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Mostra de SP 2026 | Review | Tigre de Papel

 

Por Victoria Hope

Com presença do diretor James Gray, que foi homenageado também com o prêmio Leon Cackoff, a 50ª Mostra de Cinema de SP recebeu a primeira sessão de "Tigre de Papel" estrelado por Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller.  O filme acompanha uma família suburbana que sem querer, acaba se envolvendo com a máfia russa e as consequências desse encontro poderão ser fatais.

Indicado à Palma de Ouro em Cannes desse ano, o drama mergulha na realidade dos subúrbios dos Estados Unidos durante os anos 1986, em um cenário político onde a classe média alta estava em ascensão e é nesse cenário que os irmãos Gary Pearl (Adam Driver), e seu caçula Irwin Pearl, se envolvem em uma das maiores enrascadas de suas vidas.

Enquanto Gary, o irmão mais velho, é um ex-oficial da justiça com malandragem das ruas, seu irmão, Irwin é um fiscal de segurança de obras. A vida dos dois vai muito bem, já que Gary é abastado e praticamente sustenta seu caçula e sua família, mas tão envolto em seus próprios dilemas, nenhum dos dois percebe que Hester Pearl (Scarlett Johansson), esposa de Irwin, está lutando sua própria batalha com uma doença perigosa.

Tigre de Papel / Foto: Mostra de Cinema de SP

A direção de fotografia e a trilha sonora do longa são impecáveis e o ritmo, que acelera graduadamente é palpável em cada cena. Assim como longas como "Jóias Brutas", o público sabe que as farsas de Gary não vão durar muito tempo, afinal, não se brinca com os grandes chefões que comandam o Queens sem se queimar por completo, inclusive, o filme conta com uma das melhores atuações na carreira de Adam Driver. 

Tigre de Papel é um retrato nítido do que acontece quando se está no lugar errado na hora errada, não importa quão nobres sejam as atitudes de cada indivíduo. O final é completamente arrebatador, chocante, mas esperado por quem percebeu os sinais desde a primeira cena.

O longa ainda está em cartaz no Festival e terá suas próximas sessões nos dias, 16, no Solar Sala Petrobras e no dia 27 no Cultura Artística. Ingressos disponíveis no app, no site oficial ou na porta dos cinemas, uma hora antes de cada sessão.

NOTA: 9/10

Mostra de SP 2026 | Review | A Violência de Ninguém

 

Por Victoria Hope

 Em "A Violência de Ninguém', de Denis Cotê, a trama acompanha Mira (Larissa Corriveau), uma mulher solitária que viaja e se depara com pessoas desesperadas com quem parece ter selado pactos de morte ou eutanásia em um contexto distópico. No caminho, ela encontra Madeleine e Ludo, além de um jovem intrigante que a faz reavaliar seu estilo de vida errante.

Vencedor do Prêmio do Júri Jovem no Festival de Locarno, o longa mostra de forma sensível, como relações intensas podem mudar o curso de uma vida. Mira leva uma existência tão 'banal' que poderia ser confundida com um fantasma. 

Ao chegar a estacionamentos ou soleiras de portas, conforme combinado, ela calça luvas pretas antes de entregar o coquetel químico solicitado por aqueles que decidiram pôr fim à própria vida. Embora ela possa estar oferecendo uma forma de liberdade, a questão de saber se esse tipo de trabalho a mantém aprisionada nesse ciclo de vida e morte sem fim, como se ela fosse o próprio ceifador sinistro.


O que começa como um estudo de personagem, onde o público apenas observa o dia a dia da personagem, se torna uma verdadeira saga, enquanto a audiência espera que a vida monótona e quase clínica da personagem passe por uma reviravolta e aos poucos, de forma bem gradual, a personagem começa a descobrir como o mundo é muito mais do que o trabalho dela.

Toda a vida da personagem antes, era voltada à morte, mas tudo muda quando ela conhece, Pierric, um homem que tem sede de viver, mas não pense que existe aqui um clichê de que eles serão o amor da vida do outro, apesar do romance acontecer, mesmo que de forma breve entre os dois estranhos.

Larrissa carrega o filme com uma performance bem balanceada, hora contida, hora com uma ira visceral, ao mesmo tempo em que Xavier Begeron, que interpreta Pierric, mesmo que com poucas cenas, consegue dominar as cenas quando estar presente com um carisma enorme.

Apesar da temática fascinante, não é um filme para todo mundo por conta do ritmo lento, mas graduadamente a história se torna intensa até o final que é de tirar o fôlego, tão repentino e assustador que faz o coração pular da boca.

Nota: 8/10

Mostra de Cinema de SP 2026 | 50ª edição anuncia Primetime, com Robert Pattinson e novo filme de PTA

 

Por Victoria Hope

Primetime, filme de Lance Oppenheim exibido em competição no Festival de Veneza, e Cameron Winter at Carnegie Hall, novo longa-metragem do ganhador do Oscar Paul Thomas Anderson, entram na seleção da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Além das duas produções estadunidenses, o indiano Angh, de Theja Rio, que ganhou o prêmio da seção Plataforma no Festival de Toronto e por isso está apto a concorrer ao Oscar de filme internacional, e o documentário canadense The Sandbox, de Kenya-Jade Pinto, também vão ser exibidos na Mostra. 

Estrelado por Robert Pattinson, Primetime é baseado na história real do programa To Catch a Predator (“Como pegar um predador”, na tradução livre). Em 2006, o jornalista Chris Hansen se prepara para fazer história na televisão com To Catch a Predator, um programa polêmico que usa operações secretas e câmeras escondidas para expor, ao vivo, predadores sexuais pegos em flagrante. 

À medida que a atração se torna um fenômeno nacional e seu apresentador vira um ídolo do público, a linha que separa informação, justiça e espetáculo se torna cada vez mais tênue, e a mistura entre jornalismo, entretenimento e voyeurismo televisivo fica insustentável. O filme com produção da A24 e exibido na competição no Festival de Veneza estreia em breve no Brasil no Prime Video. 

Cameron Winter at Carnegie Hall / Foto: Hotpress

Já Cameron Winter at Carnegie Hall, primeiro longa de Paul Thomas Anderson depois de Uma Batalha Após a Outra (2025), vencedor de seis Oscars, incluindo filme e direção, é uma colaboração do cineasta com Benny Safdie em uma gravação multi formato. Em dezembro de 2025, após uma turnê de meses com ingressos esgotados ao lado de sua banda, Geese, Cameron Winter voltou a Nova York para uma única apresentação no Carnegie Hall. Este é o filme.

Angh, de Theja Rio, ganhou o prêmio da seção Plataforma do Festival de Toronto, que a partir de agora vale como pré-indicação automática ao Oscar de filme internacional, independentemente de ter sido submetido por um país. Ambientado em 1963, um vilarejo em Nagaland permanece como um dos últimos redutos dos caçadores de cabeças. Um ex-chefe da aldeia e seu filho, os dois únicos habitantes que ainda seguem sua antiga fé, vivem isolados enquanto lutam para sobreviver em um mundo em transformação. 

The Sandbox, de Kenya-Jade Pinto, foi exibido no festival de documentários CPH:DOX. Por meio de paisagens cinematográficas e contemplativas, The Sandbox explora fronteiras ao redor do mundo onde a vigilância e a inteligência artificial decidem quem vive e quem morre. Do deserto do Arizona ao mar Mediterrâneo, o sofrimento é administrado de forma clínica, enquanto o controle é apresentado como segurança. Mas, se não há como optar por ficar de fora, quem The Sandbox está realmente protegendo?

50ª Mostra conta com patrocínio master da Petrobras

 

Por Victoria Hope

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tem a enorme satisfação de, mais uma vez, contar com o patrocínio master da Petrobras. 

A renovação dessa parceria é fundamental para a Mostra apresentar uma edição histórica de 50 anos, com o objetivo de trazer ao público uma seleção ampla e diversa de filmes nacionais e estrangeiros, além de debates e oportunidades para a troca de ideias sobre o mercado audiovisual.

O festival será realizado de 15 a 29 de outubro, e o patrocínio foi viabilizado por meio do programa Petrobras Cultural, via Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Sala Petrobras na Mostra

Pelo quarto ano consecutivo, o festival conta com a Sala Petrobras na Mostra, um ambiente temporário, que, nesta edição histórica, será instalado no Solar Fábio Prado, na Avenida Faria Lima, uma região de fácil acesso. O espaço vai abrigar, além de sessões tradicionais, apresentações especiais e gratuitas desta 50ª edição, que ocorre entre os dias 15 e 29 de outubro de 2026.

A Petrobras também é patrocinadora master da 3ª Mostrinha, que busca aproximar crianças e adolescentes do cinema, formando uma nova geração de espectadores. Nos dois fins de semana do evento, a Sala Petrobras na Mostra exibirá títulos infantojuvenis em sessões gratuitas. 

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SERVIÇO – SALA PETROBRAS NA MOSTRA

Solar Fábio Prado: Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705 – Jardim Paulistano (a programação será divulgada perto da data do evento).

Paper Tiger, drama criminal dirigido por James Gray, abre a 50ª Mostra com presença do diretor

 

Por Victoria Hope

O filme Paper Tiger, dirigido pelo cineasta norte-americano James Gray, vai abrir a 50ª Mostra, em cerimônia na Sala São Paulo marcada para o dia 14 de outubro de 2026. Protagonizada por Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, a produção estreou no último Festival de Cannes. 

E as novidades não param por aí. Nessa terça (28), a Diamond Films anunciou a presença do diretor James Gray no Festival em sessão exclusiva para convidados. Com distribuição no Brasil pela Diamond Films, o filme é uma produção da brasileira RT Features, em parceria com Leone Film Group e Keep Head Productions. 

A obra acompanha dois irmãos que, em busca do sonho americano, envolvem-se em uma operação altamente perigosa e são arrastados para um submundo de corrupção e violência. À medida que se tornam alvos da máfia russa, o vínculo entre eles começa a se desgastar, tornando uma traição, antes impensável, em uma ameaça real.

O Diretor-Geral da Diamond Films Brasil, Vinicius Pagin, comenta: “É uma honra para a Diamond Films abrir a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo pela quarta vez nos últimos cinco anos, especialmente nesta edição histórica, que celebra os 50 anos do festival. Paper Tiger, novo filme de James Gray apresentado no Festival de Cannes, tem uma conexão direta com o Brasil: é uma produção da RT Features, produtora nacional responsável pelo projeto. Abrir a Mostra com um filme de alcance internacional e assinatura brasileira reforça o compromisso da Diamond Films de levar ao público grandes obras do cinema independente e valorizar o talento do país.” 

Rodrigo Teixeira, produtor e fundador da RT Features: “Esta será a primeira exibição oficial de ‘Paper Tiger’ em território brasileiro, e é uma grande satisfação apresentar um filme tão importante para a história da RT, dirigido por um grande parceiro, James Gray, com quem construí uma relação ao longo da minha trajetória. Observar James, Miles e Scarlett entregarem as performances de suas carreiras foi maravilhoso e estou muito animado para que o público possa conferir essa obra na abertura da Mostra, que molda a cinefilia de tantas pessoas”. 

Mostra de SP 2025 | Jay Kelly

 

Por Victoria Hope

Do que é feito um ator? De suas escolhas pessoais? De sua carreira ou do legado que deixa para trás? Essas são algumas das perguntas respondidas por Jay Kelly, nova dramédia estrelada por George Clooney e Adam Sandler para a Netlflix.

Com sua estreia programada para o encerramento da Mostra de SP 2025, o longa conta a história de Jay Kelly (Clooney), um ator em seus quase sessenta anos, prestes a receber um prêmio pelo corpo de se trabalho, mas que atualmente passa por uma crise ao perceber que deixou a família de lado para focar em sua carreira e agora talvez seja taarde demais para tentar criar laço com aqueles que sempre estiveram ao seu redor.

Com ajuda de seu agente, Ron (Adam Sandler), o ator embarca em uma viagem para Europa que irá mudar a vida de ambos para sempre, nessa jornada de autodescoberta onde tanto o ator quanto o agente e sua equipe colocarão em perspectiva tudo o que fizeram em seus tempos de parceria e se ao final, realmente valeu a pena sacrificarem tanto em prol do trabalho e tão pouco à suas famílias.

Em atuações belíssimas de Clooney e Adam Sandler, que mais uma vez mostra ter um talento enorme para o drama, o público é introduzido à história dos bastidores do cinema pelo ponto de vista de uma estrela que apesar da idade, ainda está no auge de sua carreira, principalmente por ser um homem privilegiado em hollywood.

Sem grandes pretenções, o filme leva a audiência a questionar os caminhos que as estrelas trilham até chegar à carreira de seus sonhos e quando sonhos de amigos e familiares essas estrelas precisaram destruir para serem considerados os melhores. Quantos aniversários, quantas datas especiais eles perderam porque tinham algum filme para gravar? E os agentes? O quanto de suas vidas dedicam às carreiras de seus talentos, deixando suas próprias famílias de lado?

O filme traz aquele sentimento melancôlico de que nem todos podem ou vão se perdoar e que está tudo bem seguir em frente. Uma das cenas, que celebra as carreira do ator, se cruza à carreira do próprio George Clooney em uma montagem cinematográfica de emocionate. 

Nota: 8/10

Mostra de SP 2025 | Entrevista com Akinola Davies Jr, diretor do drama emocionante A Sombra do Meu Pai

 

Por Victoria Hope

Um dos filmes mais aguardados pelo público da Mostra de Cinema de SP desse ano é sem dúvida o emocionante "A Sombra do Meu Pai" do diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr, que apresenta um ode à infância perdida de uma forma visceral e explora a relação entre pais e filhos, quando um patriarca que não necessariamente estava ali o tempo todo e como esse ato causa um impacto na vida dessas crianças.

Há alguns anos, Akinola recebeu um conto escrito por seu irmão Wale, que na época vivia na Nigéria e trabalhava como roteirista de TV. Fruto de um exercício de escrita, o conto de Wale Davies se tornou esse longa dilascerante que pode ser considerada uma história inspirada na vida dos dois criativos.

Com uma atuação brilhante do elenco, incluindo o premiado Sope Dirisu (His House) e os estreantes mirins e irmãos na vida real, Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo, o filme, que ainda terá sua estreia oficial durante essa semana na Mostra, vai marcar muitas gerações principalmente em tempos de discussões políticas calorosas, onde a vivência das crianças, infelizmente, nunca é refletida de forma tão profunda, mas que no filme, é abordada com uma sensibilidade e sensatez que emocionam.

Nossa equipe teve a chance de entrevistar o brilhante diretor Akinola e refletir sobre diversas das temáticas abordadas no filme e você confere como foi essa conversa abaixo:

A Sombra do Meu Pai / Foto: Mostra de Cinema de SP 2026

Amélie: Como você se sente em ser o diretor do primeiro filme nigeriano na história a competir em Cannes e também o primeiro filme nigeriano a ser exibido na Mostra de Cinema de SP? 

Akinola: É uma verdadeira honra ser o embaixador responsável por representar o cinema nigeriano. É algo incrível. Esse filme é repleto de texturas e talentos maravilhosos, uma linda história e uma bela equipe por trás, então o fato do meu filme estar na seleção oficial de Cannes e trazer esse destaque à Nigéria, me deixa extremamente orgulhoso.

As pessoas que vieram antes de mim e também fizeram filmes realmente pavimentaram o caminho e me influenciaram, me encorajando a sonhar em me tornar um diretor e eu me sinto apenas muito grato toda vez que vejo uma notícia sobre o filme por aí. As pessoas da Nigéria sentem como se essa também fizessem parte disso e isso me deixa muito feliz.

Amélie: Como foi trabalhar com Sope Dirisu e os irmãos Igbo nesse projeto?

Akinola: Wow, nossa, foi incrível! Digo, Sope é um sonho! Às vezes você vê alguém na TV e essa pessoa é um excelente ator e aí você pensa que se um dia encontrá-lo, essa pessoa não vai ter tempo ou que essa pessoa não é exatamente como você imaginava, mas Sope é exatamente tudo isso e muito mais! Ele é incrível, empático, bondoso, paciente e essas características são muito importantes, principalmente por ele atuar com dois atores mirins que estão só começando, assim como eu, pois esse é meu primeiro filme e também o primeiro projeto do Diretor de Fotografia.

Para muitos de nós, essa é a primeira vez, mas é claro que Sope tem muita experiência e eu acredito que mesmo antes de perceber, ele realmente estava ajudando muitos de nós no set. A química também entre ele e os garotos funcionou tão bem! Para mim, enquanto diretor, isso é um instrumento tão poderoso ter um ator tão excelente, porque isso torna meu trabalho ainda mais fácil.

E sabe, ele realmente se dedicou à esse projeto e ele também se tornou mais um irmão para mim, agora, sobre os garotos, eles são maravilhosos! Acredito que trabalhar com crianças é muito interessante porque eles são muito entusiasmados e possuem uma honestidade que vem de sua juventude, então ter aquela energia no set realmente nos ajudou. Quando você me conhece, sabe que eu sou uma pessoa bem boba (risos), então eu queria que as crianças brincassem e se divertissem, claro que sendo profissionais e focados, mas ao mesmo tempo, se divertindo nesse processo. 

Amélie: Você diria que o seu filme possui uma camada de realismo mágico?

Akinola: Isso é engraçado, porque Mati Diop teve uma resposta muito interessan te sobre realismo mágico. Eu diria que meu filme tem sim realismo mágico, mas parafraseando Diop, meu filme é mais um drama sobrenatural, porque eu acredito que isso depende muito de quem está perguntando. Eu acredito que se o termo vem de uma pessoa negra, assim como você, que é uma jornalista negra, que faz partre da minha comunidade, então sim, eu abraço o termo, mas se o termo vier de alguém que não faz parte da minha comunidade, então eu prefiro drama sobrenatural, pois as conotações do termo mágico vindo de lábios que não são nossos, não tem o mesmo significado quando dito por pessoas de fora da nossa comunidade.

Amélie: Perfeito! E qual foi sua cena favorita durante as filmagens? 

Akinola: Nossa, essa é bem difícil! Eu vou dizer que a cena do funeral talvez. É uma cena bem complexa falando pelo lado mais técnico, mas também muito emocional para mim. Eu tinha apenas alguns meses quando meu pai faleceu, então eu não me lembro de ter enterrado meu pai, mas aqui estou eu, trinta anos depois, fazendo um filme para honrar meu pai, o enterrando de novo. 

Nem todo mundo consegue ter essa oportunidade, então para mim, mesmo essa sendo uma cena muito emocionante, eu sinto que também é minha favorita, pois eu tive a oportunidade de deixar algo para trás e eu fiz isso em um lugar muito sagrado, rodeado de pessoas que amo.

Akinola Davies Jr e Victoria Hope no Espaço Itaú / Foto: Mariane Morisawa

Amélie: Quais são os três diretores que mais te inspiram?

Akinola: Nossa, em primeiro lugar, Ousmane Sembène, um diretor senegalês que é pai do cinema africano. Acredito que politicamente, artísticamente e socialmente, ele foi o meu norte nesse filme. Alguém que eu realmente venero, alguém que me inspira sempre a me manter firme quanto as minhas ideias, principalmente em filmes relacionados à cultura africana.

O segundo seria Hirokazu Koreeda, do Japão. Eu amo o Koreeda porque os filmes dele são simples, intrinsicamente japoneses sem medo de ser e sobre as complexidades de fazer parte de uma família. Eu amo isso! Amo quando a carreira de alguém é baseada na temática familiar e nas dinâmicas familiares de cada país.

E o terceiro é bem difícil mesmo, mas eu poderia dizer que por diferentes motivos, Ava Duvernay, porque eu comecei minha carreira faz pouco tempo e me lembro dela sendo uma figura tão positiva quando ela também começou sua carreira. Ela está um pouco mais à frente de mim, mas ambos começamos com a mesma idade e ela sempre falou sobre isso.

A forma que ela fala sobre isso toca no lado da experiência que vem com a idade e com sua vida antes de começar a fazer filmes e que isso realmente a ajudou. Quando eu comecei, foi exatamente isso que me motivou a não me sentir mal por não ter começado mais cedo e isso também me ensinou a sser mais intencional com o meu tempo. E no topo disso, eu acredito que ela é um bastião do cinema negro pelo que ela faz pela indústria, principalmente com a produtora dela. 

É uma diretora fantástica que sempre destaca talentos negros, outra coisa que eu também quero fazer e ela sempre contribui de forma positiva para a indústria do cinema, seja criando festivais, incentivando novos diretores. No futuro, eu realmente quero fazer uma constribuição para que as pessoas venham para a Nigéria e se encantem com a comunidade cinematográfica daqui.

Amélie: Você comentou que esse filme é muito pessoal para você. Então o que acha de viajarmos no tempo para conversar com o pequeno Akinola. Se você pudesse deixar um recado para ele, qual seria?

Akinola: Wow, eu realmente penso sobre isso o tempo todo e agora que você me perguntou,eu acho que preciso pensar um pouco mais. (risos) Eu acho que eu diria para o pequeno Akinola ser mais bondoso com ele mesmo, porque eu acho que, como cresci sem meu pai, eu tinha tantas questões e ra tão duro comigo mesmo; eu internalizei muitas coisas e cresci no mundo dos sonhos, apaixonada por tv, por cinema e isso me motivou também a ter um pouco mais de compaixão por mim. Eu diria para o pequeno Akinola amar ser quem ele é!

Amélie: Poderia nos dizer 3 palavras que definem "A Sombra do Meu Pai?"

Akinola: Eu diria Família! Por causa da natureza da história, Dever, já que isso funciona para os dois lados, tanto o dever para com os filhos quanto o dever ao próprio país, e a última, a mais difícil, seria Memória. Acredito que grande parte do filme seja sobre memória e como hora ela pode ser confiável, hora não pode ser confiada e como ao mesmo tempo ela pode ser linear e não-linear.

Amélie: E qual seria a principal mensagem do filme que você gostaria que o público da Mostra levasse para sempre com o filme?

Akinola: Essa é uma excelente pergunta e eu tenho uma ótima resposta para isso! Eu quero que o público projete suas vidas nesse filme. Eu não tenho uma mensagem final, porque se eu dizer, isso vai ser um ciclo fechado, que fecha as portas para o diálogo e eu quero tere esse diálogo com o público, então eu quero que o filme tenha sua própria jornada emocional e sua própria mitologia para cada pessoa que estiver assistindo

Quero que as pessoas se divirtam e se vejam refletidas nessa história e que deixem todos os sentimentos fluírem enquanto assistem ao filme.

Mostra de SP 2025 | Papagaios

 

Por Victoria Hope

Papagaios, suspense nacional de Douglas Soares teve sua estreia no Festival de Gramado e também está em cartaz na 49ª Mostra de Cinema em São Paulo e definitivamente foi um dos meus filmes mais antecipados do evento. Na trama, Tunico (Gero Camilo) é o mais famoso “Papagaio de Pirata” do Rio de Janeiro, uma categoria de pessoas que adoram aparecer ao fundo das reportagens, perseguindo repórteres para todos os lados a fim de terem seus 15 minutos de fama na TV. 

Após um grave acidente em um parque de diversões, Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que trabalhava em uma das atrações do local, se torna obcecado pela figura de Tunico e logo se torna seu pupilo, a fim de buscar fama a qualquer custo; qualquer custo mesmo.

O longa, repleto de ambiguidades, toca em uma ferida profunda que vem há muitos anos (ou até mesmo séculos) antes da criação dos influencers digitais. O desejo de ser visto, para deixar uma marca seja na sua comunidade ou no mundo é algo fascinante de acompanhar, afinal, como dizia o ditado, "quem não é visto, não é lembrado" e se tem um personagem que tem medo de ser esquecido por todos, esse é Tunico, interpretado de forma brilhante por Gero Camilo, não é a toa que o ator venceu o Kikito de Ouro em Gramado por esse personagem tão envolvente. 


Papagaios / Foto: Olhar Filmes

Toda a artmosfera do longa é muito bem construída, em um slow burn muito bem construido, onde muitos dos diálogos são focados pelo "não dito", onde olhares e gestos dizem mais do que mil palavras e é nesse momento onde Ruan, em seu papel estreante em longa metragem, entrega absolutamente tudo em uma performance devastadora, no melhor sentido da palavra, apresentando esse personagem tão controverso, sedutor e ao mesmo tempo assustador.

Enquanto Tunico parece ser um livro aberto, Beto parece ser um enigma a ser decifrado e qual foi a minha surpresa ao perceber a virada de chave, quanto o público finalmente entende qual dos dois personagens realmente esconde suas verdadeiras intenções. 

Uma das cenas mais belas do longa, é embalada por uma trilha envolvente enquanto Tunico e Beto ensaiam suas posições em frente a um espelho, quase como que numa dança que representa a movimentação dos papagaios de pirata em frente as câmeras. É o tipo de cena que marca um dos momentos mais icônicos do cinema brasileiro e diz muito sobre o tutor e seu pupilo.


Papagaios / Foto: Acervo Leo Jaime

A direção de fotografia é incrível e ajuda a criar a estética típica dos anos 90, quando os celulares estavam começando a chegar, mas a internet que conhecemos hoje ainda não existia, então percebe-se que a única mídia onde os papagaios poderiam aparecer era na TV e no rádio, alías, após o filme, será impossível assistir aos noticiários sem imaginar que as pessoas de fundo são papagaios de pirata até mesmo nos dias de hoje.

Traçando uma comparação ainda mais moderna, é possível comparar os papagaios com aquelas pessoas que surrupiam vídeos de outros criadores de conteúdo, colocam uma tela verde para replicar o vídeo ao fundo e ficam em frente a tela sem dizer nenhuma palavra, apenas acenando com a cabeça e fazendo gestos com as mãos, como se tivessem feito "um grande mousse", quando na verdade estão apenas tentando ganhar seus minutos de fama em cima de um conteúdo que tem bastante alcance, como vídeos virais, por exemplo. 

Papagaios traz diversas mensagens relevantes e sai completamente fora da curva de projetos mais recentes do cinema nacional e apesar do ritmo mais lento, com certeza vai fazer fãs de suspense se apaixonarem por essa história e por seu elenco. O final é de cair o queixo e extremamente ambíguo, o que vai fazer com que o público questionar qual é a verdadeira intenção dos protagonistas até o último segundo.

NOTA: 8.5/10 

Mostra de SP 2025 | A Sombra do Meu Pai

 

Por Victoria Hope

"A Sombra de Meu Pai", que fez história ao ser lo primeiro filme nigeriano a competir em Cannes, é um conto semi autobiográfico do estreante Akinola Davies Jr, ambientado em um único dia na metrópole nigeriana de Lagos, durante a crise eleitoral de 1993. 

A história acompanha um pai, afastado dos dois filhos pequenos, durante uma jornada por essa enorme cidade enquanto a agitação política ameaça sua volta para casa e o filme recebeu a menção honrosa do júri da Caméra d’Or no Festival de Cannes.

Enquanto acompanhamos dois gêmeos,  Aki (Godwin Egbo) e Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo) que vivem seus dias entre brincadeiras e estudos, percebemos que há ausência de alguém na cena até sermos introduzidos a Folarin, pai dos garotos, interpretado de forma brilhante por Sope Dirisu (His House). 

As crianças reclamam da ausência do pai no dia a dia, enquanto o adulto tenta justificar dizendo que precisa trabalhar em outra cidade todos os dias para manter o bem-estar dos garotos, mas e quantas pessoas cresceram com pais que trabalhavam o dia inteiro e mal podiam ver seus filhos? Essa não é uma história tão incomum, alíás, é tão usual e verdadeira que é quase impossível o público, principalmente das gerações millenal e Z, não se identificarem com a trama.

Nesse meio tempo, em alguns dos raros dias onde a mãe dos meninos está fora de casa, Folarin precisa ir para Lagos trabalhar e decide levar os filhos para trabalharem um dia com ele e aí se inicia uma jornada eletrizante (e ao mesmo tempo perigosa), enquanto a Nigéria passa por um de seus momentos mais complicados da história, em meioo a ascenção do fascismo e a destruição da democracia no ano de 1993.

A Sombra de Meu Pai, é uma belíssima carta de amor à ausência paterna, inclusive, em muitos momentos, o realismo mágico toma conta da trama, afinal, não sabemos se o que eastá acontecendo é real ou se a imaginação fértil das crianças está criando aqueles momentos especiais com o pai que talvez nunca esteve ali.

Repleto de poesia, uma das melhores direções de fotografia do ano e momentos que vão arrancar lágrimas, o longa é sem dúvida um dos projetos mais belos da temporada e que merece ser reconhecido nas premiações do próximo ano, incluindo com indicações de Melhor Ator para Sope Dirisu, Melhor Direção para Akinola Davies Jr e Melhor Filme em Lingua Estrangeira. Estaremos aqui na torcida.

Nota: 9.5/10

Mostra exibe Queen Kelly e promove debate sobre a restauração do filme com o arquivista norte-americano Dennis Doros

 

Por Victoria Hope

Sempre atenta às discussões sobre memória e preservação do cinema, a Mostra dedica parte da programação a obras restauradas, títulos raros, novas cópias de clássicos e filmes "perdidos" a serem redescobertos.

Um desses casos é Queen Kelly (1929), cuja reconstrução chega à 49ª Mostra após estrear no Festival de Veneza. O arquivista Dennis Doros, responsável pela reconstituição, está no festival e participa de uma mesa sobre o processo do restauro neste domingo (19), depois da exibição da produção, que será apresentada às 20h45, na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira. A participação no debate está vinculada ao ingresso para a sessão.

Filme mítico, e com diferentes versões após uma conturbada produção, o título dirigido por Erich von Stroheim, estrelado por Gloria Swanson, sofreu com os cortes do estúdio e a intervenção da própria Swanson, em um momento de transição para o cinema falado, transformando Queen Kelly em um fragmento que entraria para a história de Hollywood. Doros conta que o resultado dessa versão de é uma "reimaginação" da concepção original de Stroheim. A reconstrução se baseia na descoberta de materiais, na recuperação de originais em nitrato e ferramentas digitais utilizadas em restaurações.

A 49ª Mostra exibe também uma cópia maior do indiano Sholay (1975), de Ramesh Sippy, que completa 50 anos; o português Aniki-Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira; e o argelino Crônica dos Anos de Fogo(1975), de Mohammed Lakhdar-Hamina, que faleceu em maio de 2025 — pelo filme que estreou há cinco décadas, ele foi o primeiro cineasta árabe-africano a receber a Palma de Ouro do Festival de Cannes.


Lua Cambará - Nas Escadarias do Palácio / Foto: TV Brasil

O japonês Chuva Negra (1989), de Shohei Imamura, que faz parte da efeméride dos 80 anos das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, integra a programação com uma nova cópia. Em memória ao evento trágico, a Mostra vai passar ainda Alma Errante – Hibakusha (2025). Uma sessão dupla ocorre no Sato Cinema neste domingo (19), às 19h. A exibição será seguida de uma apresentação da música Rosa de Hiroshima (baseada no poema de 1946 do escritor Vinicius de Moraes), interpretada por Mariana de Moraes, filha de Vinicius, e por Gerson Conrad, do Secos & Molhados, grupo que eternizou a canção.

Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, que comemora 21 anos da primeira exibição do filme na Mostra, onde recebeu os prêmios do júri, de melhor ator, para João Miguel, e da crítica de melhor filme brasileiro, terá a sua versão restaurada exibida.

O cinema brasileiro também está representado com as restaurações de Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio (2002), de Rosemberg Cariry, Tônica Dominante (2001), de Lina Chamie, e Um Céu de Estrelas (1995), de Tata Amaral, que completa três décadas.

Além disso, a nova cópia digital de Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman, confeccionada pelo laboratório de imagem e som da Cinemateca Brasileira, também faz parte do programa.

Mostra de SP 2025 | Frankenstein de Guillermo Del Toro

 

Por Victoria Hope

O anúncio de que Guillermo Del Toro adaptaria "Frankenstein" uma das obras mais aclamadas e queridas da literatura gótica, encheu os fãs do gênero de esperanças, porém com o anúncio veio a melancolia pelo fato de que o filme não seria lançado nos cinemas e sim diretamente para o streaming, porém felizmente, muitas pessoas vão poder assistir o longa em diversas sala de cinema do país antes da estreia oficial no dia 7 de novembro na Netflix.

Frankenstein de Mary Shelley pessoalmente é uma das minhas obras favoritas da literatura, logo, as expectativas estavam altas, porém, apesar de visualmente o filme ser impecável, o roteiro deixa a desejar, principalmente na subversão de vários temas que são essenciais para a obra e que foram trocados pela liberdade criativa de Del Toro, hora bem vinda, hora causando estranhamento.

Na trama, dividida em duas partes, o público é introduzido ao Doutor Victor Frankenstein (Oscar Isaac), um brilhante, porém excêntrico cientista que sonha em criar vida após a mostre. Acompanhamos sua história desde sua infância conturbada, com um pai quase sempre ausente e uma mãe amável à sua vida adulta, quando após anos de estudo, decide colocar suas teorias em prática e trazer a vida uma criatura perfeita.

Enquanto acompanhamos o jovem doutor em missões perigosas em busca das partes de corpo perfeita para sua criatura, também somos introduzidos à cunhada de Victor, Elizabeth (Mia Goth), que estranhamente é muito parecida com a mãe do cientista. 

Frankenstein / Foto: Netflix

As duas horas e meia do filme são bem sentidas, afinal, o primeiro ato se arrasta demasiadamente, carregado por uma atuação extremamente caricata de Oscar Isaac, que a todo momento parece ler o roteiro ao invés de interpretar como alguém da época e infelizmente o mesmo acontece com quase todo o elenco, incluindo Mia Goth, extremamente mal aproveitada e com pouquíssimas falas, apesar de interpretar 2 (quase 3) personagens no longa. 

Quem realmente surpreende é Jacob Elordi como a Criatura, que entrega uma das melhores atuações do ano e que com certeza deveria ser valorizado na temporada de premiações. Tudo o que ele entrega em cena, desde a inocência e curiosidade da Criatura, até mesmo sua performance corporal de tirar o fôlego, ajudam a dar vida a essa criatura tão amada por fãs de terror, trazendo toda a poesia por trás das falas do personagem, o que com certeza deixaria Mary Shelley muito orgulhosa, afinal, sabemos que Del Toro, como nenhum outro diretor, tem um respeito máximo pelas criaturas e monstros das histórias e é aqui onde o roteiro brilha. 

Mas é claro que outro aspecto extremamente positivo do filme é o visual, incluindo os figurinos belíssimos e intricados que parecem ter saído diretamente da época que representam. A única pena é o CGI horroroso de animais que aparecem ao longo do filme e estragam completamente a imersão, principalmente durante o segundo arco da história. Esse é um filme que vai dividir opiniões, talvez pela expectativa que fãs tem sobre o nome de Del Toro e por conta do elenco recheado de estrelas, mas essa talvez seja uma das adaptações mais fiéis de Frankestein que tivemos até hoje. 

NOTA: 8.5/10

Mostra de SP 2025 | Sirât

 

Por Victoria Hope

Existem filmes que deixam a audiência boquiaberta comk sua conclusão e "Sirât", é um desses títulos que marca quem assiste para sempre. Na trama, o público acompanha a  busca desesperada de um pai e seu filho por uma jovem desaparecida que aparentemente sumiu em uma rave no deserto.

O que se segue, é uma jornada assustadora e sufocante enquanto essa família tenta encontrar a garota, ao mesmo tempo em que conhecem um grupo de pessoas que vivem a vida de raves e pouco se importam com o amanhã; pelo menos à primeira vista, é o que parece ser, mas logo, o protagonista e seu filho vão perceber que aqueles desconhecidos oferecem muito mais do que uma 'vida sem regras'.

Inicialmente, a rave parece ser o ápice da liberação, mas aos poucos, começa a revelar um lado muito sombrio e assustador das festas que acontecem em meio ao deserto, principalmente desertos do oriente médio onde conflitos seguem sem freio. 

Sirât / Foto: Mostra Internacional de Cinema de SP 

O título do filme evoca a Ponte As-Sirât, um dos elementos centrais do imaginário islâmico, que diz que no Dia da Ressurreição, as almas devem passar por uma passagem mais fina que um fio de cabelo, correndo o risco de cair em um submundo repleto de chamas e a alegoria não poderia ser mais verdadeira quando se fala no filme, que de sua maneira, reflete essa mesma passagem.

Tanto o lado emocional dos protagonistas quando o espiritual é posto à prova conforme eles avançam com seus carros ao som de techno, enquanto o sentimento da morte e desespero segue todos os seus rastros, culminando em momentos chocantes.

Não há mais o que falar sobre a trama sem que spoilers sejam contados, mas a catarse de toda a história faz Sirât valer a pena. É um filme forte, pesado, porém com umja mensagem extremamente relevante, principalmente com o cenário socio-político atual.

NOTA: 8.5/10 

Mostra de SP 2025 | Papagaios, suspense vencedor de 4 kikitos no Festival de Gramado, integra programação oficial

 

Por Victoria Hope

O longa-metragem “Papagaios”, do cineasta carioca Douglas Soares, faz parte da 49ª da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que ocorre de 16 a 30 de outubro. 

O premiado suspense, que levou quatro Kikitos no Festival de Gramado deste ano, sendo de Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular, Melhor Ator (Gero Camilo), Melhor Direção de Arte (Elsa Romero) e Melhor Desenho de Som (Bernardo Uzeda, Thiago Sobral e Damião Lopes), integra a Mostra Brasil e tem exibições confirmadas nos dias 18 e 29 de outubro. 

“Estamos muito honrados em participar da Mostra de São Paulo, que é um dos mais importantes eventos de cinema do País. Tivemos uma excelente recepção do público e da crítica no Festival de Gramado e essa será uma nova oportunidade de apresentar a produção aos espectadores que ainda não conseguiram conferir o filme”, comenta o cineasta Douglas Soares. 

“Papagaios” traz uma sátira social sobre os limites éticos da fama, em um suspense marcado por mistérios e uma pitada de humor, indagando sobre o que o ser humano está disposto a fazer para aparecer na TV, seja em tragédias, velórios de famosos ou nos noticiários.

Sucesso de crítica no Festival de Gramado pela imprensa especializada, o longa-metragem teve uma de suas cenas considerada como uma das mais belas do cinema brasileiro recente. Ela traz os dois personagens principais, Tunico (Gero Camilo) e Beto (Ruan Aguiar), em uma coreografia misteriosa e inusitada, ao som da canção “Naquela Mesa”, de Sérgio Bittencourt, com interpretação de Nelson Gonçalves. 


Mostra de SP 2025 | Drácula de Radu Jude

 

Por Victoria Hope

Existe um limite quanto fala-se em filmes tediosos, mas "Drácula" de Radu Jude talvez ultrapasse todos esses limites em termos de chatice, mau gosto e vulgaridade. Raramente inicio críticas falando do que não apreciei em um longa, mas isso não quer dizer que o filme não tenha pontos interessantes abordados.

O uso excessivo da IA, mesmo que em crítica, ainda assim não deixa de ser inteligência artificial e não deixa de utilizar litros e litros de recursos naturais para tentar "passar uma mensagem". Apesar disso, O Drácula de Jude apresenta uma ferrenha crítica à indústria cinematográfica, ao consumismo exacerbado e ao próprio uso indiscriminado de inteligência artificial.

Na trama, acompanhamos um autor que utiliza uma IA fictícia chamada Dr. AI Judex, para criar diversos filmes temáticos de Dracula. Enquanto o personagem autor tenta criar um filme com símbolos que supostamente o público gosta, o público é atacado com centenas de cenas repetitivas de sexo, palavras de baixo calão e violência. 

O artifício da IA falsa funcionaria muito bem como uma crítica caso a IA verdadeira não tivesse sido utilizada, fora que, o ritmo do filme, que é excessivamente longo, se torna cansativo rapidamente, até mesmo porque há uma repetição da mensagem em cada um dos "capítulos" apresentados.

Criticas ao capitalismo são salpicadas em casa uma das tramas, as vezes funcionando muito bem, como no episódio específico onde Dracula é pintado como um CEO carrasco de uma empresa, mas na maioria das vezes à crítica não vai muito longe. 

Em alguns momentos, as cenas de nu frontal principalmente feminino são tão excessivas que cheguei a pensar que estava vendo um filme feito por um adolescente na puberdade e não por um diretor adulto renomado. É um filme incômodo que por mais que tente parecer 'genial", só se torna um produto vazio, tal qual o produto que ol próprio personagem autor tenta criticar. Seria essa uma então? Talvez.

Nota: 4/10

Mostra de SP 2025 | Bugonia

Por Victoria Hope

Bugonia, de Yorgos Lanthimos, definitivamente será um dos filmes mais divisivos do diretor grego, que novamente firma sua parceria com Emma Stone nesse remake que satiriza a estupidez humana e nos relembra do momento socio-político atual no mundo inteiro.

Na trama, somos introduzidos à Teddy (Jesse Plemmons), um rapaz viciado em teorias da conspiração, que acredita que alienígenas do planeta Andrômeda invadiram a Terra em busca da destruição total do planeta e cabe a ele, um simples humano comum, parar essa ameaça, nem que para isso ele precise da ajuda de seu primo mais novo, Dom (Aidan Delbis). 

O alvo da dupla atrapalhada é ninguém mais que Michelle (Emma Stone), uma poderosa CEO da indústria farmacéituca, que segundo Teddy, é uma alienígena. Nenhum dos dois rapazes tem provas, porém por um golpe de sortem, conseguem sequestrar a empresária e a partir dai, começam um jogo de torturas físicas e psicológicas com a mulher, afim de arrancarem uma suposta confissão.

Olhos mais atentos com certeza poderão até mesmo notar alfinetadas modernas sobre casos como o de Luigi Mangione, acusado do assassinato do CEO da United Healthcare, Brian Thompson. Não que Bugonia seja o primeiro filme a falar sobre a revolta da classe trabalhadora contra o capital, mas muitos com certeza vão assimilar semelhanças com o caso mais recente na mídia. 


Bugonia / Foto: Universal Pictures


Com um tom de Misery, do Stephen King, o filme é repleto de mensagens extremamente relevantes, desde a crítica ao capitalismo à indústria farmacêutica à um estudo sobre teorias conspiratórias e como a internet, pelo bem ou pelo mal, pode influenciar pessoas a acreditarem em tudo o que leem, por mais caóticas e conspiratórias que sejam as teorias.

Tem momentos no filme onde o personagem Teddy chega a requintes de crueldade contra Michelle e é nesse instante que a audiência começa a se questionar se todo esse ódio de Teddy é pelos supostos alienígenas invasores ou se ele odeia a mulher em si pelo fato dela ser essa CEO que supostamente está ligada à uma tragédia que aconteceu com a mãe do rapaz ou por ela também supostamente ser uma das empresárias que está acabando com a população de abelhas e consequentemente, destruindo o planeta.

Em Bugonia, Emma Stone está mais contida, porém se diverte no papel da inabalável magnata Michelle, sabendo dosar o drama e bom humor com maestria ao lado de Jesse Plemmons, que aqui apresenta um dos melhores trabalhos de sua carreira, mas vale também o destaque para Aidan Delbis, que apesar de novato, faz um excelente trabalho e ainda adiciona uma importante representatividade neurodiversa muito bem vinda às telas. 

Além da brilhante direção de fotografia e uma ótima trilha sonora, o filme faz pensar, mas por trazer tantos plot-twists e caos em tela, pode ser mais um título divisivo para o público geral. É um filme mais simples do que Pobres Criaturas do mesmo diretor, por exemplo, mas não isso não quer dizer que o projeto não tenha seus trunfos.

NOTA: 9/10

A História do Som | Universal Pictures anuncia longa estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor na 49ª Mostra de SP

 

Por Victoria Hope

A Universal Pictures revela que “A História do Som” (The History of Sound), dirigido por Oliver Hermanus fará parte da Mostra Internacional de Cinema de SP! Ovacionado em sua estreia no Festival de Cannes, em maio desse ano, o filme estreia em 19 de fevereiro de 2026 nos cinemas brasileiros.  

Em seu elenco, o longa conta com grandes nomes, como Paul Mescal, indicado ao Oscar de Melhor Ator em 2023 por “Aftersun”; Josh O’Connor, vencedor do Emmy 2021 na categoria Melhor Ator em Série Dramática; e Chris Cooper, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.  

“A História do Som” acompanha Lionel (Paul Mescal), um talentoso estudante de música que conhece David (Josh O’Connor), no Conservatório de Boston, onde eles se conectam pelo profundo amor que compartilham pela música folk. 

Anos depois, os dois se reencontram e partem juntos a uma viagem improvisada pelo interior do Maine, para coletar canções tradicionais da cultura folk. Esse encontro inesperado, o caso de amor que nasceu dele e a música que eles coletam e preservam, vão influenciar o curso da vida de Lionel muito além de sua própria consciência. 

Mostra de SP 2024 | Conheça os filmes vencedores da 48ª edição

 

Por Victoria Hope

A 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo realizou na noite desta quarta-feira, 30 de outubro, a cerimônia de encerramento do evento no Espaço Petrobras, na Cinemateca Brasileira. 

Com apresentação de Renata de Almeida e Serginho Groisman, a solenidade realizou a entrega dos prêmios desta edição, entre eles o Prêmio Leon Cakoff para o cineasta Francis Ford Coppola, que estava presente no evento. A premiação foi seguida da exibição do filme mais recente do diretor americano, Megalópolis.

Veja abaixo a lista completa dos títulos premiados:

PRÊMIO DO JÚRI

Os filmes da seção Competição Novos Diretores mais votados pelo público foram submetidos ao Júri, formado nesta edição pela atriz brasileira Camila Pitanga, pelo ator e cineasta português Gonçalo Waddington, pela curadora e produtora Hebe Tabachnik, pelo produtor Kyle Stroud, pelo diretor e escritor iraniano Mohsen Makhmalbaf e pelo crítico de cinema francês Thierry Meranger.

Os jurados escolheram Familiar Touch, de Sarah Friedland, e Hanami, de Denise Fernandes, como os melhores filmes de ficção. Como melhor documentário, premiaram No Other Land, de Basel Adra, Rachel Szor, Hamdan Ballal e Yuval Abraham, e Sinfonia da Sobrevivência, de Michel Coeli. Também concederam o prêmio de melhor direção para Adam Elliot, do filme Memórias de um Caracol.

PRÊMIO DO PÚBLICO

O público da 48ª Mostra escolheu, entre os longas internacionais, O Caso dos Estrangeiros, de Brandt Andersen, como melhor filme de ficção, e Balomania, de Sissel Morell Dargis, como melhor documentário. Entre os brasileiros, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, recebe o prêmio de melhor ficção, e 3 Obás de Xangô, de Sérgio Machado, o de melhor ficção.

A escolha do público é feita por votação. A cada sessão assistida, o espectador recebe uma cédula para votar com uma escala de 1 a 5, entregue sempre ao final do filme. O resultado proporcional dos filmes com maiores pontuações determina os vencedores.

PRÊMIO DA CRÍTICA

A imprensa especializada que cobre o evento e tradicionalmente confere o Prêmio da Crítica também participou da premiação elegendo Manas, de Marianna Brennand, como melhor filme brasileiro, e Levados Pelas Marés, de Jia Zhangke, como o melhor longa entre os estrangeiros.

PRÊMIO DA ABRACCINE

A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema também realiza tradicionalmente uma premiação que escolhe o melhor filme brasileiro. Neste ano, o eleito foi Intervenção, de Gustavo Ribeiro

PRÊMIO NETFLIX

Pela segunda vez, a Netflix vai entregar um prêmio no festival, que será concedido a um filme brasileiro participante da Mostra deste ano que ainda não tenha contrato com um serviço de streaming. O longa premiado nesta 48ª edição foi Serra das Almas, de Lírio Ferreira.

PRÊMIO PARADISO

O prêmio do Projeto Paradiso Mostra dá apoio à distribuição nos cinemas a um dos filmes da seção Mostra Brasil que recebeu maior votação do público. O aporte serve para complementar a distribuição da obra nas salas de cinema brasileiras e ajudar a sua estreia nas telas nacionais. Neste ano, o Prêmio Paradiso foi concedido ao filme Malu, do diretor Pedro Freire.

PRÊMIO BRADA - Prêmio de Melhor Direção de Arte

O Coletivo de Diretoras de Arte do Brasil premia pela terceira vez na Mostra o trabalho de um diretor de arte que tenha se destacado no festival. Neste ano, Mathé recebe o prêmio pela Direção de Arte pelo seu trabalho no filme Hanami, de Denise Fernandes.

Mostra de SP 2024 | Clube das Mulheres De Negócios

 

Por Victoria Hope

Inicio essa crítica dizendo que "O Clube das Mulheres de Negócios" acaba de entrar no meu ranking de filmes favoritos da Mostra de Cinema Internacional de 2024. O novo filme de Anna Muylaerte retrata a crise do patriarcado, ambientado em um mundo imaginário onde os estereótipos de gênero estão invertidos, ou seja, as mulheres ocupam as posições de poder enquanto os homens são criados para serem socialmente submissos. 

Questões emergentes também são abordadas, não apenas do machismo, mas o racismo, do classismo e da corrupção, enraizados na cultura patriarcal do Brasil e do mundo. Estrelado por grandes nomes da TV e da comédia brasileira, o longa aborda temas extremamente relevantes como patriarcado, corrupção, a influência de bancadas religiosas na política e assédios.

"O Clube das Mulheres de Negócios", escancara o absurdo que muitas mulheres sofrem diariamente, só que aqui é ao contrário, já que as mulheres dominam o mundo, desde a política à todas as outras esferas de poder de decisão na vida de todos os brasileiros.

O Clube das Mulheres de Negócios / Foto: Vitrine Filmes

De forma brilhante, o filme escancara as disparidades de gênero e como diversas atitudes retrógradas por parte da comunidade masculina, são normalizadas e não deveriam ser. Hora em momentos de comédia, hora em momentos que vão fazer seu sangue ferver de ódio, o filme questiona o porquê da sociedade aceitar certos comportamentos.

A quem interessa manter o status quo? Essa é uma das principais perguntas lançadas pelo filme e ao passo em que a história se desenvolve, fica cada vez mais nítida a verdadeira mensagem que o filme quer passar e apesar do ritmo se perder um pouco na metade do segundo ato para o terceiro, aos poucos o filme ganha fôlego novamente, principalmente quanto as 'vilãs' da história começam a sofrer as consequências de seus atos.

Com atuações hilárias e poderosas do elenco, essa distopia não tão distante da nossa realidade, mostra como enquanto sociedade, não podemos deixar que o patriarcado persista em espalhar seus tentáculos em toda nossa história. É um filme que irá lavar a alma de muitos.

NOTA: 9/10

Mostra de SP 2024 | O Banho do Diabo

 

Por Victoria Hope

Abro essa crítica de "O Banho do Diabo", dizendo que nunca senti uma sensação tão ruim ao sair de uma sala de cinema e isso não é uma crítica, pois demonstra o quão efetivo é "O Banho do Diabo" novo longa de  baseado em relatos históricos sobre os horrores da vivência dos papéis de gênero, principalmente feminino, sob a pressão do patriarcado durante o sacro império austríaco, no século XVIII.

Os diretores e roteiristas austríacos Veronika Franz e Severin Fiala (Boa Noite, Mamãe) retornam com mais um horror psicológico que nos faz revirar de pavor, com uma trama necessária sobre os papéis que as mulheres tem sido submetidas ao longo dos séculos.

Na trama, conhecemos Agnes (Anja Plaschg), uma jovem radiante e muito feliz com seu dia de casamento, mas tudo muda quando ela finalmente vai morar com o marido e percebe que sua sogra não é tão fã de sua presença e que até mesmo sua aldeia não a admira, conforme o tempo passa e ela é não consegue engravidar, já que seu marido não quer se deitar com ela e obviamente, naquele período, toda a culpa  e ódio cai em cima da esposa.


O Banho do Diabo / Foto: Mostra Internacional de Cinema

Conforme o tempo passa, Agnes, outrora animada e feliz, aos poucos vai se tornando cada vez mais depressiva, apática e sem esperança, cada vez que sua sogra a critica e cada vez que seu marido se recusa a tocá-la. Ela é mais uma das mulheres que são sujeitas às regras do patriarcado, em uma época onde ou a esposa dava filhos ao marido ou era colocada de lado e tratada como uma pária naquela sociedade. Qualquer semelhança com o presente de muitas mulheres, não é mera coincidência. 

O Banho do Diabo é efetivo não apenas pelo figurino w pela brilhante atuação de Anja, que já se consagra como uma das melhores atrizes do ano, mas pela atmosfera e trilha extremamente fiel à época retratada e pelo realismo das cenas de gore, que são tão reais, que parecem literalmente estar acontecendo de verdade e é a partir desse ponto que o verdadeiro desconforto começa, pois em alguns momentos, parece que estamos vendo um filme snuff, tamanho  realismo dos efeitos práticos e das maquiagens.

Enquanto Agnes se perde em meio a tristeza, que pouco a pouco se torna loucura, coisas estranhas começam a acontecer naquela vila e a raiva e ira tomam conta, causando um dos finais mais impactantes e assustadores que o público fã de terror folk já viu. Não é um filme para se assistir mais de uma vez, mas pode ter certeza que a primeira será suficiente para cravar imagens de dor na sua mente por um bom tempo.  

NOTA: 9/10

Mostra de SP 2024 | Entrevista com Kyle Stroud, produtor de O Brutalista, Harvest e Eephus

 

Por Victoria Hope

Kyle Stroud, fundador da Carte Blanche, produtora reconhecida por desenvolver roteiros e combiná-los a elencos e a criadores notáveis, esteve presente na Mostra Internacional de Cinema como parte do Júri, além de trazer três filmes para o festival, sendo eles O Brutalista, da A24, que recentemente foi Vencedor na categoria de Melhor Direção no Festival de Veneza, Harvest  e Eeephus!

O primeiro longa-metragem produzido por Stroud foi “Em Busca da Vitória” (2019), de Reza Ghassemi e Adam VillaSeñor e apesar de ter iniciado a carreira como produtor recentemente, já tem um portfólio repleto de produções de destaque, como “Roving Woman” (2022), dirigido por Michal Chmielewski e com produção executiva de Wim Wenders, “Knight of Fortune” e muitos outros

Durante a cobertura da 48ª edição da mostra, nossa equipe teve a chance de falar sobre cinema com o diretor e conhecer um pouco mais sobre os três projetos que ele trouxe neste ano em que visitou o Brasil pela primeira vez.

Amélie: Como é estar aqui no Brasil para sua primeira Mostra Internacional de Cinema em São Paulo?

Kyle: *Risos* Bem, sabe, eu acabei de chegar na cidade, ainda não tive muito tempo de explorar, então eu mal pousei e já vim diretamente para o Festival assistir aos filmes, principalmente porque esse ano faço parte do júri, então estou bem animado. Vou ficar no Brasil por mais de um mês, então estou curioso para conhecer mais coisas

Amélie: Falando em filmes, quais são três títulos que todos apaixonados por cinema precisam assistir pelo menos uma vez?

Kyle: Boa pergunta! Eu amo "Paris Texas" de Wim Wenders, é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e é de quebrar o coração. Eu também amo "Stalker" de Andrei Tarkovski, amo muito e talvez, "Werckmeister Harmonies" de Béla Tarr e Agnes Hranitzky.

Amélie: Você trouxe três filmes para a Mostra este ano, sendo eles, O Brutalista, Harvest e Eeephus. Com isso em mente, quais são seus elementos favoritos em cada um desses títulos tão diferentes?

Kyle: Eles são todos tão distintos e projetos de arte bem singulares. "O Brutalista", por exemplo, é um enorme épico, filmado em 70 mm, foi feito de forma independente, impresso em um filme de 70 mm mesmo e essa foi a versão exibida em Veneza e quando ele for lançado oficialmente, terá mais algumas cópias em 70mm, mas além dessa parte técnica, eu acho que é uma baita carta de amor ao cinema, dos tipos de filmes que não temos mais hoje em dia; 

Realmente traz a sensação de um épico, com uma intermissão, cartões de títulos, assim como os grandes clássicos, sabe? Agora, Harvest é um filme de Athina Rachel Tsangari e esse é o primeiro filme não-grego dela. Ele foi filmado na Escócia e tudo aquilo foi criado do zero, toda a vila e todos os cenários foram construídos exclusivamente para o longa e também temos Sean Price Williams como diretor de Fotografia, ele fez Good Time, da A24, o que também foi interessante.

Athina queria criar um personagem que parecesse ter saído diretamente dos anos clássicos e aqui ele foi interpretado pelo Caleb Landry Jones e o personagem dele aqui é meio 'odiável'., quase não tem qualidades que outros admiram. Ele é meio covarde e por incrível que pareça, eu me identifico com ele, não no sentido da covardia, mas esse personagem meio 'estranho', isso eu consigo relacionar *risos*

Mas falando sério, o personagem dele é fascinante e Caleb é um ator tão fantástico e dentre todos os personagens do filme, ele é justamente aquele que não tem características heróicas, assim como os outros, então você meio que acompanha ele e as outras pessoas como se fossem indivíduos em meio ao caos.

E por fim falamos de "Eephus". Esse filme é dirigido pelo Carson Lund e ele faz parte de um coletivo chamado Omnes Films, o que é bem interessante. O orçamento para os filmes é pequeno, mas agora eles estão procurando por novos títulos também para financiar através do coletivo. É algo muito legal, porque todos eles são diretores muito novos de New England, mas alguns também são de Los Angeles, enfim, eles são alguns dos maiores cinéfilos que você irá conhecer, são completamente apaixonados por filmes, ou seja, eles praticamente comem, dormem e respiram cinema *risos*

E com "Eephus", Carson queria criar algo diferente e pra mim me lembra algo bem reminiscente de Linklater, sabe? Da forma em que você não tem um protagonista central, então você meio que se sente como uma mosca na parede, observando tudo o que está acontecendo com esses personagens e mais uma vez, esse é o tipo de história que não vemos tanto mais hoje em dia, onde você não precisa ficar seguindo um único protagonista e sim onde observa o grupo inteiro de personagens muito interessantes, então nos identificamos com suas ansiedades e seus medos e tipo, eu não sou fã de esportes, mas mesmo assim achei muito com o que me identificar em relação a esses personagens e as realidades deles. Nesse filme, você vê muitas pessoas que com certeza já conheceu na vida real!


Harvest / Foto: Mostra de Cinema Internacional

Amélie: Digamos que você tem o poder de viajar no tempo. Se pudesse encontrar o pequeno Kyle, o que diria para ele. E outra coisa, ele acreditaria que você trabalha com filmes hoje?

Kyle: Definitivamente não acreditaria! *risos* Eu abandonei a faculdade de Cinema, duas semanas antes da minha formatura. Eu estava dirigindo meu primeiro curta da minha tese e eu estava já em produção, com elenco completo e já tinha filmado quase tudo. Eu tinha três dias restantes e um amigo meu havia sido financiado completamente, com um filme sobre boxe, então, eu tinha oportunidade de terminar meu filme, mas aí apareceu essa oportunidade incrível de produzir esse projeto  de longa metragem do meu amigo, o que pareceu uma oportunidade incrível.

Acreditei nele e acreditei nesse filme e na direção dele e a na codireção de outro amigo nosso e esse foi o meu salto e dali eu comecei a ser recomendado pra produzir outro filme e depois outro filme e por aí vai, gosto de dizer que fui como um Tarzan de galho em galho *risos* sendo os galhos, os projetos que foram aparecendo. então depois de dizer tudo isso, eu acho que diria para o meu eu mais novo: Não desiste, continue seguindo em frente. Faça as coisas que te dão medo, como por exemplo, uma vez conheci Brady Corbet na festa da A24 e eu fiz contato com ele por lá dizendo diretamente que eu queria trabalhar com ele e que eu queria trabalhar com "O Brutalista"e eu consegui essa oportunidade.

O mesmo aconteceu com "Harvest"; eu gosto de contatar as pessoas com as quais eu adoraria trabalhar nos projetos, esse contato cara a cara é muito importante, por isso é preciso não ter medo, então eu diria isso pra o pequeno eu. 

Amélie: Se pudesse dar um conselho para pessoas aspirantes que sonham em trabalhar na indústria cinematográfica, qual seria?

Kyle: Vou comentar o que disse durante um Festival de Los Angeles na semana passada, você precisa botar a cara no sol. Você precisa aparecer, é importante sim escrever seu roteiro e continuar criativo e botar a mão na massa, mas mais importante do que isso, é ser sociável, conhecer pessoas novas. Você precisa sim ter ambas habilidades, tanto a social quanto a criativa para se encontrar no local certo, na hora certa e colocar sua arte na frente das pessoas certas.

E o básico, é claro, assista filmes, estude cinema, não fique apenas no superficial. Continue trabalhando no seu projeto, mas também não seja muito precioso com seu trabalho. Eu sei que é difícil, mas deixe as pessoas experientes mexerem no seu trabalho, aceite conselhos e não acredite que sabe tudo. Seja humilde, mas também continue fiel a sua ideia, mas saiba dividir com as pessoas certas. 

Eu vou para o Festival de Cannes ou Sundance, por exemplo, mesmo quando não tenho nenhum filme para lançar, porque eu adoro conhecer pessoas novas, projetos novos e me conectar com novas pessoas que podem, mais pra frente render parcerias. Como produtor, isso é muito importante para mim, eu preciso estar onde as mentes criativas estão e preciso conhecê-los. 

Lá nos festivais você pode encontrar diretores para seus projetos, atores, roteiristas ou quem sabe, até mesmo financiadores. Mandar emails frios não leva a lugar algum, agora, criar conexões genuínas com outras pessoas nesse ambiente de festivais, é o que vai fazer seu projeto acontecer de fto.