Navigation Menu

Sundance 2022 | Highlights do primeiro dia

Por Victoria Hope

E encerra-se o primeiro dia do Festival Sundance 2022, que acontece de 20 a 30 de janeiro virtualmente, com transmissão para o mundo inteiro. Ainda é possível adquirir ingressos para filmes específicos, mas vale lembrar que as grandes estreias da primeira semana do evento, já estão esgotadas.

Na abertura do evento, os convidados e a imprensa puderam acompanhar de perto a primeira performance do dia, que ficou por conta do longa '32 Sounds', uma experiência sensorial que aconteceu no espaço New Frontier, dedicado a encontros virtuais entre o público através de avatares digitais. Trazendo depoimentos sobre a criação de sons para background de filmes, a experiência de estar conectado com o público e os produtores foi incrível.

Na mesma área da nave mãe, ainda era possível navegar pelo espaço digital que conta com lounge especial, onde irão ocorrer as festas de encerramento dos principais filmes do dia, além de espaço para documentários, chats para bate-papo e mais.

Abertura do Sundance 22' com '32 Sounds' 

Além dos diversos materiais exclusivos e bate-papos com diretores e elencos, o dia começou com uma programação mais do que especial promovida pelo grupo Latinx House, que deu boas vindas as convidados, falando sobre programas especiais de celebração da cultura latina que vão ocorrer ao longo do evento.

E quando chegou a noite, horário que marca oficialmente a abertura da programação de filmes do Festival Sundance, pudemos conferir quatro estreias que estavam na nossa programação, os filmes: When you Finish Saving the World, Emergency, Marte Um e o aclamado 'A Pior Pessoa do Mundo'. 

Também conferimos alguns dos curtas lançados, como o suspense LGBTQIA+ 'Chaperone', a dramédia hilária 'Hallelujah' e por fim o horror geracional 'Huella'. Todos os filmes contaram com um bate papo com elencos e um Q&A exclusivo para que público pudesse se aprofundar mais em cada trama. 

Emergency / Foto: Sundance

Em termos de destaque para lançamentos, o filme favorito escolhido pela nossa equipe foi 'Emergency' de Carey Williams, que venceu a categoria do Júri em 2018 com o curta que deu origem a esse novo filme. Com uma enorme carga dramática e atuações de peso, o filme tem muito a dizer em tempos onde o movimento Black Lives Matter segue ainda mais relevante.

Outro destaque foi o sensível curta 'Chaperone', que aborda o tema da saúde mental de um jovem gay que está pensando em acabar com tudo. E para fechar a lista, a quinta foi finalizada com chave de ouro, com o longa 'A Pior Pessoa do Mundo', longa favorito também em Cannes de 2021, que tem grandes chances de competir na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar desse ano. Estamos na torcida.

Você confere a nossa cobertura completa do evento pelo site e pelo nosso instagram oficial. Clique aqui para acessas a lista completa de críticas do Sundance. 

Sundance 2022 | Champ (Short Film)

 

Por Victoria Hope

[TW: Abuso sexual] 

Na trama de 'Champ', após um treino de basquete durante a noite, Genevieve revela um segredo sombrio sobre seu treinador para as colegas de time. Utilizando estratégias comuns dentro da quadra, as garotas se unem a Genevieve para encontrar uma forma de retaliar o mais velho.

Inicialmente, Gene não se vê como uma vítima de abuso, já que ela revela não se lembrar de muitos detalhes do que aconteceu há anos atrás, a não ser o fato de que em uma noite, o treinador entrou em seu quarto e se deitou na cama enquanto ela dormia. Por alguns momentos ela até se culpa, dizendo 'provavelmente foi minha culpa (isso ter acontecido)'. 

Quando se fala em esportes, principalmente em categorias com presença feminina, infelizmente, casos de assédio sexual de treinadores com suas atletas são extremamente comuns, ainda mais intensos em ambientes escolares como em colegiais e universidades, então esse tema é extremamente relevante.

Champ / Foto: Sundance

É incrível como a personagem passa a entender a gravidade do que houve com ela após ao ver a reação das amigas, pois apenas agora ao falar em voz alta, ela entende que não foi algo tão banal quanto ela pensava. O curta não se aprofunda na temática, já que as garotas não reagem exatamente da forma esperada e a vingança, por assim dizer, condiz muito com a idade das personagens, já que elas reagem da única forma que conseguem, mesmo que seja só por meio de uma pegadinha que envolve rolos de papel e ovos.

São nos últimos minutos do Champ, que a protagonista realmente esboça o sentimento sobre tudo o que aconteceu, não mais negando a seriedade do abuso que sofreu no passado. Ao olhar diretamente nos olhos de seu abusador, entende-se a mensagem de que ela não tem medo dele ou do que ele representa.

Enquanto as adolescentes riem e fogem dirigindo pela noite, Gene se permite pela primeira vez sentir o impacto, uma vez que não mais ela poderá esconder ou tratar de forma banal o que houve entre ela e o treinador. O título final com imagens ilustradas de pirulitos e óculos de coração se quebrando em  referência à inocência perdida, combinado com uma cantiga infantil, ficou genial.

NOTA: 8/10

Sundance 2022 | Um papo sobre o curta Chaperone com o diretor e o elenco

 

Por Victoria Hope

Nessa madrugada (21), durante o encerramento do primeiro dia do Festival Sundance, após a estreia do curta LGBTQIA+ 'Chaperone', o diretor Sam Max, ao lado do ator Zachary Quinto e do ator e produtor Russel Kahn. 

Durante a conversa, Sam revelou que já havia pensado dessa história por mais de seis anos antes de  criar o roteiro e que por muito tempo, ele tinha em mente esses dois personagens que estariam em um tipo de transação de negócios relacionados à Morte, mas com ela vestida de uma forma meio erótica. 

"Pensei em algo mais autobiográfico, porque por anos eu tenho lutado contra depressão e pensamentos suicidas, desde muito novo e meus pais perceberam isso, então eu sempre explorei muito a temática da morte, então eu tentei trazer essa história com um personagem que demonstrasse compaixão, que não julgasse e que fosse gentil com aquele jovem. Por exemplo, o personagem (Quinto), deveria parecer alguém assustador inicialmente, mas que no fim demonstra ter muita compaixão."

Russel, que contracena ao lado de Quinto, revelou que conhecia Max antes e que trabalhar como um colaborador para o roteiro desse curta foi uma experiência incrível e como amizades artísticas assim sempre trazem ótimos frutos. Ele também é ator faz um tempo, então foi um ótimo desafio participar do longo. 

Zachary comentou que conheceu o diretor por conta de outro projeto desenvolvido com a produtora própria de Quinto para a televisão. O ator confessa que imediatamente viu a voz do diretor como algo singular e que ele estava muito feliz por poder fazer parte desse curta. Ele acredita que o roteiro possuía um formato único e que todo processo de gravações foi bem orgânico e ótimo para ele voltar para as frente das câmeras após tanto tempo cuidando da parte de produção e roteiro de outros filmes. 

O filme deixa muitas informações abertas para intepretação do público e quanto a isso, o diretor disse que pessoalmente, ele se desanima quando filmes explicam demais o que se passa ou que tente insultar sua inteligência, então segundo Max, a beleza da arte em geral e a beleza do cinema especificamente, é que isso abre um leque de possibilidades e interpretações, então com Chaperone, sua principal intenção foi segurar o público e brincar com o que é a realidade e o sonho. Será que aquilo foi real? Será que é sobrenatural? 

Chaperone / Foto: Sundance

Por ser fã do gênero de terror, Max revelou que foi uma honra poder ter seu curta estreando na categoria Midnight do festival, que é dedicada a projetos transformativos de terror e suspense. E ele acredita que horror e thriller são excelentes para inovar agora.

Em seu caso, o diretor tentou traduzir no longa, como seria esse relacionamento doce em um ambiente macabro, onde um situação mórbida está prestes a acontecer. Ele ainda ressalta que a atmosfera criada por thrillers, geralmente fazem o público ter expectativas do que irá acontecer e subverter esse pensamento justamente nesse gênero, foi sua principal missão.

No embate final, muitos podem pensar que a trama é um embate entre o bem e o mal, vida ou morte, mas na verdade é um embate pessoal do protagonista mais jovem, afinal, ele era seu próprio inimigo, ele é quem tem os hábitos destrutivos e quer acabar com tudo.


Sundance 2022 | Entrevista com Gabriela Ortega, Shakira Barrera e os produtores brasileiros de Huella

 

Por Victoria Hope

Nessa sexta (21) nossa equipe teve a oportunidade de bater um papo com a diretora Gabriela Ortega, a atriz Shakira Barrera (Glow) e os produtores brasileiros Helena Sardinha e Rafael Thomaseto sobre 'Huella', curta de temática sobrenatural que compõe a lista oficial do Festival Sundance desse ano, que acontece até o dia 30 desse mês de forma virtual.

Em Huella, acompanhamos Dani, uma atendente e dançarina que se vê em meio a uma maldição familiar após o falecimento de sua avó. Com a temática de trauma geracional e uma nova visão sobre as cinco fases do luto, o curta demonstra como cabe as mulheres mais jovens das famílias, quebrarem o ciclo de trauma e violência, ao mesmo tempo em que celebra a união e a importância do apoio das mulheres da família, que no fim, sempre apoiam umas as outras nos momentos de necessidade. 

Através da dança, notamos nossa protagonista aos poucos deixar as amarras da maldição ao entender que a presença do espírito de sua avó não quer lhe causar mal, mas sim, fortalecê-la para que ela não sofra da mesma forma que sua abuela, suas bisas e suas tias avós sofreram por gerações.

Huella / Foto: 271 Films

Confira a entrevista:

Amélie: O que a inspirou a criar a história de Huella?

Gabriela: Acho que muitas coisas vieram ao mesmo tempo que evoluiu para o que se tornou hoje, mas a semente nasceu a partir da minha própria família, que é da República Dominicana, com muitas mulheres e suas histórias de pessoas que vieram de cidades pequenas e meio que a relação delas com os homens de suas vidas. 

Elas são lutadoras, mulheres que quebraram o 'molde', mas elas não veem isso; eu vejo porque somos daquela geração onde podemos ver o passado refletir no futuro um pouco mais e para elas é como elas trabalharam duro em toda sua vida. Eu queria honrar isso, de que ser um imigrante, é um sacrifício e você acaba tendo que fazer escolhas, passar um tempo com sua família ou seguir seu sonho.

Eu sou aquela que sempre teve pensamentos conflituosos quanto a isso, porque eu sou aquela que pode fazer isso agora, diferente da minha mãe ou da mãe dela. E eu queria mostrar que as vezes, essa responsabilidade (de quebrar o ciclo) é tão pesada e como nós não queremos carregar os traumas de gerações passadas. 

Amélie: Primeiramente, parabéns pelo seu trabalho incrível e pela dança. Em algum momento você conseguiu se ver na protagonista Dani? 

Shakira: Muito obrigada pelo elogio e sim, eu consegui me ver muito na Dani. Antes de tudo, fiquei honrada e lisonjeada em ser chamada pela Gabriella para interpretar a personagem. Na primeira vez em que li (o roteiro) e vi a dança flamenca, fiquei encantada porque esse foi um desafio tão incrível.

Eu sou uma dançarina, danço desde os meus 3 anos, então unir atuação com dança em um curta em apenas 4 dias, foi fantástico pra mim porque eu amo trabalhar sob pressão e também tem essa confiança que você mergulha quando entra em um projeto, na verdade todos nós mergulhamos e tanto Helena e Rafael foram maravilhosos; olhe para nós hoje,  estamos aqui no Sundance.

Huella / Foto: 271 Films

Amélie: Quais foram os maiores desafios nas filmagens desse projeto? 

Helena: Acredito que nem preciso dizer, mas o Covid-19 foi um desafio para muitos produtores, mas acho que fora isso, tivemos um espaço muito curto de tempo para produzir Huella, tínhamos apenas uma espaço de três semanas de preparação e logo depois já partimos para as filmagens para a première.

Tudo aconteceu muito rápido, então foi como Shakira comentou, a coreografia entre outras características foram mais difíceis devido a pandemia , então para mim, esses foram os maiores desafios.

Rafael: Acho que uma das coisas que conseguimos realizar muito bem foram as cenas de solo. Levamos três dias e meio para esse feito muito ambicioso. Algumas pessoas não acreditavam que seria possível terminar, Gabriella e nosso Diretor de Fotografia se conectaram muito bem, então isso foi muito importante para nós.

Em determinado ponto podíamos ver que eles se comunicavam apenas por olhares, tomando algumas decisões que estavam na 'mesma página', então tivemos muita preparação antes de chegar a esse ponto e mesmo tempo apenas três semanas, trabalhamos da melhor forma possível para estarmos preparados para possíveis problemas que poderiam surgir. 

No primeiro dia perdemos uma de nossas locações, que foi a cena do telhado, foi quase uma hora e meia perdida e tivemos que realocar, mas no fim encontramos um lugar muito melhor. Como produtores, estamos acostumados a apagar incêndios e com um prazo tão apertado, tivemos que ter certeza de que todos estariam confortáveis.

Amélie: Você se vê como uma pessoa supersticiosa?

Gabriella: Eu me sinto muito conectada com coisas fora do reino físico, não acho que seja algo supersticioso necessariamente pois sou uma pessoa espiritualizada, digo, cresci em ambiente católico, não que eu siga a religião, mas faz parte acreditarmos em algo que não vemos e eu acredito muito no poder das nossas palavras, no poder dos nosso ancestrais e daqueles que vieram antes. Acredito que seria egoísta pensarmos que nós somos os 'todo-poderosos', então me sinto muito conectada definitivamente com algo maior do que eu e isso me dá forças para continuar criando e honrando minhas raízes.

Amélie: Como você se sente sobre trauma geracional e quebrar ciclos? 

Shakira: Wow, eu adoro falar de forma aprofundada sobre trauma geracional. Como uma mulher em meus 30 anos, é sobre isso, sabe? Quando você está com 20 anos e tem esse ego de pensar 'eu posso fazer tudo', 'estou pronta para dominar o mundo', mas aí percebe que tem muitas crenças que te limitam, que foram impostas seja pela casa, enquanto você crescia, sua mãe e seu pai, seus irmãos ou o seu ambiente, então no meu caso, eu estava dissecando meus próprios traumas, minhas próprias crenças limitadas durante as filmagens, então honestamente, (a arte) imitar a vida é um processo tão enriquecedor.

É você olhar para dentro de si mesmo e pensar  com quais histórias você tem se alimentado, por exemplo, coloque uma medida, há quanto tempo você tem se alimentado dessas histórias de não ser bom o suficiente? Essa história que você tem se contado desde quando tinha sete anos, é hora de deixar essa isso pra trás. Isso é o que é bom sobre arte, algo que queira me fazer trabalhar com tantas mentes criativas como Gabriella, Helena e Rafa. Nós todos temos a mesma forma de ver a vida e arte, então para mim foi uma bela experiência.

Huella / Foto: 271 Films

Amélie: Como é fazer parte do Sundance esse ano?

Helena: Acho que é o sonho de todo cinegrafista. Sempre foi o meu sonho desde quando comecei a trabalhar com cinema, ter um filme lá. Como Shakira comentou, temos pensamentos que nos limitam como 'você nunca vai chegar lá, esse sonho é grande demais pra você', mas (estar aqui) é bom demais, digo, nós trabalhamos para isso, todos nós aqui trabalhamos muito para isso. 

Sinto que é um momento ótimo pra que mais coisas (boas) venham. Estou muito orgulhosa de nós, de toda nossa equipe por termos chego até aqui e Gabriella tem fortalecido esse sentimento com a Shakira, então estou muito animada para o que vem a seguir nesse ano.

Rafael: Eu acredito que muitas vezes na jornada de um artista, você precisa de uma aprovação para ter confiança e continuar seguindo em frente com sua arte e sendo um grande fã do Sundance desde sempre, na realidade, fui voluntário no Festival por três anos consecutivos, então particularmente, voltar ao evento como Produtor de um Curta Metragem.

Ainda mais com uma equipe enorme da comunidade latina, (trazendo) um filme que é bilíngue, em inglês e espanhol, eu sinto uma honestidade enorme nisso. Sou grato por fazer parte da família Sundance e abrir portas para novos criadores

Amélie:  Para fechar o papo, se você pudesse mandar uma mensagem para mulheres que sonham em se tornar diretoras, qual seria? 

Gabriela: Não tenha medo de quebrar algumas regras, siga sua intuição e saiba que, as vezes, não é sobre pedir um lugar na mesa, mas sim sobre fazer a mesa e trazer pessoas que realmente acreditam em você para essa mesa. Siga em frente e não internalize os pensamentos limitadores, como Shakira comentou.

Só porque as pessoas tem uma imagem de você, não quer dizer que você precise pegar essa imagem para si mesmo. Não esconda quem você é e sua cultura, porque isso faz de você uma pessoa especial e única. 

Sundance 2022 | Chaperone (Short Film)

Por Victoria Hope

[TW: Depressão, Suicídio] Para fechar o circuito de curtas que estrearam essa noite no primeiro dia do Sundance, o festival trouxe o curta Chaperone, primeiro filme do diretor em ascensão, Sam Max, a debutar oficialmente no evento, com uma história que examina os efeitos do isolamento, solidão, além de pensamentos suicidas. 

Escrito e roteirizado por Max, o curta de dezesseis minutos segue uma figura sem nome (Zachary Quinto), que pega um jovem rapaz nas ruas (Russel Kahn) e lhe oferece uma carona. Esses dois homens aparentemente não se conheciam antes, porém, ao dirigir até uma elegante casa de aluguel no campo, a natureza real do relacionamento entre os dois personagens começa a se revelar. 

Logo no início, Chaperone constrói um sentimento de que algo está muito errado, principalmente em relação ao personagem sem nome de Quinto, que não apenas é uma figura misteriosa e imprevisível, como também suas vestes pretas dos pés a cabeça, incluindo suspeitas luvas de couro, acrescentam ainda mais mistério ao personagem. Ele questiona, em tom calmo, mas ameaçador para o mais novo se o rapaz deletou tudo, se desapareceu com o celular e se não saiu de casa por um bom tempo, e o jovem afirma que seguiu todas as instruções. 

Chaperone / Foto: Sundance

É possível sentir a tensão sexual crescer entre os dois personagens, demonstrando que talvez eles realmente já se conheciam a muito tempo, mas ainda assim, o fato de todos os móveis do apartamento alugado estarem cobertos por uma grossa camada de plástico, revelam que o tímido protagonista mais novo, está navegando por caminhos perigosos. 

Em meio a uso de drogas, dança e sexo, o diretor nos apresenta um verdadeiro quebra cabeças, pois afinal, teria o homem sem identidade, a intenção de assassinar o mais novo ou será que tudo não passa de um jogo, um fetiche ou uma transação profissional? Essas são as perguntas que Max joga para a audiência resolver ao longo da trama.

A tensão do ar é contínua e apenas se quebra nos minutos finais, com uma reviravolta que ninguém esperava. O curta é na verdade um estudo sobre sentimentos como depressão ou solidão e sobre como uma figura sem nome, que talvez seja uma representação física da Morte, e que anteriormente parecia ser assustadora, na verdade traz um acalento e empatia necessários para que o protagonista consiga realizar seu (último) desejo em vida. 

NOTA: 10/10

Sundance 2022 | Emergency

 20/01/2022

Por Victoria Hope

Um dos favoritos na categoria US Dramatic Competition teve sua estreia hoje (20) no Sundance durante a madrugada. Emergency é o drama necessário que aborda a questão do black lives matter e como é a vida de jovens estudantes negros, quando eles se encontram no local errado, na hora errada. 

Na trama, o aluno exemplar com as maiores notas da universidade, Kunle e seu amigo despreocupado, Sean, planejam um noite épica de festas por todas as irmandades da cidade universitária onde moram,  determinados a ser os primeiros alunos negros a completar a programação épica nas fraternidades.

Tudo ia muito bem, até que uma pequena parada em sua casa para pegar bebidas sai completamente fora do controle quando eles encontram em seu apartamento, o corpo de uma garota branca desmaiada e bêbada, enquanto Carlos, um amigo latino dos dois rapazes, estava lá o tempo todo  em outro quarto e não a viu aparecer.

Trazendo vida ao roteiro preciso e afiado de K.D. Dávila, junto a um brilhante elenco estreante, com atuações memoráveis de Donald Elise Watkins e RJ Cyler, o filme toca na ferida de questões raciais e é tão absurdo, que não parece ser real, mas infelizmente, é um medo que assola a comunidade negra até hoje, não apenas nos EUA como no mundo inteiro. 

Bastidores de 'Emergency' / Foto: Sabrina Carpenter

O duas vezes veterano do Sundance,  Carey Williams, faz sua estreia na Competição Dramática com Emergency, uma comédia sombria com temática forte que nos acerta em cheio, nessa adaptação do curta de mesmo nome que estreou no festival em 2018 e venceu a categoria do Júri Especial. 

O humor certeiro do filme consegue quebrar alguns momentos mais tensos do longa, mas logo nos deparamos com o inevitável, pois logo o clima de suspense entra em cena e é quase impossível não sentir o coração pular pela boca e as lágrimas começarem a rolar, mas felizmente, o longa diverge do final esperado e clichê dramático que apenas transformaria os protagonistas em mais uma hashtag

Nesse longa que inicialmente poderia ter sido apenas uma comédia universitária, nos deparamos com a verdade de que até mesmo tentar fazer a coisa certa,  pode se tornar um verdadeiro pesadelo para grupos minoritários que diariamente andam com um alvo invisível em suas costas. A virada melancólica nos últimos minutos, deixa um gosto amargo na boca e uma sensação de que o protagonista nunca mais será o mesmo após aquela noite.  

NOTA: 10/10