB e Mestre em Roteiro pela EICTV (Cuba). Escreveu e dirigiu o curta-metragem de ficção “O ovo”, que foi exibido em festivais Nacionais e Internacionais, como: Competitiva Nacional do XVIII Panorama Internacional Coisa de Cinema e 44° Durban International Film Festival, (África do Sul) e também dirigiu e co-escreveu o curta documental "Pinote", com passagens por alguns festivais. Atualmente faz parte da Rede Paradiso de Talentos, além de ser associada da ABRA e APAN.

Robson Dias: começou sua jornada no setor audiovisual no Brasil como cameraman no jornalismo esportivo e editor de documentários. Após concluir o curso de Cinema pela PUC-Rio de Janeiro trabalhou alguns anos para as grandes produtoras cariocas como: Rio Cinema Digital, Grupo sal e Conspiração Filmes. Desde 2009, dirige seus próprios curtas-metragens, incluindo Pra Ingles Ver, que foi selecionado em diversos festivais. Atualmente, Robson é um dos diretores do projeto Eu Ouvi o Chamado do Manto, que retrata o retorno dos mantos tupinambá mantidos na Europa. Dirige o documentário Favela Tour, apoiado pelo edital de escrita e desenvolvimento do governo francês.

William Souza: é um jovem diretor criativo e fotógrafo-filmmaker. Nos últimos anos tem se dedicado à colaboração em projetos de audiovisual voltados à música, cultura e documentários musicais. Colaborou com vários artistas, como Mariana Aydar, Rachel Reis, Luiz Lins, Barro, Shevchenko e Elloco, Martins, entre outros. Trabalhou em projetos notáveis, como o documentário do festival recifense Recbeat e o mini-doc imersivo “Cápsula de Respiração” fruto da parceria entre British Council e Oi Futuro.

SXSW 2024 | Dissolution (Short)

 

Por Victoria Hope

No curta dramático 'Dissolution' de Antony Saxe, uma mulher é forçada a enfrentar a deterioração física do seu marido idoso quando eles se encontram para assinar os papéis do divórcio. Sendo uma pessoa que viveu a vida inteira com os avós, que seguem casados até hoje após sessenta anos juntos, a história tocou profundamente.

Quando pensamos em juramentos de amor e casamentos, logo a questão que diz 'na saúde e na doença', realmente tem um grande papel, principalmente entre casais idosos, afinal, é uma vida inteira compartilhada com a outra metade. Será o amor e apenas ele, suficiente para manter um casal? E quando a doença atinge uma das partes, será que o amor continua o mesmo? Ou pior, será que um casamento que aparentemente não era tão alegre, precisa ser mantido apenas por convenções e conveniência?

O casal protagonista não parece mais nutrir os mesmos sentimentos, mas em sua idade, é tão raro ver divórcios acontecendo, que atualmente assumisse que se eles nunca se separaram antes, agora não vão e é aí que a trama revela a reviravolta.

Somos confrontados com esse casal que viveu uma vida inteira juntos, mas que hoje, sequer conseguem se comunicar apropriadamente, então 'Dissolution', faz um excelente papel em mostrar como essa relação vai se dissolvendo pouco a pouco, mas não de uma vez só. É claro que a esposa ainda vai se preocupar com a saúde debilitada do marido e é claro que o marido, por mais que não mostre, também vai sentir falta de ter alguém ao lado dele.

O recurso de mostrar pequenas fitas com momentos importantes gravados entre os dois no passado, apenas reforça que eles tiveram bons momentos juntos, mas também momentos tensos e ruins, porém, desde o início, o casal estava fadado a ter problemas na comunicação com os anos e agora cabe a eles, sentarem-se juntos e pensarem no que é melhor para os dois, já que por serem de outra geração, a possibilidade de divórcio antes parecia um conceito 'alien'.

NOTA: 9.5

SXSW 2024 | Jedo's Dead (Short)

 

Por Victoria Hope

No sensível curta 'Jedo's Dead' de Sarah Mine, durante a turbulência social e política do 11 de Setembro, uma jovem e o seu irmão confrontam-se intimamente com a perda quando descobrem o corpo do seu avô morto. 

O curta enquadra os rituais tradicionais que cercam a morte e a perda através dos olhos das crianças, com muita reverência, mas também pelos próprios conceitos e visões de mundo desses dois personagens. Sozinhos e confusos, eles percorrem os estágios do luto humano – do dolorosamente humano ao inescapavelmente transcendente.

Sempre que se fala em filmes protagonizados por elencos infantis, o ponto mais importante é relacionado à como a criança irá passar os sentimentos sem precisar do recurso das falas para mostrar o que está sentindo e no caso do elenco mirim de Jedo's Dead, esse trabalho é feito com primor. O elenco observa, corre pelo cenário do apartamento, demonstrando ira, tristeza, amor, lembranças boas que tiveram com seu querido avô; tudo isso num espaço curto de tempo.

Vemos também não um conflito, mas uma casa que possui duas crenças: Enquanto a irmã caçula reza para a santa católica no altar de sua a avó, o irmão mais velho segue com seus rituais tradicionais não ocidentais, eventualmente levando sua irmã ao seu lado para que ela declame os cânticos. É aquela fase do luto onde os indivíduos buscam por resposta ou acalento frente à morte, em cenas muito bem filmadas e apresentadas ao público.

Na trama, ambos passaram por um trauma recente, tanto o 11 de setembro, quanto a perda de seu avô, então se para adultos nesse cenário é algo muito difícil de lidar, para crianças, é ainda mais. Fica a pergunta, o que fazer a partir de agora? Como seguir em frente? Essas são as perguntas que a dupla terá que responder e descobrir com os anos. 

NOTA: 9/10

SXSW 2024 | If I Die in America (Short)

 

Por Victoria Hope

No drama 'If I Die in America' de Ward Kamel, um jovem luta por uma oportunidade de lamentar o seu marido depois de os seus sogros muçulmanos tradicionais exigirem que o corpo seja enviado de volta ao Médio Oriente poucas horas após a morte prematura.

De acordo com a prática muçulmana, o enterro deve ocorrer dentro de 24 horas após a morte - então, depois que o marido imigrante de Manny, Sameer, falece em um acidente, ele é confrontado por um representante da família de Sameer, o obrigando a assinar a papelada necessária para enviar o corpo de volta para o Kuwait. 

Manny inicialmente recusa, agarrando-se aos seus direitos como marido de Sameer, embora sabendo que a cada hora que passa a família de Sameer fica mais furiosa. Depois de um clímax emocional, estimulado pela alegação homofóbica da família de que o casamento de Manny e Sameer era apenas um acordo de green card, Manny percebe que suas objeções não mudarão o fato de que seu marido morreu - por mais que tentasse, ele não conseguiria atrasar o luto.

O curta é mais contemplativo e reflexivo, podemos acompanhar o protagonista passando sozinho por esse processo de luto e mesmo que a irmã esteja lá ao lado dele, é nítida a dor e o quanto ele se sente e está sozinho no mundo após de perder o amor de sua vida. ~

O sentimento conflituoso do personagem é mostrado de forma nítida e é impossível não sentir todas as dúvidas e toda a mágoa que ele está sentindo, afinal, será que ele está preparado para mostrar esse outro lado da sua vida para sua família? Com certeza adoraria ver um filme longa metragem que explorasse a relação de Manny com Sameer e tudo que levou esse casal aos acontecimentos dessa curta, delicada e ao mesmo tempo, forte história. 

NOTA: 9/10

SXSW 2024 | Caller Number Nine (Short)

 

Por Victoria Hope

No curta 'Caller Number Nine'', um operador de telemarketing acidentalmente liga para um programa de rádio e vence um concurso de rádio, entrando em um impasse com a apresentadora desequilibrada e que parece ter intenções sinistras. Uma série de absurdos começam a acontecer no dia a dia do personagem, sendo que o dia dele já estava horrível.

É impossível não sentir simpatia pelo protagonista, pois ele está apenas tentando fazer o trabalho dele no início, mesmo que esse trabalho seja chato e que para os clientes seja algo considerado extremamente insuportável, mas tudo muda quando ele descobre que ganhou um prêmio.

Imediatamente o personagem fica animado e feliz porque pelo menos recebeu uma notícia boa, após um dia horrível no trabalho, mas como costuma dizer o ditado, quando a esmola é muita, até mesmo o santo desconfia e a premiação excêntrica consegue apenas fazer o coitado do atendente perder cada vez mais a paciência.

Ambos atores são hilários no papel e a trama funciona por conta do timing que ambos tem, sendo a apresentadora ótima em representar aqueles típicos apresentadores de programa de rádio que tentar soar animados e alegres mesmo anunciando prêmios mixurucas e ao mesmo tempo, o protagonista ficando cada vez mais irado, apenas eleva ainda mais a performance de ambos. 

Essa é uma história simples, mas que tem muito potencial de expandir. Seria muito legal ver um longa metragem explorando mais sobre esse personagem azarado e sobre a apresentadora de rádio. O próprio final 'aberto', dá margens para milhares de perguntas. 

NOTA: 8/10

SXSW 2024 | Beeps (Short)

 

Por Victoria Hope

Sam não consegue dormir. Seu quarto é cercado por todos os lados por alarmes de fumaça, sinal de bateria fraca. Então ele faz o que qualquer solucionador de problemas com os olhos turvos faria... ele parte em uma odisséia para encontrar o chilrear irritante e, no processo, aprende sobre si mesmo, seus vizinhos e seu lugar no mundo.

Nesse documentário, é muito interessante ver essa dupla interrogando seus vizinhos para saber de onde vem o misterioso som, afinal, aquele som não vem do além e nitidamente, vai piorar caso os protagonistas não achem o local de onde aquele som está saindo.

Por mais simples que seja a premissa, é incrível poder acompanhar esse casal conhecendo seus vizinhos, talvez pela primeira vez, aprendendo um pouco mais sobre cada um deles e vendo todas as multitudes que um bairro pode oferecer. É nítido que Sam está ansioso com o barulho incessante e em alguns momentos, ele até oferece baterias extras para seus vizinhos e em algum momento, a própria audiência começa a ouvir o som.

O que parece apenas uma situação engraçada, logo se torna uma questão importante onde gentrificação é o ponto principal de discussão, sendo essa discussão extremamente relevante para esse momento em que vivemos. Em algum momento, a audiência também quer solucionar o 'mistério' de onde vem esse barulho, mas felizmente para todos, essa história tem um final 'feliz' e mostra que a empatia, é a principal chave. Viver em comunidade é a chave, se comunicar com os outros é a chave. 

NOTA: 8.5/10

SXSW 2024 | Beach Logs Kill (Short)

 

Por Victoria Hope

Nesta história assustadora sobre despertar ambientada em um jogo de futebol americano do ensino médio, a estrela do quarterback promete passar seu número da sorte para a garota mais merecedora do time. Mas quando o jogo dá terrivelmente errado, uma garota estranha detida tenta provar que é digna do amor, do legado e da alma da capitã.

Conhecemos logo no início a capitã do time e uma estranha e excêntrica garota que está presente no banheiro durante o treinamento do time. A estranha garota não aparenta fazer parte daquela equipe e logo dá indícios de que talvez tenha alguns sentimentos pela líder, mas após um estranho acidente após um jogo, tudo muda entre as duas.

Apesar da enorme quantidade de simbolismos mostrados em tela, o curta não faz muito para explicar exatamente o que está acontecendo em diversos momentos. Seria tudo aquilo fruto da imaginação da menina quer tem um crush secreto na atleta ou seria um fruto realmente sobrenatural que está acontecendo?

O suposto acidente que acontece com a líder do time pode sim ser uma metáfora para diversas coisas, incluindo a descoberta da sexualidade e o quanto dela mesma ela está disposta a dar para esse novo possível relacionamento com a garota desconhecida. 

Será que na verdade, ela está viva e bem, mas as pessoas ao redor, seja seu treinador, sua família e amigos da escola, na verdade não a estão julgando por seu 'novo' relacionamento? Tudo o que sei é que crescer é assustador e nada melhor do que um terror sáfico coming of age para mostrar esse momento tão deliciosamente sombrio e ao mesmo tempo, revitalizador. 

NOTA: 8.5/ 9

SXSW 2024 | APOTEMNOFILIA (Short)

Por Victoria Hope

No aterrorizante curta 'Apotemofilia' de Jano Pita, é noite de estreia, o teatro está lotado e Clara, a atriz principal, se recusa a sair do camarim. Algo dentro dela a impede de partir, algo que ela terá que enfrentar.

O curta de terror faz jus ao nome, já que cientificamente falando, 'Apotemofilia' é uma parafilia da vida real onde as pessoas se sentem excitadas com a ideia de perder membros do corpo por meio de amputação e com Clara, a protagonista da história, a audiência pode acompanhar de perto. 

Na trama, pouco a pouco, Clara vai perdendo a sanidade e começa a imaginar uma estranha criatura andar por seu corpo e quer se livras dela de qualquer forma, nem que para isso ela precise cortar partes do corpo. No início, o que a traz dor e medo, logo dá lugar à uma sensação indescritível de prazer que a protagonista sente enquanto se liberta do 'bicho', mas é claro que tudo faz parte de sua imaginação fértil.

Vejo essa história como uma anedota sobre a dismorfia corporal criada pelo universo do show business e do entretenimento, afinal, desde a cena inicial, Clara não parece que está muito animada para o show, enquanto seus produtores gritam com ela do outro lado da porta do camarim. Talvez tudo o que Clara queria, de forma meio torta, era se libertar daquela prisão que a indústria à impunha. Nessa alegoria, talvez se ela tirasse partes de si mesma para se tornar algo que ela não é, a indústria finalmente parasse de pressioná-la.

NOTA: 9/10

SXSW 2024 | A Crab in the Pool (Short)

 

Por Victoria Hope

No curta 'A Crab in the Pool', em um bairro degradado, Zoe e seu irmão mais novo, Theo, são deixados à própria sorte. Uma jovem adolescente, Zoe é uma bola de raiva assombrada por um terror íntimo. Theo, ainda criança, foge da realidade para um mundo fantástico. Durante um dia escaldante de verão, os dois filhos terão que romper o abcesso do relacionamento para não se perderem. 

A animação faz um excelente trabalho em mostrar as diferentes formas que irmãos de gerações diferentes lidam com temas como morte e luto. Enquanto o irmão caçula vive no mundo da fantasia, usando suas 'mãos' como óculos, em forma de manter viva a lembrança de sua falecida mãe, a garota adolescente e irmã mais velha, tenta lidar com suas próprias batalhas, ao mesmo tempo em que anseia pelo colo de sua mãe, que infelizmente perdeu sua vida para o câncer.

Ambos personagens passam por um turbilhão de sentimentos e por uma questão que assola pessoas em luta não importa a idade, que é a a busca pela resposta de como seguir em frente após uma perda? Os dois irmãos não exatamente se dão muito bem, principalmente a adolescente, que está na fase de achar que já é uma adulta formada, logo, ela não tem paciência com seu irmãozinho, mas aos poucos, ela vai perceber não apenas como é tão importante para seu irmão, quanto ele é para ela, como também ambos precisam estar juntos para se curar.

É uma belíssima e singela animação, que apesar de simples, tem muito a dizer e toca todos aqueles que já passaram por algo assim ou estão passando por isso nesse exato momento.  A grande mensagem que fica é a de que, mesmo quando alguém importante se vai, ainda temos uns aos outros aqui, as pessoas que ficam devem se manter unidas. 

NOTA: 9/10

SXSW 2024 | Can (Short)

 

Por Victoria Hope

O mundo da cineasta Kailee McGee vira de cabeça para baixo após um diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado. Ela está no meio do tratamento, mas apenas começando a reavaliar a realidade, o amor e a identidade enquanto está doente. 

Kailee perde a noção de onde termina sua jornada contra o câncer e onde começa sua vida. Enquanto a voz dentro de sua cabeça alterna entre crise existencial e autoatualização, Kailee recorre à única maneira que ela conhece de cura: descobrir uma maneira de assistir a uma versão de sua jornada se desenrolar em uma tela.

Can é um daqueles tipos de curta metragens que faz o público se identificar com a protagonista mesmo que a audiência não tenha passado pelo que ela passou. O formato funciona e facilmente poderia ser um longa metragem, já que representatividade feminina sobre a temática é tão rara de encontrar no cinema.

Temos vários exemplos de filmes que contam a história de pessoas que estão lutando ou que sobreviveram o câncer, mas raramente as protagonistas femininas tem a chance de contar seu lado da história, então esse formato, semi biográfico, semi documentário é excelente para esse estilo de narrativa. 

Em Can, vemos a relação conturbada de Kailee e acompanhamos seus diálogos internos, suas dores e pequenas alegrias enquanto ela tenta retomar sua vida e seguir em frente após o tratamento, através da arte e do amor. Essencialmente, essa é uma história sobre como não estar sozinho nos momentos mais difíceis da vida, é o que mais importa, mas também, lidar com sentimentos e entender que seguir em frente é preciso no processo da cura.

NOTA: 9/10 

SXSW | My Idea (Curta)

 Por Victoria Hope

'My Ideia', curta do grupo Yatch, mostra um processo doloroso ser uma ideia esperando para ser concretizada, esperando para se tornar real. Muitas ideias nunca dão certo. My Idea mostra um ator de captura de movimento que fica preso como ator de captura de movimento 24 horas por dia, 7 dias por semana - comendo, vivendo, trabalhando - imaginando quando seus criadores o libertarão.

O curta traz uma importante mensagem sobre um trabalho que é tão pouco celebrado na indústria do cinema. Nomes como Andy Serkis já abordaram a temática, relembrando à audiência em como a academia geralmente ignora a importância do trabalho dos atores de motion capture.

Tudo o que o protagonista faz é sonhar acordado, se imaginando em um palco do TED Talks com dezenas e centenas de ouvintes admirando seu trabalho e finalmente valorizando o que ele tem a oferecer, mas novamente, o curta traz a audiência para a realidade; realidade essa onde ele apenas faz um trabalho bem feito, ou até mesmo mediano, sem a perspectiva de que um dia irá sair daquela realidade. Será que um dia ele vai conseguir seu lugar ao sol?

NOTA: 8/10

SXSW 2023 | Animated Short Film | Beyond the Fringe

 

Por Victoria Hope

E hoje terminamos nossa maratona de filmes do SXSW com o fofíssimo curta de animação 'Beyond the Fringe' dirigido por Han Tang. Na trama, em uma noite tranquila, uma intrigante figura de papel emerge magicamente de um caderno. No início, estava animado e cheio de curiosidade. 

Mais tarde, porém, quando a pequena figura de papel descobre de repente o quão pequena, frágil e sozinha é neste grande mundo estrangeiro, o medo se instala e faz com que ela desmorone. 

A pequena figura de papel mergulha em sua inconsciência para descobrir de onde veio e encontra forças para tomar a difícil decisão de se arrancar do papel de onde veio para explorar o mundo além. Esta é a história de crescer e sair de casa contada como um conto imaginário.

Para quem tem uma conexão e raízes fortes com a casa e a família, esse curta acerta em cheio ao demonstrar todo sentimento de medo e angústia de sair do lugar e se mover para seguir em frente. Em um dos momentos mais emocionantes do curta, a criaturinha de papel até tenta se encaixar novamente no caderno, mas ela não cabe mais ali, ela precisa de uma nova vida, uma nova atitude, mesmo que o medo esteja a congelando.

Agora falando em técnica, o estilo stop-motion funciona muito bem e ajuda a experiência de imersão na história, fazendo com que o público sinta a angústia da pequena criaturinha. É uma bela fábula sobre 'crescer e aparecer', nos relembrando que por mais que nossas raízes nunca nos deixem, todos nós temos que seguir em frente, mesmo que com medo, mas sem pestanejar.

NOTA: 9/10 

SXSW 2022 | We Should Get Dinner!

 

Por Victoria Hope

Sabe aquele reencontro familiar onde tudo dá errado? Essa é a comédia We Should Get Dinner! de Eliza Jiménez Cossio E Lexi Tannenholtz, em uma história sobre raiva e limites estabelecidos nos relacionamentos. Abby encontra Sean, seu ex-meio-irmão, com quem ela não fala desde o horrível divórcio de seus pais. 

Sean está procurando seguir em frente com sua vida, enquanto Abby está procurando alguém para levá-la ao altar. Durante a noite tumultuada, questões maiores sobre relacionamentos rompidos são exploradas: O que acontece com as pessoas que se afastam de sua vida? 

O que acontece se eles voltarem? O que você quer dizer a eles, se é que quer dizer alguma coisa? E se não for como você esperava que fosse? É interessante o paralelo que o filme faz ao abordar o assunto da refeição, a comida, que geralmente é símbolo da união, para uma história onde o completo oposto acontece. 

We Should Get Dinner / Foto: SXSW 

We Should Get Dinner! toca justamente na ferida de relacionamentos antigos familiares, onde duas pessoas já não se conhecem mais por não se falarem há anos, mas que ainda guardam muitos ressentimentos sobre coisas que aconteceram no passado.

Ao longo da trama, a audiência percebe que os dois ex- meio irmãos, não se odiavam tanto quanto pensavam e que tinham mais em comum do que se se lembravam. Apesar do curta não se passar em tempos de pandemia, é impossível não imaginar que agora com o término do lockdown, os próximos encontros de amigos que não se viam a muito tempo, acontecerá da mesma forma, afinal, o isolamento coloca muitas coisas em perspectiva.

O final é bem pontual e mostra que em momentos de acidentes, mesmo 'meio irmãos' não se considerando família, sempre terão o apoio de um ao outro nos momentos de maior aflição, afinal, isso sim é ser uma verdadeira família. 

NOTA: 8/10 

SXSW 2022 | Homesick

 

Por Victoria Hope

Homesick de Will Seefried é um thriller absurdo sobre um homem infeliz que frequenta um retiro que oferece aos adultos uma segunda chance de uma infância feliz. O curta apresenta o questionamento do que pessoas fariam se tivessem a oportunidade de mudar o passado, pelo menos figurativamente, para superar os traumas.

Em um ano onde a temática de traumas geracionais, principalmente durante a infância, trazer essa temática de forma lúdica é muito interessante. Diversas pessoas que passaram por situações traumatizantes, com certeza aceitariam passar pelo mesmo procedimento que o protagonista: renascer, mas dessa vez em uma nova família e com uma nova vida.

A temática da regressão de idade não é nova, pois na verdade é um mecanismo de defesa do ego que causa uma reversão temporária ou de longo prazo a um estágio anterior de desenvolvimento, fazendo com que a pessoa evite lidar com impulsos de maneira adulta. 

O filme poderia muito bem ser um episódio de Black Mirror e explorar essa 'tecnologia' por trás do parto sintético, unindo a essa temática que ressona principalmente com a comunidade LGBTQIA+ e a ideia da rejeição familiar e como seria ser adotado e acolhido por alguém que respeitasse suas escolhas e sua individualidade.

NOTA: 9/10


SXSW 2022 | Everything Will Be All Right [Short]

 

Por Victoria Hope

Em Everything Will Be All Right, curta brilhantemente dirigido por Farhad Pakdel, Leila é uma jovem professora de teatro que guarda um segredo de sua família no Oriente Médio. Em meio ao surto da pandemia e ao início do confinamento em Montreal, ela precisa decidir como atender à urgência de uma ligação de casa quando seu pai adoece com COVID-19.

Nessa história mais do que necessária para os tempos em que vivemos, a jovem professora que está grávida, tenta se comunicar com seu pai que está no irã e adoecendo rapidamente. Ao longo do filme, acompanhamos justamente o processo de quando o isolamento se iniciou; ou seja, quando as escolas começaram a fechar aos poucos, assim como diversos outros estabelecimentos. 

Utilizando de forma genial o mito do Orpheus com Eurydice, lenda clássica grega onde o herói tenta salvar o amor de sua vida, mas ao não seguir as regras do submundo de Hades, perde ela para sempre, a trama traça justamente esse paralelo da perda, muitas vezes injusta e irreversível, como a própria pandemia do Covid-19 causou ao redor do mundo. Como será o futuro do filho de Leila? Como será que ela irá lidar com essa gravidez com tatos perigos a espreita e mais importante, como seguir em frente sem medo? 

Everything Will Be All Right é uma mensagem delicada e ao mesmo tempo, dona de uma grande força ao retratar de forma mais do que relevante como da noite para o dia, o destino de bilhões mudou para sempre e como essa realidade ainda afeta a todos até hoje. O que ficou para trás e o que acontecerá daqui para frente, não está em nosso controle, mas devemos fazer nossa parte para nos protegermos e proteger ao próximo. 

NOTA: 10/10 

SXSW 2022 | Um papo com Jude Harris, a mente hilária por traz da comédia Gay Haircut

 

Por Victoria Hope

Com direção, produção e roteiro de Jude Harris e participação dos comediantes Krista Fatka e Zach Holmes (JACKASS FOREVER, Too Stupid to Die, Tosh.0, Ridiculousness) no elenco,  Gay Haircut é uma comédia que com muito bom humor, cortes de cabelo podem significar uma mudança drástica não apenas na vida como no dia a dia das pessoas.

Durante o South By Southwest desse ano, tivemos a oportunidade de entrevistar a brilhante diretora Jude Harris sobre o filme e entender um pouco mais sobre as mensagens que Gay Haircut tem a ensinar para o público. 

Confira a entrevista:

Gay Haircut / Foto: Divulgação

Amélie: Como surgiu a ideia para a trama de Gay Haircut?  

Jude: Krista, minha escritora, estrela e parceira de vida, estava anêmica e estava perdendo muito cabelo. Ela queria cortá-lo mais curto e talvez fazer um vídeo engraçado sobre isso. Isso foi durante um dos muitos períodos de quarentena estrita em 2021, então ela pensou que talvez fizéssemos um vídeo dos meus filhos cortando o cabelo para o Instagram dela.

Mas então, Krista escreveu um roteiro curto muito engraçado que captura muito da estranheza de se reintroduzir como queer na idade adulta e tudo meio que clicou como algo que nós dois experimentamos, mas realmente não conversamos sobre isso.

Amélie: O cabelo é muito importante e para algumas pessoas, fazer um novo corte de cabelo não significa apenas uma mudança externa, mas também uma mudança interna; um rito de passagem e um símbolo de libertação junto com a autoexpressão, especialmente para a comunidade LGBTQ+. Você poderia falar mais sobre isso?

Jude: Eu me assumi como trans relativamente tarde na minha vida e carreira. Antes da transição, eu parecia um homem branco, careca e barbudo muito genérico. Quase todas as semanas, as pessoas pensariam que eu me confundiria com outro homem branco, careca e barbudo que eles conheciam. Eu estava praticamente invisível.

Agora, sou muito visível como uma mulher trans e muito mais consciente das maneiras como as pessoas reagem a mim. Tenho sorte de estar em uma cidade solidária em um estado solidário, então encontro principalmente pessoas que telegrafam seu amor e apoio para mim, mas ocasionalmente recebo atenção dos tipos de pessoas que rejeitam pessoas trans. É estranho ser uma pessoa sobre a qual outras pessoas sentem que precisam ter uma opinião. Às vezes sinto falta de ser invisível, mas definitivamente não me confunda com mais ninguém.

Quando começamos a namorar, Krista era direta e contava piadas sobre os homens com quem namorava. Sua comédia stand-up é autobiográfica e admiro sua integridade em desenvolver seu material para refletir a verdade de sua experiência de namorar comigo. Mas também me sinto um pouco culpado - definitivamente a tornei menos relacionável como quadrinista.

Eu vejo o cabelo de Krista como uma extensão dessa integridade: uma maneira de sair das suposições que as pessoas podem ter sobre ela. E fica ótimo nela - ela é muito sexy com um mullet!

Amélie: O elenco estava hilário. Você poderia nos contar um pouco sobre o processo de casting?

Jude: Obrigada! Bem, eu amo Krista como minha parceira, mas também amo sua presença na tela - ela me lembra as atrizes cômicas da década de 1970 - ela é engraçada e impetuosa e pode se fazer de boba e otimista enquanto ainda transmite sua inteligência. Então, eu quero fazer um milhão de coisas com ela.

E então o resto do elenco é composto por nossos amigos e familiares. Krista conhecia Merrill do mundo da comédia stand-up e Merrill apareceu com toda sua adorável excentricidade e detalhes para esse tipo de bagunça gloriosa de babá.

Mitchell Lamar, que interpreta nosso recepcionista místico, também é um comediante com sua própria grande presença e instintos maravilhosos com uma vibração muito amorosa que pode se tornar nítida em um instante. Krista o estava seguindo para o stand-up, e ele também é um ótimo ator.

Zach, nosso cabeleireiro, criou o programa da MTV Too Stupid to Die comigo, um show de acrobacias no quintal que eventualmente o colocou no Jackass Forever. Ele é um bom amigo meu e tão comprometido com a comédia física e eu estava morrendo de vontade de fazer algo com ele que não fosse acrobacias.

E então, Lucas, o garoto na piscina é meu filho de 9 anos. Ele realmente não queria fazer o filme porque a água estava fria, mas nós o subornamos com dinheiro de videogame.

Amélie:  O que significa fazer parte da programação do SXSW este ano?

Jude: Produzi vários projetos que estrearam no SXSW, mas esta é a primeira vez que sou aceito como diretor (e já fui rejeitado mais vezes do que me lembro). Não consigo descrever o quão valido isso é como cineasta e fã do festival. Estávamos em um programa com tantos curtas-metragens poderosos, é humilhante exibir ao lado deles.

Eu amo muito as pessoas do cinema: somos artistas e criaturas sociais que fazem tantas coisas impossíveis o tempo todo e que acreditam que a arte pode mudar o mundo. O pessoal do cinema sempre foi meu povo e é tão bom finalmente ser eu mesmo perto de pessoas que não vejo há anos.

O SXSW é um festival que lança carreiras de cineastas e também estou muito feliz por Krista - ela é uma escritora e performer tão engraçada e talentosa, foi muito especial para mim estar lá para o lançamento de sua carreira no cinema e na TV.

Amélie:  Falando sobre representação queer na mídia e narrativas LGBTQ+, quais histórias você gostaria de ver no cinema e na televisão?

Jude: Mais! Mais variedade, mais famílias, mais comédias. Mais protagonistas queer. Mais representação bissexual. E absolutamente mais pessoas trans. Sou muito grata aos cineastas de Disclosure por curar feridas que eu não sabia que tinha. Eu amo muito Transparent, mas ainda não vi nada que reflita minha família ou minha comunidade em que pessoas heterossexuais, pessoas cis queer e pessoas trans tenham se unido de uma maneira tão bonita para ajudar meus filhos a se adaptarem a uma mudança de entendimento de sua vida e de sua família.

Amélie: Qual mensagem você gostaria que o Gay Haircut deixasse para os participantes que vão assistir o curta no festival?

Jude: Não importa quem você seja, ser autenticamente você mesmo no mundo pode ser assustador. Espero que nosso filme torne mais fácil rir de nós mesmos e de nossos medos. Se isso inspirar mais cortes de cabelo gays, melhor ainda!