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[Entrevista] Uma conversa com Salif Cissé e a diretora Fabienne Godet sobre a comédia francesa Voz de Aluguel

 

Por Victoria Hope

Apresentado anteriormente em estreia mundial no Festival de Cinema de Comédia de L'Alpe d'Huez e agora em cartaz no Festival de Cinema Francês no Brasil, "Voz de Aluguel" conta a história de um escritor idoso em busca das sombras e de um jovem imitador em busca da luz.

Na trama dessa comédia deliciosa dirigida por Fabienne Godet, Baptiste (Salif Cissé) gostaria de viver da sua arte, mas na verdade vende seguros por telefone enquanto espera que o sucesso bata à sua porta. Pierre (Denis Podalydès) gostaria de viver da sua arte, mas as muitas exigências que o sobrecarregam tornam esse sonho impossível. 

Um dia, porém, Pierre tem uma ideia: sugere que Baptiste se torne seu dublador. Ele quer entregar seu celular particular para Baptiste para que este possa gerenciar todas as suas ligações, pessoais e profissionais, permitindo que ele se concentre em escrever seu próximo romance sem se distrair com a vida. 

É claro que Baptiste fará mais do que apenas responder e interpretar: ele inventará e reinterpretará as histórias contadas pelo excêntrico escritor e como uma espécie de espírito benevolente, ele tenta, através de sua mentalidade peculiar e perspectiva externa, organizar a vida de Pierre, o que leva a um turbilhão de mal-entendidos, triangulos amorosos e muito mais! Confira abaixo a conversa que nossa equipe teve com Fabienne e Salif em São Paulo: 


Voz de Aluguel / Foto: Festival de Cinema Francês

Amélie Magazine: Como é estar no Brasil pela primeira vez para o lançamento da comédia Voz de Aluguel?

Salif: Estou muito feliz por estar aqui! Desde quando soube que viria ao Brasil, estava muito ansioso e entusiamado porque não conhecia o país! Não sabia da relação dos brasileiros com o cinema francês então está sendo uma grande descoberta!

Fabienne: Também estou muito feliz! Fiquei enstusiasmada em estar aqui! Ainda tenho uma semana para conhecer os brasileiros e para trazer um pedacinho da França para eles! Também quero participar das festas e tomar muitas cairpirinhas (risos) e me divertir no Brasil! 

Amélie Magazine: Nosso protagonista Baptiste não é apenas muito talentoso como também é muito confiante e engraçado! Dito isso, Salif, Você se identifica com o personagem?

Salif: Depende muito das situações, mas por conta do teatro, isso me ajudou muito. Isso me proporcionou um certo charme para conseguir mais confiança em mim mesmo e hoje eu acho que domino situações de stress de uma forma melhor, mas é claro que em algumas situações, assim como todo mundo, em que a gente não tem tanta confiança em si.

Amélie Magazine: Qual é o momento mais marcante do filme para vocês e que pretendem levar para o coração a vida toda?

Fabienne: Gosto muito de duas cenas específicas! Uma cena em que o Pierre o Baptiste estão num jantar e Pierre acaba falando algumas coisas pessoais e eles brincam juntos, é nesse momento que a amizade deles começa! E é claro, a música do final, onde o Salif canta com uma voz masculina e feminina e realmente essa canção é interpretada com uma atuação tão boa de Salif, que me emociona toda vez que assisto. Não me canso de ver!

Salif: É engraçado que para mim também são essas duas cenas que eu escolheria (risos). A primeira, principalmente do ponto de vista de ator, é que o Denis (Pierre) é um ator muito talentoso, muito profissional, que oferece um leque de emoções muito grandes, mas não necessariamente entregando uma sensibilidade muito pessoal e eu senti que nessa cena algo muito pessoal que o Denis entregou nos olhos dele, que é uma coisa que a Fabienne procurava e senti que ela estava procurando isso no Denis e esse momento foi muito bonito! 

Essa parte de intimidade que vi nos olhos dele. Além disso, todas as músicas do filme não são apenas performances, são conectadas e muito com a emoção do filme!

Amélie Magazine: O filme fala muito sobre o uso da tecnologia dol telefone celular e das redes sociais. Gostaria de saber de Fabienne, se essa crítica foi inserida de forma intencional na história, como uma "cutucada" nessa obrigação das pessoas estarem online e disponíveis o tempo todo. 

Fabienne: Realmente pensei nisso, inclusive tem um filme que fiz chamado "Um Lugar na Terra", com o Benoît Poelvoorde, um famoso ator belga, que diz que a maior liberdade é não ter que responder ao telefone. Até pensei se colocaria essa frase no filme, mas acabei desistindo. 

Acho que é muito importante a gente estar presente, porque muitas vezes estamos com alguém, mas ao mesmo tempo estamos conectados o tempo todo no celular, proque achamos que temos que responder imediatamente para as outras pessoas o tempo todo, quando na verdade é muito mais importante você se dedicar à pessoa que esta com você presencialmente; é importante estar presente com ela! E na minha idade, tenho ido cada vez mais na direção de estar presente e no tempo presente!

Amélie Magazine: Salif, você é muito talentoso! Quais são suas inspirações que o levaram para a carreira dos palcos e cinemas? Afinal, aqui você não apenas atua, mas também é comediante e canta! Como foi esse processo?

Salif: Muito obrigado! Foi muita sorte na verdade e não algo que calculei ao longo do tempo! Foi algo sempre muito orgânico. Sempre admirei os atores, costumava pesquisar sobre a vida deles pelo wikipedia, acompanhava a trajetória deles também, mas eu mesmo não pensava em ser ator até o momento em que fiz teatro como muita gente faz e acabei percebendo que existia algo natural nisso para mim.

Quando eu deixava de atuar, sentia muita falta, então foi isso que me levou a me dedicar mais. Admirei muitos atores do teatro e tive muito apoio de pessoas que admiro e tenho no coração.


Amélie Magazine:  Se vocês pudessem voltar no tempo e mandar uma mensagem para o seu "eu" ainda criança, qual seria?

Salif: Eu diria para ele não se questionar demais, para ele aproveitar mais, viver mais no presente e diria também para ele ficar tranquilo! Não pense no lado negativo, veja as coisas pelo lado positivo!

Fabienne: Não necessariamente para eu pequenina, porque tive a sorte de ter uma infância muito feliz com pais muito compreensivos que me deixavam sonhar, mas para eu jovem, tive muitos bloqueios sociais principalmente no meio do cinema, mas uma coisa que me ajudou muito foi uma frase marcante, porque eu achava que tinha muitos defeitos e a frase que me inpirou foi "Não tente ser outro, outra coisa do que você já é", porque como eu era tímida, eu admirava muito as pessoas extrovertidas e eu queria ser outra pessoa. Mas minhas amigas diziam que eu tinha algo ótimo, que era saber escutar, então eu parei de querer ser outra pessoa e depois dessa frase até pensei: "Ah, até que tenho minhas qualidades" (risos)

Amélie Magazine: Três palavras que defininem "Voz de Aluguel"

Salif: Amizade, Encontro e Instrospecção

Fabienne: As Artes, Música e a Graça!

Entrevista com Bastien Bouillon sobre o drama vencedor do Festival de Veneza, Mãos A Obra

 

Por Victoria Hope

Em "Mãos a Obra", filme premiado de Valérie Donzelli, Paul Marquet (Bastien Bouillon) era um fotógrafo de sucesso que abandonou tudo para se dedicar à escrita. No entanto, embora seus livros tenham recebido boas críticas, ele não é exatamente um autor de sucesso. 

Após o fracasso de seu terceiro romance, sua editora (Virginie Ledoyen) anunciou que não publicaria seu quarto livro, "Story of an End", uma narrativa sobre o término de seu próprio relacionamento, detalhando seu recente divórcio da esposa (Donzelli), que acaba de se mudar para Montreal com seus dois filhos adolescentes. 

Nesse momento, Paul está com dificuldades financeiras e, apesar da insistência de seu pai (André Marcon), aluga um estúdio de um amigo próximo da família e começa a trabalhar como faz-tudo por um salário ridiculamente baixo em um aplicativo de empregos que conecta prestadores de serviços a clientes na cidade. Essas experiências levam a uma descoberta em sua escrita, inspirando um novo manuscrito que sua editora envia às pressas para a gráfica! 

Durante o Festival de Cinema Francês, mossa equipe teve oportunidade de bater um papo com Bastien sobre esse trabalho e explorar temas como mercado de trabalho, cinema e inspirações e você encontra essa conversa na íntegra abaixo:

Paul, protagonista de Mãos A Obra / Foto: Festival de Veneza

Amélie Magazine: Como é fazer parte de um filme que foi vencedor de Melhor Roteiro em Veneza?

Bastien: Estou muito orgulhoso em fazer parte desse filme que venceu o Prêmio de Melhor Roteiro em Veneza e tenho mais orgulho ainda em atuar com um papel ao qual me identifico tanto do ponto de vista artístico, humano e político.

Amélie Magazine: E qual é o seu momento favorito do filme?

Bastien: O meu momento favorito foi a cena em que tive que ir para a casa de uma moça para construir um armário e quanto cheguei lá enquanto a dona da casa estava festejando. Esse momento mostra o distanciamento entre ele, Paul, que está trabalhando enquanto elas estavam se divertindo.

Amélie Magazine: Assim como Paul, muitas vezes fazemos uma transição de carreira. Você pessoalmente já passou por isso?

Bastien: Na verdade  pessoalmente não como ele fez da fotografia para literatura (risos), mas na realidade eu espero poder continuar fazendo esse meu trabalho como ator e me alimentar da minha própria arte, que é o que mais amo fazer! 

Amélie Magazine: O filme nos confronta como às vezes o caminho em busca do sonho pode ser solitário e nos isola do mundo, como aconteceu com Paul. Poderia falar um pouco sobre isso?

Bastien: Exatamente. Ter sucesso no mundo da arte não é fácil. É difícil ter confiança na gente e isso depende muito do nosso apoio familiar e daqueles que estão ao nosso redor. Me lembro de quando fazia escola de artes e antes de receber todos esses louros, até pensei em me alistar ao serviço militar! (risos). 

Me lembro que eu estava passando por um processo, tinha meus 23 anos na época e aí me perguntaram o que eu fazia da vida e aí eu falei: "Trabalho com teatro" e a resposta das pessoas era: "Tá, mas o que você realmente vai fazer? Trabalhar apenas com arte vai estragar sua vida". E eu fiquei pensando sobre isso que me disseram e foi exatamente isso que me fez desistir da ideia de me alistar e seguir carreira no teatro.

Amélie Magazine: Se você pudesse voltar para o passado e deixar um recado para o pequeno Bastian, qual seria?

Bastien: Hmm...Respire! 

Amélie Magazine: O livro que inspirou o filme é muito emocionante. Você leu o livro e se sim, qual foi seu momento favorito que você teve a chance de representar aqui?

Bastien: Eu acabei de ler o livro, porque gravei uma versão audiolivro dessa obra e foi muito emocionante! Tem várias passagens que me marcaram e uma delas fala sobre o fato de que escritores ficam muito solitários e acabam tendo que fazer outras coisas quando passam dificuldades! Tem uma passagem do livro que fala sobre isso e tem outras passagens também que me marcaram muito.

Amélie Magazine: Como ator, quais são os três filmes franceses favortos que na sua opinião são essenciais para quem se considera fã de cinema? 

"Bastien: Bem, "Quando Chega o Outono" (Quand Vient L'automne) de François Ozon depois, "A Gangue de Paris" (Le Gang des Bois du Temple)" de Rabah Ameur-Zaïmeche e um que ainda não foi lançado oficialmente, que se chama "The Great Arch" (L'inconnu de la grande arche) de Stéphane Demoustier. 

Amélie Magazine: E voltando ao filme, qual foi a sua parte favorita das filmagens de "Mãos a Obra?"

Bastien: Os momentos que eu tive que usar força física foram meus favoritos! Acho que até bati num muro sem querer (risos), mas eu realmente gostei das cenas que exigiam mais do meu lado físico no longa!


[Entrevista] Valérie Donzelli, diretora do drama francês Mãos a Obra fala sobre carreira, paixões e a uberização do trabalho

 

Por Victoria Hope

Em "Mãos A Obra" drama vencedor do Festival de Veneza na categoria de Melhor Roteiro, Paul era o que podemos chamar de um profissional muito bem-sucedido, pois antes ele era um fotógrafo de renome na França, com dinheiro na conta e uma família bem estruturada, até que um dia decide largar tudo e viver apenas da literatura, mas a escolha infelilizmente traz diversas questões na vida do rapaz, já que seus dois livros fracassaram comercialmente e a partir daí, começa o dilema de sua vida, pois tudo o que poderia dar errado, acontece e sem saída, com um recém-divórcio, sem dinheiro e obras originais recusadas, o protagonista decide tomar uma decisão drástica.

Essa bela adaptação doli vro “À pied d’œuvre”, de Franck Courtès, chega em um momento mais do que oportuno, onde a uberização dos serviços tem se tornado cada vez mais presente na vida dos trabalhadores que se veem sem alternativas em um mundo mais caro e mais hostil a cada badalar do relógio. 

O drama, que teve sua estreia no Festival de Cinema Francês desse ano, traz uma visão sobre a ideia de largar tudo para viver o sonho e como ao mesmo tempo, o mundo em si, faz com que pessoas como Paul tentem desistir da liberdade de ser. Conversamos com Valérie, a diretora desse belíssimo longa durante o festival e exploramos as diversas nuances da história desse personagem que ao mesmo tempo parece distante, é extremamente próximo da realidade de toda uma geração.


Valérie Donzelli no Festival de Veneza / Foto: Venice Film Festival 2025

Amélie Magazine: Parabéns pela vitória de Melhor Roteiro no Festival de Veneza de 2025! Como foi a sensação de vencer esse prêmio?

Valérie: Me senti muito orgulhosa e honrada, mas também feliz, porque vencer um prêmio em um festival traz luz ou um holofote para o seu filme e isso torna mais fácil de pessoas conhecerem seus projetos. porque para fazer existir um filme independente hoje em dia, é algo extremamente difícil. não é sempre fácil. 

Amélie Magazine: E qual é o momento de "Mãos a Obra", que você vai levar para sempre em seu coração?

Valérie: Eu simplesmente adorei tudo! Gostei de escrever o roteiro, gostei de filmar, gostei de editar o filme, da montagem também! Todos os momentos foram muito especiais e prazerosos. Difícil, mas muito prazeroso, mas se eu tivesse que escolher um momento para guardar comigo para sempre, seria o final do longa, quando tudo se resolve e nós entendemos que tudo o que Paul escreveu foi inspirado pela vida dele fazendo esses trabalhos e foi isso que entrou no romance que ele está escrevendo nessa história! Esse ponto no filme, ao final, mostra o reconhecimento dos leitores e sobretudo do filho dele também,!

Amélie Magazine: Assim como Paul, muitos de nós já passamos por várias transições de carreira e até mesmo de vida. Isso é algo que ressoa para você?

Valérie: Isso aconteceu comigo com filmes, porque é claro que às vezes não funciona do jeito que você gostaria de funcionasse. Tem momentos onde o dinheiro não entra e a gente precisa dar um jeito, mas ao contrário de Paul, eu tenho uam certa ética e consigo construir meu equilíbrio econômico de tal maneira que eu não preciso fazer os tipos de trabalho que Paul teve que se submmeter para preservar sua liberdade.

Amélie Magazine: O filme nos confronta sobre o fato de que às vezes existe uma solidão quando tentamos alcançar um sonho e isso acontece com o Paul no filme. Poderia falar um pouco sobre isso?

Valérie: A condição na qual ele se encontra, fez com que aos poucos ele deixasse de fazer o que ele fazia antigamente quando ele tinha um trabalho fixo e uma chegada de dinheiro. Ele passa a a abandonar vários hábitos, incluindo deixar de ir ao cinema, deixar de ir à um restaurante, não pode mais receber amigos na casa dele, então pouco a pouco, o mundo dele vai se restringindo mais e mais! Achei muito interessante mostrar ele se tornando meio que um "monge", que corta todas as relações com o mundo para se concentrar no mundo dele que é escrever esse livro, que é esse processo de se restringir e de ficar na solidão. Foi muito interessante mesmo.

Amélie Magazine: Vamos voltar no tempo. Se você pudesse voltar ao passado e deixar uma mensagem para a pequena Valérie que nem imaginava que se tornaria uma diretora premiada que teve a oportunidade de vir ao Brasil, qual seria esse recado? 

Valérie: Eu diria para ela seguir o que ela sente, siga seu coração, siga suas convicções, porque isso é o que eu sempre fiz. E eu também diria para ela que seria melhor ela também se tornar produtora (risos)!

Amélie Magazine: E qual é o seu momento favorito do livro que você conseguiu adaptar para esse  filme?

Valérie: A cena do animal! Adorei transcrever essa cena!

Amélie Magazine: Uma mensagem para os brasileiros que vão assistir ao filme durante o Festival de Cinema Francês nesse ano?

Valérie: Eu diria aos brasileiros que essa é uma história de certa forma universal, porque esse fenômeno da"uberização" da sociedade é algo que tem acontecido no cenário mundial e todo mundo em algum momento da vida pode ser confrontado com essa situação, então esse sentimento de se identificar com o Paul é totalmente universal, porque pode acontecer a qualquer momento. E é importante ver como as pessoas conseguem lidar com as necessidades financeiras e ao mesmo tempo, lutar para eles conseguirem ser as pessoas que eles projetam ser. 

Querem ter uma família ou querem ficar sozinhos? Querem escolher um trabalho ou outro? Se quisermos seguir um caminho na vida, precisamos combinar essas necessidades financeiras da vida com o que as pessoas pretendem fazer de suas próprias vidas, afinal, são escolhas que só cabem a elas.

[Entrevista] Victor Rodenbach fala sobre Os Bastidores do Amor

 

Por Victoria Hope

Na dramédia romântica "Os Bastidores do Amor", durante anos, Henri e Nora compartilharam tudo: eles se amam e ela dirige as peças em que ele atua. Quando Henri consegue seu primeiro papel no cinema, a produção do novo espetáculo deles fica ameaçada e o relacionamento explode. Eles começam a se perguntar: é possível amar um ao outro sem pertencer um ao outro?

Sob o brilho das relações amorosas, alegrias, tristezas e dúvidas entre criador e ator, Vimala Pons e William Lebghil conferem a esta obra uma atmosfera leve e peculiar, mesmo que as personagens apresentem nuances que vão da raiva à doçura juvenil. Tudo é sério, mas também beira a futilidade, assim como são as relações amorosas modernas.

Durante o Festival de Cinema Francês, tivemos a oportunidade de conversar com diversos elencos e realizadores, incluindo o brilhante diretor de "Os Bastidores do Amor", Victor Rodenbech sobre amor, carreira e relacionamentos líquidos na era moderna.


Le Beau Rolê / Foto: Festival de Cinema Francês


Amélie Magazine: Como é fazer parte do Festival de Cinema Francês?

Victor Rodebach: Me sinto honrato em ter meu filme sendo assinado pelo Festival! E vir para o Brasil sempre foi um sonho de infância meu, então é muito emocionante estar aqui com meu primeiro filme!

Amélie Magazine: "Os Bastidores do Amor" fala sobre a melancolia por trás do amor. O filme  pode ser engraçado em alguns momentos, mas tem uma profunda tristeza relacionada ao amor e relacionamentos passados. Qual foi sua inspiração para abordar esse tema na história?

Victor Rodebach: Para meu primeiro filme, eu tinha essa vontade de falar sobre algo que eu conheço e não apenas sou fã de cinema, como também fã de teatro, conheço muito bem e também minha namorada é diretora de teatro.

Amélie Magazine: Então você diria que essa história é bem pessoal? Você se identifica com muitos pontos dos persoangens?

Victor Rodebach: *risos* Sim, esse é um projeto bastante pessoal! Agora falando sobre a melancolia, eu quis fazer desde o começo uma comédia romântica, mas ao invés de começar por um encontro, como na maioria das comédias românticas, quis começar aqui pelo rompimento, pelo fato deles estarem terminando, pois acho que esse lado traz a melancolia que você sentiu ao assistir.

Preferi começar com essa ideia de "recasamento", com um relacionamento sendo quebrado no início para ao longo do filme ser reconstruído, então é melancólico no começo, mas se firma pelo caminho da luz, onde ambos ficam bem.

Amélie Magazine: E qual foi o momento mais engraçado no set de filmagens?

Victor Rodebach: O momento mais engraçado foi aquele onde filmamos a peça de teatro! Foi baseado em histórias que eu vivenciei presencialmente e coisas que conheço. Me diverti muito ao mostrar o lado ao mesmo tempo um pouco ridículo, porque a paixão dessa mulher se tornou uma obsessão e daí nasce um certo ridículo, mas ao mesmo tempo, é tudo feito com muita ternura, então eu nunca quis deixar o sentimento de acalento com esse desastre da peça, que foram os momentos divertidos de filmar.

Amélie Magazine: Como é dirigir atores que estão fazendo papel de atores?

Victor Rodebach: Me inspirei muito com esses atores e com a diretora, que na vida real também é diretora de teatro! (risos) Então de uma certa forma, ela se apoiou na experiência dela e os atores se inspiraram também em sua experiência como atores, mas teve uma segunda etapa, que como eles são atores e diretores dentro do filme, onde essa competência dos atores alimentou a maneira com que eles revisitaram esses papéis! Então um alimenta o outro e foi realmente super interessante de ver!

Amélie Magazine: Quais foram suas maiores inspirações em termos de direção para "Os Bastidores do Amor?"

Victor Rodebach: Recentemente essas comédias de recasamento me inspiraram muito! Para voltar mais no tempo, me inspirei bastante nas comédias românticas americanas dos anos 40 e 50 e depois, no Woody Allen também, por exemplo em "Annie Hall", que me inspirou bastante.

Amélie Magazine: Se você pudesse dirigir uma adaptação de uma de suas peças teatrais favoritas, qual seria?

Victor Rodebach: Talvez uma peça de Anton Tchékhov, como acontece no filme. Uma peça que fale sobre a vida!

Selvagens, animação do indicado ao Oscar Claude Barras, integra programação do 15º Festival Varilux

 

Por Victoria Hope

Exibida no Festival de Cannes deste ano em sessão especial, a animação “Selvagens” chega ao Brasil no 15º Festival Varilux de Cinema Francês, que ocorre entre 7 e 20 de novembro nos cinemas de todo o país. O longa-metragem reafirma a tradição do evento de sempre programar um filme destinado a toda a família. 

Na trama do inédito “Selvagens” – que poderá ser visto somente nas salas de cinema durante o Festival Varilux -, ambientada em Bornéu, no limiar de uma floresta tropical, a personagem Kéria acolhe um filhote de orangotango. 

Ao mesmo tempo, seu jovem primo Selaï se refugia na casa deles para escapar do conflito entre sua família nômade e as empresas madeireiras. Juntos, Kéria, Selaï e o macaquinho vão lutar contra a destruição da floresta ancestral, que está mais ameaçada do que nunca. O longa-metragem é distribuído pela Bonfilm e tem direção de Claude Barras, indicado ao Oscar por “Minha Vida de Abobrinha” (2016). 

Confira o trailer oficial:



Premiado em San Sebastián, A Fanfarra, de Emmanuel Courcol, terá estreia mundial no Festival Varilux

 

Por Victoria Hope

Vencedor do prêmio de público do Festival de São Sebastián, encerrado no último dia 28 de setembro, a comédia dramática “A Fanfarra”, de Emmanuel Courcol, faz sua estreia mundial no Festival Varilux de Cinema Francês, que ocorre entre 7 e 20 de novembro. Na França, a obra só chega aos cinemas no dia 20, tendo sido exibido ainda no Festival de Cannes.

Distribuído no Brasil pela Bonfilm, o longa traz a história de Thibaut, um maestro de renome internacional e seu irmão Jimmy. Com pouca coisa em comum, o que os une é o amor pela música. O filme oscila entre momentos cômicos e emocionantes protagonizados pelos atores e músicos Benjamin Lavernhe, Pierre Lottin e Sarah Suco. 

Se o filme for tão comovente como espero, é graças à emoção e humanidade dos personagens com os quais nos identificamos. É ver gente generosa em ação, apesar da crueldade da vida, pessoas que tentam construir um lugar para si mesmas carregando grandes bagagens emocionais. É isso que o torna tão bom”, avalia Emmanuel Courcol, completando: “estou abordando temas que são importantes para mim e que já tratei em meus filmes anteriores, como laços fraternos, acaso e determinismo social, e estou trazendo-os juntos em uma única história”.

Emmanuel Courcol é um ator, diretor e roteirista francês. Além da carreira de ator, se voltou a escrita de roteiros nos anos 2000, e a de direção em 2012 com seu primeiro curta-metragem “Géraldine je t'aime”, estrelado por Grégory Gadebois e Julie-Marie Parmentier. Seu primeiro longa-metragem foi “Cessez-le-feu”, em 2015, com Romain Duris, Grégory Gadebois, Céline Sallette, e, em 2020, dirigiu “Um Triunfo”, com Kad Merad, Marina Hands e Laurent Stocker. 

A História de Souleymane | Filme premiado em Cannes na mostra Um Certain Regard, será exibido no Festival Varilux

 

Por Victoria Hope

Vencedor dos Prêmios de Público e de Melhor Ator para Abou Sangare na mostra ‘Un Certain Regard’ do último Festival de Cannes, o longa-metragem “A História de Souleymane” ganha exibição no Brasil no 15º Festival Varilux de Cinema Francês, entre 7 e 20 de novembro nas salas de cinema de todo o país. Inspirado na história real do ator guineense Abou Sangare, que interpreta o personagem-título, Souleymane Sangaré, o filme mostra as dificuldades encontradas pelos imigrantes de uma maneira muito objetiva. A produção acaba de estrear na França com muitos elogios da crítica. A distribuição no Brasil é da Bonfilm. 

No longa, recentemente chegado a Paris, Souleymane tenta sobreviver entregando refeições usando uma bicicleta. Ao mesmo tempo, se prepara para uma determinante entrevista visando a obtenção de seu asilo na França e de documentos que lhe permitam trabalhar formalmente no país. Mas ele encontra muitas pedras em seu caminho. Estruturado como um thriller social, “A História de Souleymane” oferece uma intensa reflexão documental entrelaçada com uma tocante ficção humanista. 

Assim como seu personagem, o ator Abou Sangare enfrenta uma série de obstáculos em busca de regularizar sua situação na França. Ele está no país desde seus 16 anos – tem 23 - e, há sete, tenta obter residência, que já foi negada três vezes. Este ano, durante o trabalho de divulgação de “A História de Souleymane”, o ator chegou a sofrer uma ameaça de deportação. De acordo com o site francês Franceinfo, na última semana (dia 10) ele conseguiu uma autorização de permanência de residência por seis meses, porém ainda não para trabalhar como mecânico, profissão para a qual se preparou.

O diretor do longa-metragem, Boris Lojkine, declarou que a escolha de Abou para o papel de Souleymane foi uma grande responsabilidade, e ressaltou: “Apenas quando ele conseguir seus documentos é que sentirei que finalizei meu filme.” 


Festival Varilux de Cinema Francês anuncia filmes da edição de 2024

 

Por Victoria Hope

Ao som de Bolero, composição de Maurice Ravel, o 15º Festival Varilux de Cinema Francês anuncia os filmes de sua edição. A vinheta traz trechos das 20 produções - o clássico O Sol por Testemunha, de René Clément, e os 19 longas-metragens recentes e inéditos no país – que integram a programação. As obras participaram dos principais festivais do mundo como Cannes, Veneza e San Sebastián. 

Obra musical em um só movimento, Bolero é tema de um dos longas-metragens apresentados nesta edição: Bolero, a Melodia Eterna, de Anne Fontaine. A trama conta como a melodia foi composta, atendendo a uma encomenda da dançarina Ida Rubinstein, em 1928, que pediu uma música para seu próximo balé.

O ator francês Raphaël Personnaz, que interpreta Maurice Ravel, estará no Brasil para apresentar o filme durante a abertura do Festival Varilux em São Paulo e no Rio de Janeiro. No Rio, ele participa de sessões com debate. Vale lembrar que o Festival Varilux ocorre em todo o Brasil, entre 7 e 20 de novembro, somente nas salas de cinema. #FestivalVarilux


A Favorita do Rei / Foto: Mares Filmes

FILMES DA PROGRAMAÇÃO 2024

Apenas Alguns Dias, de Julie Navarro - Distribuição: Bonfilm

A Fanfarra, de Emmanuel Courcol - Distribuição: Bonfilm

A Favorita do Rei, de Maïwenn -Distribuição: Mares Filmes

A História de Souleymane, de Boris Lojkine -Distribuição: Bonfilm

Ouro Verde, de Edouard Bergeon - Distribuição: Bonfilm

Madame Durocher, de Andradina Azevedo Dida Andrade - Distribuição: Elo Studio

Bolero, a Melodia Eterna, de Anne Fontaine - Distribuição: Mares Filmes

Daaaaaalí!, de Quentin Dupieux - Distribuição: Bonfilm

Diamante Bruto, de Agathe Riedinger - Distribuição: Bonfilm

Mega Cena, de Maxime Govare, Romain Choay - Distribuição: Bonfilm

1874, o Nascimento do Impressionismo, de Julien Johan, Nancy Hugues - Distribuição: Bonfilm

O Bom Professor, de Teddy Lussi-Modeste - Distribuição: Mares Filmes

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre de La Patellière, Matthieu Delaporte - Distribuição: Paris Filmes

O Roteiro da Minha Vida - François Truffaut, de David Teboul, Serge Toubiana -Distribuição: Bonfilm

O Segundo Ato, de Quentin Dupieux - Distribuição: Bonfilm

Selvagens, de Claude Barras - Distribuição: Bonfilm

O Sucessor, de Xavier Legrand -Distribuição: Bonfilm

O Último Judeu, de Noé Debré - Distribuição: Bonfilm

Três Amigas - de Emmanuel Mouret -Distribuição: Bonfilm

O Sol Por Testemunha, de René Clément - Distribuição: Bonfilm – clássico

Com mais de 500 mil espectadores na França, filmes de Quentin Dupieux estão confirmados no Festival Varilux

 

Por Victoria Hope

Conhecido do público brasileiro pelo longa “Fumar Causa Tosse” (2022), o diretor Quentin Dupieux – também produtor e artista de música eletrônica - terá duas de suas mais recentes produções apresentadas no 15º Festival Varilux de Cinema Francês, entre 7 e 20 de novembro, em todo o Brasil: “Segundo Ato” e “Daaaaaalí!”. Os longas já fizeram cerca de 500 mil espectadores desde sua estreia na França.

Abertura do Festival de Cannes deste ano, Segundo Ato traz no elenco, entre outros, Léa Seydoux, Louis Garrel (ganhador dos César por Melhor Roteiro Original por “O Inocente” (2023) e de Melhor Ator Estreante por “Amantes Regulares” (2026), Vincent Lindon (ganhador do César de Melhor ator por “O Valor de um Homem” (2016) e Raphaël Quenard (ganhador do César de Melhor Revelação Masculina por “Cão Danado”). No longa, quatro atores se encontram na filmagem de uma obra realizada 100% com inteligência artificial e as poucos, torna-se difícil distinguir a ficção da realidade.

Já “Daaaaaalí!”, integrou a competitiva do Festival de Veneza. O longa conta a história de uma jornalista francesa que encontra o icônico artista surrealista Salvador Dalí em várias ocasiões, para um projeto de documentário. A produção do filme, no entanto, não se desenvolve como o esperado e resultando em muitas surpresas. O elenco conta com os renomados Gilles Lellouche e Pio Marmaï, Anaïs Demoustier (ganhadora do César de Melhor Atriz por “Alice e o Prefeito” (2020) e Jonathan Cohen.

Quentin Dupieux descobriu sua paixão pelo cinema aos 12 anos, quando ganhou sua primeira câmera. Ele aprendeu a filmar sozinho, o que deixa suas obras ainda mais originais. Sempre fora dos padrões, o diretor se destaca também por sua versatilidade: escreve, dirige, filma e edita suas próprias produções.

Estrelado por Johnny Depp e Maïwenn, A Favorita do Rei será exibido no Festival Varilux

 

Por Victoria Hope

Filme de abertura do Festival de Cannes em 2023, o drama de época “A Favorita do Rei” (Jeanne du Barry) será exibido pela primeira vez no Brasil durante o Festival Varilux de Cinema Francês, que ocorre entre 7 e 20 de novembro. A produção é a primeira estrelada por Johnny Depp após a batalha judicial contra a ex-mulher. Maïwenn protagoniza o longa e assina roteiro e direção.  A distribuição no Brasil é da Mares Filmes e da Alpha Filmes 

A trama acompanha a história da última favorita do rei Luís XV (Depp), uma cortesã sem títulos de nobreza conhecida como Jeanne du Barry (Maïween), que usa de sua beleza, sedução e cultura para integrar a aristocracia francesa, mas é menosprezada pela corte de Versalhes. A obra foi filmada em locações da França, contou com figurinos assinados pela Chanel e recebeu duas indicações ao César, o mais importante prêmio do cinema francês, nas categorias “Melhor Figurino” e “Melhor Design de Produção”. 

Fui seduzida por Jeanne du Barry, porque ela é uma perdedora magnífica. Talvez porque sua vida tem semelhanças com a minha, mas essa não é a única razão. Eu me apaixonei por ela e por sua época”, afirmou Maïwenn. A cineasta francesa mais uma vez integra a programação do Festival Varilux, em que já teve três filmes exibidos: “Polissia” (2012), “Meu Rei” (2016) e “DNA” (2020). 

Depp relata que, apesar dos desafios linguísticos, ele se encontrou na obra durante o processo das filmagens: “Tudo que eu sonhei e fantasiei em relação ao filme e esse personagem do Luís XV de repente ganhou vida. Os figurinos, a maquiagem, a etiqueta… Me senti totalmente no lugar de Luís XV e pronto para começar essa emocionante viagem no tempo imaginada por Maïwenn.”

Premiado com dois César por Custódia, Xavier Legrand vem ao Brasil divulgar O Sucessor, seu novo longa

 

Por Victoria Hope

Vencedor de três César em sua carreira e indicado ao Oscar por seu primeiro curta-metragem, o diretor Xavier Legrand vem ao Brasil para apresentar seu mais novo longa-metragem: “O Sucessor”. A produção integra a programação do 15º Festival Varilux de Cinema Francês, que ocorre entre 7 e 20 de novembro nas salas de cinema de todo o país. Legrand estará no dia 5 em São Paulo e entre os dias 6 e 10 no Rio de Janeiro para participar da abertura do evento e encontrar com o público após as projeções do filme. A distribuição do longa no Brasil é da Bonfilm. 

Estrelado por Marc-André Godin, o inédito “O Sucessor” é um thriller dramático que retrata a história de Elias, diretor artístico de uma renomada casa de Alta Costura francesa, que ao saber do falecimento do seu pai devido a um ataque cardíaco, precisa viajar para o Quebec a fim de resolver questões da herança. Lá, ele descobre que herdou algo muito pior do que o coração fraco do seu pai. 

Com o filme, Legrand se aprofunda nas questões que envolvem o patriarcado. De acordo com o jornal Le Parisien, a obra é um drama aterrorizante e virtuoso. Legrand constrói, nesse novo projeto, um cenário trágico e fatalista inspirado nas grandes tragédias. 

A mitologia mostra uma forma de determinismo e fatalismo. Para criar o personagem principal de Elias, tirei muita inspiração de trágicas figuras como Édipo, Orestes, Ícaro ou Hamlet. O que todos eles têm em comum é que, cada um à sua maneira, tentam encontrar uma forma de cura, o que os leva fatalmente ao desastre, tão esmagador é o peso do patriarcado”, conta o diretor Xavier Legrand em texto de divulgação do filme. 

Festival Varilux 2023 | Memórias de Paris

Por Victoria Hope

Memórias de Paris de Alice Winocour é talvez um dos filmes mais relevantes para o momento mundial que estamos vivendo nesse exato momento, então a estreia dele no Festival Varilux desse ano, que terminou nessa quarta (22), foi muito bem vinda.

A trama se passa em um dos momentos da vida real que marcou para sempre a vida dos franceses há alguns anos. Para quem não se lembra, No dia 13 de novembro de 2015, Paris foi abalada por uma série de ataques terroristas coordenados e a boate Bataclan foi o alvo mais proeminente, mas vários restaurantes também foram vítimas e nesse caso, a diretora Alice Winocour foi diretamente afetada por esses acontecimentos, pois seu irmão sobreviveu à explosão do Bataclan. 

O filme é baseado em um ataque fictício a um restaurante chamado “L’Etoile d’Or” por homens armados naquela noite fatídica.  A trama acompanha Mia (Virginie Efira), que estava jantando sozinha quando o ataque começou. Seu parceiro, que é médico, estava no hospital enquanto isso, sem saber que  Mia estava em perigo e nesse meio tempo, vemos ela tentando se proteger do ataque e é impossível não sentir o coração vir à boca. 

O que aconteceu no restaurante antes e durante o ataque assombra Mia por um bom tempo, afinal, o que ela passou foi um verdadeiro pesadelo que ninguém deveria passar e só de pensar que isso aconteceu na vida real com o Bataclan e outros locais, faz um frio correr pela espinha. 


Memórias de Paris/ Foto: Divulgação

Após alguns meses tentando lidar com o trauma em um grupo de autoajuda de sobreviventes, todos se reúnem no reformado “L’Etoile d’Or”, mas será que ela realmente está pronta para encarar aquele local que quase acabou com sua vida e a vida de  centenas de pessoas? Entre os sobreviventes está Thomas (Benoit Magimel), um financista que comemorava seu aniversário naquela noite fatídica e rapidamente os dois personagens começam um relacionamento. 

Mesmo com a situação tensa que passou no passado, quem está na mente de Mia um imigrante africano (Amadou Mbow) que segurou a sua mão antes dela desmaiar durante o ataque e esse é o único conforto que ela teve naquele dia, então decidida, ela, com ajuda de Thomas, se reúnem para encontrar o rapaz que a confortou e o que encontram é um dilema que abrange a Paris do direito dos brancos europeus e dos imigrantes negros no país.

Apesar do filme abordar temas e subtramas demais, Winocour fez uma trama que  acerta ao mostrar um pouco da dor constante, tanto física quanto mental, que um ataque terrorista cria nas vítimas. O uso frequente de flashbacks do que aconteceu no restaurante antes e durante o ataque dá uma ideia de como os acontecimentos traumáticos assombram a existência de Mia, mas ao mesmo tempo, o filme examina como a protagonista lida com essa temática e se cura gradativamente,

Memórias de Paris não é um documentário em termos de representar a dor que um ataque terrorista pode causar, mas é uma visão perspicaz, cuidadosa e sensível sobre um ataque terrorista, focando nas dores de seus sobreviventes e em quem 'consegue se curar' e quem precisa seguir em frente por não ter escolha e isso é um grande acerto. 

NOTA: 9/10

Festival Varilux 2023 | Conduzindo Madeleine

 

Por Victoria Hope

Line Renaud é uma cantora e atriz francesa muito querida, cuja vida se estende pela maior parte do século passado. Colocá-la para um papel de protagonista aos 93 anos com certeza foi um desafio, deve ter mas nitidamente, Driving Madeleine de Christian Carion, foi construído para se ajustar ao ritmo da atriz e não o contrário.

O filme está em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês que termina hoje (22) em diversas cidades brasileiras. Voltando ao longa, foi excelente ver como o longa prezou pelo conforto de Renaud, pois Ela fica sentada no banco de trás de um táxi durante a maior parte do tempo, contracenando com o maravilhoso Dany Boon enquanto ele a conduz por Paris.

Na trama, Charles (Boon), um homem de meia-idade, está endividado, o que o torna ainda mais mal-humorado do que qualquer taxista parisiense médio. Ele atravessa a cidade até uma casa em um subúrbio arborizado onde ninguém atende. Ele toca a buzina e Madeleine (Renaud) liga do outro lado da estrada, dizendo que não é surda. Ela olha com tristeza para a casa fechada, sugerindo que esta pode ter sido a casa de sua família – há muito tempo.


Conduzindo Madeleine / Foto: Festival Varilux

Ela pede a Charles que a leve para o outro lado de Paris e mesmo frustrado, mas por precisar de grana extra, o motorista aceita. Inicia-se então uma viagem que inesperadamente, mudará o significado da vida de ambos protagonistas para sempre. 

Esse formato é tão simples, mas ao mesmo tempo, muito certeiro para as pessoas se identificarem com os personagens, principalmente para quem está acostumado com o ritmo frenético da cidade, mas ainda assim, aprecia uma boa conversa com motoristas de taxi. 

Durante esse percurso, ambas as vidas são mudadas para sempre e é incrível ver os paralelos e toda a simbologia dos personagens, representando talvez um encontro entre a velha Paris e a nova Paris, e de que forma a vida das mulheres mudou com os anos. A atuação entre Line e Dany é um deleite por si só e carrega o filme com muita elegância e ao mesmo tempo, uma boa dose de humor também é bem-vinda.

NOTA: 8.5/10


Série ‘Brigitte Bardot’ já está disponível no site do Festival Varilux de Cinema Francês

 

Por Victoria Hope

Brigitte Bardot”, série biográfica de grande sucesso na TV e Netflix francesa sobre o ícone do cinema dos anos 50, poderá ser vista em todo o Brasil pelo site do Festival Varilux de Cinema Francês. Inédita, a produção com seis episódios de 52 minutos ficará disponível gratuitamente pelo período de um mês: entre 22 de novembro e 22 de dezembro. Basta entrar no site e a partir da home page clicar na imagem em destaque ou na lista de filmes: Assista aqui

Brigitte Bardot, uma das mais aclamadas atrizes do cinema francês, inspirou a 14ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês programado em mais de 50 cidades em todo Brasil desde 9 de novembro. A série narra a ascensão da atriz na França do pós-guerra, entre 1949 e 1959 – dos seus 15 até os 25, desde a sua educação rigorosa até quando se transforma numa femme fatale, rumo ao estrelato internacional. Codirigida por Danièle e Chistopher Thompson, um dos destaques da produção é caracterização de Julia de Nunez por sua semelhança com Bardot - a jovem atriz de 23 anos integrou a delegação artística do festival no início do mês para debater sobre a obra e sua personagem com o público das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Realizado em mais de 50 cidades de todo país, o Festival Varilux de Cinema Francês segue presencialmente até amanhã, 22 de novembro, nas salas de cinema. São 19 filmes da recente cinematografia francesa, premiados ou participantes de festivais internacionais, além da série e de dois clássicos sobre Brigitte Bardot. Para ter acesso à programação completa da edição, com informações sobre as cidades participantes, salas de cinemas e horários de todas as sessões, basta acessar o site do festival: Varilux 2023

Festival Varilux 2023 | Bardot | Minissérie

 


Por Victoria Hope

Uma das produções que faz parte do cronograma oficial do Festival Varilux 2023, é Bardot, minissérie francesa estrelada por Julia de Nunez, atriz que veio ao Brasil para coletiva de imprensa e roda de conversa pós exibição.

A produção conta com seis episódios de 52 minutos o início da carreira da atriz francesa até a ascensão ao estrelato. Codirigida por Danièle e Christopher Thompson, a série estreou em 2023 na televisão francesa e traz Julia de Nunez, artista franco-argentina, no papel principal. O elenco também conta com Victor Belmondo, Hippolyte Girardot e Géraldine Pailhas.

É muito interessante, enquanto mulher, analisar como a jovem Bardot iniciou de certa forma uma revolução sexual na França, apenas para lutar para que seu papel não caísse apenas nisso, mas a série faz um bom trabalho em analisar todo esse aspecto, traçando paralenos com o culto à celebridade que a cerca. 

'Bardot', traça a vida da estrela francesa na década de 1950, desde sua primeira audição aos 15 anos até sua explosiva estreia no cinema internacional, E Deus Criou a Mulher à sua atuação no forte longa 'A Verdade', de Henri-Georges Cluzot, em 1960.

Revisionismos à parte, a série tenta focar no aspecto psicológico por trás da estrela, mais do que focar no fato de que ela se tornou um sex symbol aos olhos da sociedade. O fato dela ter se tornado um objeto de desejo, anos depois traria consequências que até mesmo hoje, a indústria do cinema causa na carreira de diversas outras atrizes no mundo inteiro.

A performance de Julia de Nunez é de uma elegância e leveza ímpares e é na atriz que os bons momentos da série se encontram. Os dois episódios que assisti me encantaram e me deixaram com a vontade de assistir mais, porém, como todo biopic, é claro que ele apresenta leves problemas quanto a veracidade de alguns fatos, mas ainda assim, a produção acerta ao mostrar que mais do que um símbolo, Bardot foi uma mulher apaixonada e liberta, que desafiou as regras da sociedade sem medo, mesmo com um pai superprotetor e uma sociedade que tentava ditar quem ela era de verdade.

NOTA: 8/10

Papo com Julia de Nunez, atriz que viveu Brigitte Bardot em minissérie biográfica

 


Por Victoria Hope
Durante essa semana, teve início o Festival Varilux de Cinema Francês, que acontece até o dia 22 de novembro em diversos cinemas espalhados pelo Brasil e um dos títulos que faz parte da programação especial é 'Bardot', minissérie biográfica francesa estrelada por Julia Nunez, que retrata a história da atriz e modelo Brigitte Bardot.

Na série, acompanhamos a história e ascensão de Brigitte Anne-Marie Bardot, mais conhecida como Brigitte Bardot ou BB, uma das poucas atrizes não americanas a receber notoriedade internacional em sua carreira durante sua época. 

Entre as carreiras de canto, modelo e atuação, Bardot marcou para sempre uma geração de mulheres entre a década de 1950 e 1970, carregando um legado como símbolo da moda. Conhecendo seu lado artístico e também seu lado mais pessoal, a história de Bardot recebe um novo olhar. Durante o Festival Varilux, tivemos a oportunidade de conversar com a brilhante jovem atriz que a interpretou e abaixo você confere um pouco dessa conversa.

Bardot / Foto: Festival Varilux, Divulgação

Amélie: Como foi interpretar esse ícone que foi Brigitte Bardot e de qual forma ocorreu o processo de casting? 

Julia: Eu pareço com ela (risos), mas falando sério agora, eu poderia responder essa questão tão ampla de várias maneiras, mas quero contar um pouco sobre o processo do casting. Todos tem uma visão muito pré concebida no imaginário da Brigitte Bardot, dela com aquela voz meio arrastada, aquele ar, aquele andar meio sensual. 

Quando eu comecei a trabalhar na produção, tive um coach de interpretação com quem fiz muitas sessões na mesa, durante a leitura do roteiro e eu comecei a fazer aquela 'vozinha' da Bardot e o coach me disse: 'Não, não é isso o que eu quero. O que eu quero não é que você imite Bardot, eu quero trabalhar a psicologia dela. Ou seja, você vai se colocar no lugar dela nos acontecimentos que ela viveu e trazer para você, quanto atriz.

Eu comecei então a sentir coisas, até coisas que nunca senti antes e que nunca vivi e chorei e foi aí que percebi que comecei a passar da terceira pessoa e aí eu comecei a usar Brigitte Bardot como primeira pessoa, 'eu', e aí é como se eu estivesse entrando no cérebro dela pouco a pouco e foi um processo longo e muito bonito.

Amélie: Nos bastidores da série durante as filmagens, qual foi o momento que mais te marcou?

Julia: Mais do que uma cena em particular nos bastidores, eu quero falar de uma amizade que criei com Oscar Lesage, que interpretou Jacques Charrier. Realmente foi muito divertido trabalhar com ele porque ele estava sempre de cinza, com um visual meio 'triste', e só acontecia desgraça na vida do personagem, ele era bem depressivo, 'cortava as veias', depois ele estava na ambulância, mas eu morria de rir porque como sou amiga de Oscar, tudo acabava virando uma piada interna entre nós dois. Isso foi o que mais me divertiu nos bastidores das filmagens; 

Festival Varilux 2023 | Making Of

 

Por Victoria Hope

Com o final de todos os protestos da WGA e da Sag-Aftra recentemente e o tema de questões sindicais da indústria, 'Making Of' prova ser uma obra extremamente relevante para esse momento do cinema. O filme teve sua estreia no Festival de Veneza esse ano e vai entrar em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês a partir dessa semana.

No filme de Kahn, Simon (Denis Podalydès), um famoso diretor francês, enfrenta uma série de adversidades ao tentar concluir a filmagem de seu novo filme, que narra a história de um grupo de trabalhadores que lutam para evitar que a fábrica em que trabalham seja realocada. 

Making Of” é, essencialmente, uma história sobre a indústria cinematográfica. É por meio de Joseph (Stefan Crepon), que a trama ganha vida. Joseph é encarregado de trabalhar documentando toda a produção do filme, gravando desde entrevistas com o diretor até reuniões sobre os rumos das filmagens. Através dele, o filme também cria subtramas que exploram as relações entre os membros da equipe de filmagem. 

Pessoalmente, acredito que o longa poderia entrar um pouco mais a fundo na questão política por trás dos acontecimentos, tendo em vista o que o mundo inteiro tem presenciado com as últimas greves no mundo real, mas ainda assim, o longa faz um bom trabalho em mostrar a importância daqueles que trabalham nos bastidores, revelando que a magia do cinema, na verdade só é 'mágica' nas frentes das telas mesmo, pois por trás dela, existem trabalhadores exaustos, trabalhando incansavelmente, em condições precárias, em nome da arte e em nome da indústria.

Falando da direção, essa sim é um show parte, em alguns momentos mostrando cenas de tirar o fôlego. fazendo com que o público imagine estar na pele daqueles personagens. Questões como o ego, o medo e ao mesmo tempo o sonho de lutar por um ideal maior, são os pontos fortes desse longa, que tem muito a trazer para uma reflexão maior, apesar de que poderia se beneficiar com um aprofundamento maior sobre a temática das greves.

NOTA: 8/10

Entrevista com Baya Kasmi, a hilária diretora da comédia O Livro da Discórdia

 Por Victoria Hope

Na comédia 'O Livro da Discórdia' de Baya Kasmi, Youssef Salem tem 45 anos, é descendente de uma família de imigrantes argelinos e vive em Paris onde se dedica à escrita. Após uma série de contratempos, ele decide escrever um romance parcialmente autobiográfico, inspirado na sua juventude e em particular nos tabus que rodeiam a sexualidade no ambiente onde cresceu. 

Na trama, o livro provoca um debate público apaixonado, mas também gera uma tensão no seio da sua família, que Youssef tentará manter unida o melhor que puder. Com tantas produções mais recentes que abordam a temática da sexualidade o tabu em torno dela, 'O Livro da Discórdia' é uma bela surpresa que deixa um quentinho no coração ao abordar o lado familiar de toda a questão, afinal, muita gente vai se identificar com a história de Youssef e sua família. 

Durante o Festival Varilux, a hilária diretora Baya Kasmi veio ao Brasil para divulgar o longa, que estará em cartaz até o dia 22 de novembro nos cinemas e nossa equipe teve a oportunidade de bater um papo com ela sobre sexualidade, tabus, família e comédia!

O Livro da Discórdia / Foto: Festival Varilux, divulgação

Amélie: O filme é uma ótima comédia que toca em diversos tabus. De onde surgiu a ideia para explorar esses temas no filme?

Baya: Eu queria partir dessa ideia do romance que partiu de Adão e Eva, tipo, 'coma a maçã tóxica'.  (risos). É verdade que nas culturas magrebina e mulçumanas, onde a religião tem uma importância muito grande, as questões de homossexualidade e casamento podem criar tensões e as pessoas tem essa tendência de ter essa vida escondida dos pais. Claro que isso é universal, porque muitas comunidades e países tem esses questionamentos próprios das religiões também,

Amélie: Em um momento, todos os filhos decidem jogar um caminhão de segredos em cima da coitada da mãe entregando um momento absolutamente cômico. Como foi filmar essa cena? 

Baya: Foi muito emocionante e engraçado porque todos os atores já passaram por alguma situação assim na vida e eles estavam com medo de chocar Noémie Lvovsky, a atriz que interpreta a mãe, com isso. Mas todos se emocionaram, todos tiveram vontade de chorar quando a irmã começou a falar, se criou um 'incômodo' que eu nem precisei dirigir, porque ele simplesmente surgiu (risos).

Amélie: Como foi o processo de casting?

Baya: Eu trabalhei com uma diretora que gosto muito e para alguns personagens eu já sabia, principalmente o protagonista interpretado por Ramzy. Eu escrevi esse personagem para ele e antes eu já tinha feito dois filmes com ele. 

Tive essa ideia há sete anos, conversei com o Ramzy e ele apoiou e aceitou logo de cara. Demorou um tempo porque eu estava sem produtora na época, mas fiquei muito feliz que ele me apoiou desde o começo e isso me ajudou demais. Aí quando eu finalmente encontrei a produtora, ele gravou o filme comigo.

Já a família, para criar esse núcleo, o processo demorou um pouco mais, porque foi se colocando uma pessoa após a outra. Por exemplo, a irmã na cena do carro, é irmã da vida real de Ramzy e ela é muito engraçada, mas ela também não se parece muito com ele (fisicamente) e eu precisava compor a família com algumas semelhanças, por uma questão de energias mesmo, pessoas com energias muito forte como a irmã e o padeiro e também um lado mais intelectual como o da outra irmã e do próprio Ramzy, então foi um jogo de inspiração, onde construímos tudo como um lego (risos), encaixando as peças pouco a pouco.

Amélie: Falando sobre tabus principalmente relacionado à sexo. Quem está online, é nítida a percepção de que a geração mais nova hoje, especificamente a geração Z, aparenta hoje ter muito mais puder relacionado à questões quanto a sexualidade ou até mesmo o pudor de gerações mais antigas. O que pensa sobre isso? 

Baya: Concordo, é a volta da religião como instituição. A França é um país com uma cultura católica muito forte, vimos isso quando houveram aquelas manifestações contra o casamento homoafetivo, pois eles, os católicos, foram para as ruas para impedir isso. E na minha cultura magrebina e mulçumana, já estamos na terceira geração.

A primeira geração que nasceu lá na França e é filha dos imigrantes magrebinos, sofreu muitas humilhações, então a segunda geração já tentou se libertar disso, mas agora a terceira, já está demonstrando querer voltar às tradições, querendo demonstrar um pertencimento maior à cultura, ou seja, uma volta aos costumes mais tradicionais e até mais radicais. Eles são minoritários, mas existe aquele pensamento de 'Ah, só porque eu nasci na França, porque eu preciso ser francês?'

Eu tenho uma amiga de uma filha que em uma obsessão e é interessante, porque ela usa véu, mas os pais dela, as mulheres da família dela, já não usam, então a gente nota essa volta e essa 'rebeldia' contra os pais, mas de uma forma diferente. Mas essa amiga da minha filha, veio assistir ao filme na estreia e foi engraçado que em alguns momentos, ela mesmo não concordando com algumas coisas ditas no filme, o filme criou esse espaço de conversa e de discussão com ela e as amigas, então isso é muito interessante.

Fizemos uma exibição do filme no bairro onde ele foi filmado no sul da França, perto de Marseille. É uma comunidade com muitos magrebinos e muitos mulçumanos. Quando eles estavam assistindo filme, alguns até desviaram os olhos em alguns momentos, mas isso é ótimo, porque isso provoca as pessoas à olharem para si mesmos. 

Amélie: E qual é a lição que o público vai poder levar do filme para a vida?

Baya: A liberdade de escolher falar ou não a verdade, a liberdade de fazer tudo como se deve ou nada como se deve (risos). Uma família unida, mesmo que na cozinha tenha uma briga, onde todo mundo berra e fala as piores coisas uns pros outros, ela se mantém unida.

Entrevista com Bruno Chiche, diretor do sensível drama familiar francês Maestro(s)

 

Por Victoria Hope

Em 'Maestro(s)' sensível e poderoso longa de Bruno Chiche, que conta com Yvan Attal, Pierre Arditi, Miou-Miou e Caroline Anglade, acompanhamos maestro Denis Dumar  que ganhou mais um prêmio nas Victoires de la Musique Classique, evento anual de premiação de música clássica francesa. Logo em seguida, seu pai, François – um brilhante maestro de renome internacional – recebe um telefonema anunciando que foi escolhido para reger a orquestra do Teatro Scala de Milão. 

Sendo esse seu maior sonho, ambos vibram com a notícia. Porém, Denis rapidamente se desilude ao descobrir que, na verdade, ele é quem foi escolhido para ir à Milão, e não seu pai e é a partir desse momento que os conflitos começam.

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês, o diretor Bruno Chiche conversou com a nossa equipe sobre família, música e sobre 'Maestro (s)', que está em cartaz no festival que acontece até 22 de novembro em diversos cinemas espalhados pelo Brasil!

Maestro (s) / Foto: Divulgação, Festival Varilux 2023

Amélie: Muitos filmes relacionados ao universo da música tocam no tema da obsessão e da busca pela perfeição. Como foi dirigir esse longa que permeia também o universo musical? Você acredita que Maestro (s) navega também toca nessa 'ferida'? 

Bruno: O sentido da vida para ambos pai e filho (no filme), é a música e os dois são obsessivos, então sucessivamente eles tem um conflito por conta disso. Mas a proposta na verdade não foi tanto sobre música e sim sobre uma relação entre pai e filho, em um momento onde o filho recebe uma proposta que é o sonho do pai, então essa trama poderia ter sido trabalhada de várias formas.

Ambos poderiam ser dois cirurgiões, dois atores e não necessariamente maestros, mas eu gosto muito de música clássica e no começo, o pai e o filho eram professores de história, mas eu tenho uma amiga que comentou 'Que estranha essa relação entre o pai e o filho, porque isso aconteceu com alguém da minha família e os dois são maestros!' A partir daí eu retomei o roteiro e transformei em uma história que permeava o mundo da música.  

Amélie: Falando sobre o relacionamento complicado familiar. O filho está vivendo o sonho do pai, mas como o pai se sente nessa situação? Pois como pai, ele tem orgulho, mas ao mesmo tempo, é o sonho pessoal dele. 

Bruno: Eu sou ao mesmo tempo filho e pai, então é engraçado você trazer essa questão, justamente porque o filme mostra o ponto de vista do filho. Eu penso, como pai, que posso dizer que sou artista, por exemplo e posso dizer que estou sempre com medo pelo meu filho e eu acho que o pai no filme, que é interpretado pelo Pierre Arditi, está com medo também e tem um momento que ele verbaliza isso.

Eu acho que toda essa relação complexa entre o pai e o filho no filme é o ponto central, por conta de um certo medo que o pai sente não do filho, mas pelo filho, entende? Porquê o pai sabe do que ele é capaz, mas ele não 'confia' muito no filho. Ele não sabe se o filho pode encarar essa profissão tão difícil. Tudo isso acaba em uma atitude um pouco complexa, pois ao mesmo tempo em que ele ama o filho, ele tem medo do filho fracassar, mas ao mesmo tempo, ele tem um pouco de ciúmes também, portanto eu acho que o eixo disso é o medo.

Outro fator também é que a geração desse pai, desse maestro, é diferente, pois era uma geração que costumava estudar muito, fazer estudos de música muito puxados, eram muito rigorosos, já a geração do filho é mais despojada, mais instintiva e isso o pai não gosta, ele acha que não é a maneira correta de se fazer música.

O interessante é que tem um conflito dentro de cada um. O filho está quase recusando esse papel na escala por conta do pai. Ele reflete 'será que eu devo ir? Eu não quero matar o meu pai (de desgosto)'. Então o protagonista tem esse conflito interior. E tem o conflito desse pai que quer ser o 'número um', mas o dilema maior cai mesmo sobre o filho.  O pai poderia até ter essa vontade de ver o filho realmente ter todo esse sucesso, mas ao mesmo tempo, ver o filho alcançar tudo isso marca o fim da carreira dele, porque vem nova geração, então de certa forma, ele se sente empurrado na morte.

Amélie: No começo você comentou que a vida de ambos os personagens é a música. E para você, o que é música?

Bruno: A música para mim é o tempo inteiro. Eu sou bastante angustiado como muitas pessoas nessa profissão, com certa angústia e a música me acalma, é como uma 'droga' (risos). Mas depois da filmagem, confesso que enjoei um pouco de música clássica. Aí comecei a escutar jazz e depois voltei pra música clássica (risos).

Amélie: Quais são as três lições que a audiência poderá levar para a vida com 'Maestro (s)'

Bruno: Uau...Essa pergunta é difícil. Para os jovens, acho importante gostar do que faz e fazer o que gosta. A segunda lição seria ter certeza de que está num momento da vida onde você possa sempre manter a curiosidade viva. Ser curioso nesse mundo é importante, porque perder a curiosidade é o maior risco e a terceira é beber uma boa cairpirinha (risos)!

Um papo sobre a dramédia francesa O Renascimento com o diretor Rémi Bezançon

 


Por Victoria Hope

Na dramédia 'O Renascimento',  o dono de uma galeria de arte, Arthur Forestier representa Renzo Nervi, um pintor em plena crise existencial. Os dois homens sempre foram amigos e, apesar de todos os contratempos, o amor pela arte os une. Sem inspiração há vários anos, Renzo gradualmente afunda em um radicalismo que o torna incontrolável. Para salvá-lo, Arthur desenvolve um plano ousado que acabará testando sua relação. Até onde você iria pela amizade?

Durante o Festival Varilux desse ano, tivemos a oportunidade de entrevistar o diretor do filme, Rémi Bezançon, e ter uma conversa descontraída sobre arte, propósito amizades e como retomar as redes da vida quando perde-se uma inspiração. Vale lembrar que o filme está em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês desse ano, com sessões até o dia 22 de novembro em cinemas espalhados pelo país.

O Renascimento / Foto: Festival Varilux, divulgação

Amélie: Como foi o processo de casting, porque a sintonia dos dois em tela foi incrível: 

Rémi: Eu não acredito em improviso, não sou muito fã disso, então tudo o que acontece, esta no roteiro, mas é claro que os dois atores, ilarios, tiveram excelente quimica e fizeram o filme funcionar

Amélie: Todo artista já perdeu a 'musa' em algum momento da carreira, isso aconteceu com você? 

Rémi: Olha não perdi uma musa, mesmo porque é algo diferente entre um pintor e um diretor de cinema, mas sim, já passei por um momento bem tenso onde fiquei 'travado' e isso não foi nada bom. Durou por um tempo, mas felizmente eu consegui recuperá-la e voltar a criar e dirigir novamente. 

Amélie: Como foi gravar com esses dois brilhantes atores e tocar nessa temática da depressão que assolava o artista plástico?

Rémi: Bom, foi muito interessante porque o tema aborda a arte, a depressão, a tragicomédia disso tudo. Eu falo tragicomédia justamente por conta da depressão que é abordada, você ri, mas também vai se emocionar em alguns momentos, provavelmente porque vai se identificar com a amizade dos dois em algum momento. 

O Renascimento/ Foto: Festival Varilux, divulgação

Amélie: Em um momento do filme, um dos personagens diz algo muito marcante: 'Faz se arte quando não se sabe fazer mais nada. O que pode dizer sobre essa frase? 

Rémi: Foi interessante você dizer isso porque essa é minha cena favorita do filme, porque é sobre isso, é a tragicomédia do artista que está depressivo. Você percebe como ele está deprimido quando vê ele menosprezando a própria arte. É claro que temos também a questão da saúde dele se deteriorando e dos problemas de memória também surgindo, mas essa é a ironia. 

Quando você está prestes a perder tudo, o pessimismo toma conta e é isso que acontece com Renzo e é a partir desse momento que Arthur vê que precisa 'resgatar' o amigo de alguma forma. É interessante como eles entram num novo universo de artes porque o mais importante pra ele é ser visto. Ser artista definitivamente é uma escolha.

Amélie: Qual a lição que você vai levar para a sua vida com O Renascimento?

Rémi: Não necessariamente uma lição, pois eu fiz o filme, mas eu fiquei muito feliz de ter abordado a temática do mercado da arte e de como as obras de arte em algum momento se tornam uma especulação. As artes estão trancafiadas em cofres em Dubai e ninguém vê. Para mim, é importante que uma pintura seja vista.