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[Entrevista] Um papo sobre Spider-Noir com os Diretores de Fotografia Darran Tiernan e Peter Deming

 



Por Victoria Hope

O Homem-Aranha é, sem dúvida, um dos super-heróis que mais teve versões alternativas ao longo de sua trajetória, desde Homem-Aranha 2099 ao Porco-Aranha, Gwen-Aranha, Homem-Aranha Superior entre muitos outros, entretanto, uma de suas versões mais intrigantes é a versão Noir - uma série de quadrinhos que colocava seus heróis em cenários inspirados em filmes noir e pulp fiction

Com uma estética sombria, que mistura elementos steampunk e detetivescos, ambientado em uma Nova York dominada pelo crime, somos introduzidos a um fascinante universo alternativo de Spider-Noir, um dos personagens mais complexos e intrigantes da família aracnídea. 

É nesse cenário que o público acompanha as aventuras (e desventuras) do complicado Ben Riley (Nicolas Cage) na nova série original do Prime Video! Na trama, o detetive particular é contratado para casos simples, até que gângsteres, monstros e uma misteriosa femme fatale tecem uma teia que o obriga a confrontar seu passado como o único super-herói de Nova York: O Spider.

Spider- Noir ocorre em um cenário político agitado da década de 30, retratando um cenário social completamente arruinado pela crise de 29, transmitindo um sentimento de desesperança e medo na população. A série está sendo aclamada pelo público pela fotografia ímpar e a possibilidade de ser assistada tanto de forma colorida quanto em preto e branco pelo público, ambas escolhas muito acertadas! 

Nossa equipe teve a oportunidade de entrevistar os dois brilhantes cinegrafistas Darran Tiernan (Pinguime Peter Deming (Pânico 2 e 3), para comentar sobre Spider-Noir, essa nova produção que ganhou o coração dos aficionados por quadrinhos e séries investigativas.

Darran Tiernan e Peter Deming, diretores de fotografia de Spider-Noir
Amélie: Como foi trabalhar em uma série que se passa na década de 30? Essa é uma estética que vocês gostam e já abordaram antes em produções anteriores?

Darran: Sim! Essa é a segunda vez que tenho a oportunidade de trabalhar com esse tema e eu amo aquele mundo. É muito interessante principalmente quando abordamos a década de 30 nos Estados 
Unidos, por conta da era da Grande Depressão. 

Todas as texturas, a tecnologia da época, a moda, tudo o que estava acontecendo culturalmente naquele período, sabe? A fotografia estava em seu auge e a indústria cinematográfica que conhecemos estava começando a tomar forma, então pessoalmente, acho que era um período muito bonito, visualmente falando.

Peter: Sem dúvidas! Acredito que ambos já trabalhamos em abordagens desse período, mas nunca com esse visual. É como se explorássemos uma releitura moderno e tudo parece tão mais autêntico, sabe? Como se realmente fosse daquela época *risos* e é claro que sabemos que não é da época, mas a ideia era deixar o mais próximo possível.

Amélie: Todas as cenas realmente possuem uma textura e riqueza enorme de detalhes. Com isso em mente, quando falamos da escolha em apresentar o projeto em dois formatos, tanto em preto e branco quanto colorido, existe uma preferência para cada um?

Darran: Tenho muito orgulho das duas versões! Foi uma verdadeira jornada chegar nisso, criar esses dois visuais que deveriam coexistir e agora, parando para pensar, acredito que em algumas cenas, existe um distanciamento emocional entre o colorido e o preto e branco e você sabe, cada pessoa vai reagir de uma forma diferente à cada versão, mas para mim, tenho muito orgulho das duas, por razões diferentes também.

Peter: Eu diria que gravito mais para o lado preto e branco! Quando eu estava filmando, estava completamente absorto nessa versão, mas é claro, também observando a versão colorida ao mesmo tempo e agora que a série foi finalizada, eu ainda acho que prefiro a versão preto e branco, mas ainda assim sou grato pela versão colorida e da mesma forma que fomos incentivados à usar o preto e branco, também fomos incentivados a utilizar o colorido. 

Falando com pessoas que assistiram a série inteira nos dois formatos, muita gente comentou que se sentiu assistindo duas séries completamente diferentes devido a ausência ou adição de cores, sabe? Elas evocam sentimentos diferentes e eu acho isso fascinante.

Amélie: Vamos falar sobre o uso da dioptria dividida nas cenas! Elas ajudaram muito a evocar aquela sensação de estarmos lendo páginas de quadrinhos! Como foi utilizar essa técnica na série?  

Darran: Claro! Que projeto incrível é esse, que nos deixou usar dioptria dividida! Nós dois utilizamos a técnica de formas diferentes e é sempre tão animador ter permissão de fazer isso *risos* Alguns desses momentos foram planejados, outros simplesmente apareceram de forma natural enquanto estávamos montando as cenas. Elas são sempre muito divertidas e eu quero usar mais no futuro!

Peter: Concordo totalmente! Quando você olha para o pacote das câmeras e vê dioptria dividida ali, imediatamente você pensa que está prestes a fazer ser algo muito divertido! Você sempre busca por oportunidades para poder fazer isso da maneira correta, sabe? Tipo, esconder bem aquela linha que divide os quadros da melhor forma possível.

Depois que filmamos, comecei a pensar que vou levar essa técnica para absolutamente tudo o que eu fizer a paertir de agora *risos* Vamos fazer isso mais vezes! Sabe, teve um momento que a assistente chegou a perguntar "É isso mesmo que você quer?" e eu disse: "É claro!" e felizmente, todos que estavam envolvidos nesse projeto concordaram e disseram "Vamos fazer isso!"

Spider-Noir / Foto: Prime Video
Amélie: Imaginem que a partir de agora, todos nós fazemos parte do universo do Homem-Aranha! Se vocês pudessem escolher uma habilidade aracnídia, qual seria? 

Darran: Wow, essa é uma pergunta incrível! Tem tantos! Eu queria poder escolher mais de um! *risos*, mas acho que nesse mundo em que vivemos agora, eu escolheria ter Super-Força!

Peter: Para mim são definitivamente as teias! Eu acho que você até pode usar elas pra lutar com pessoas, mas eu acho que eu queria mesmo era voar pela cidade usando as teias! *risos*

Darran: Acho que eu teria muito medo de praticar voo com teia! 

Peter: Mas é para isso que a gente teria quer praticar *risos*

Amélie: Excelente! Eu acho que eu gostaria de ter oito olhos para poder ver oito telas de cinema ao mesmo tempo!

Darran: *Risos* Esse é um poder muito incrível!

Peter: Eu achei esse poder a sua cara! *risos*

Amélie: Sobre Spider-Noir, qual foi o momento favorito dos episódios que dirigiram?

Darran: Tem Muitos momentos! Mas a que eu mais gosto de reassistir é a cena da  Li Jun Li interpretando a Felicia 'Cat' Hardy. A cena da performance musical dela no primeiro episódio foi fascinante, aliás, desde o momento da entrada do Ben no local até ele conhecê-la. Eu amo essa sequência.

Peter: Eu adoro a cena em que ele [Ben] aparece no apartamento da Felicia, numa última súplica para que eles fiquem juntos, sabe? Para eles fugirem juntos. E na verdade essa foi a primeira cena que eu filmei para a série. Tinham muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo! 

Era meu primeiro dia no set, nós estávamos no palco tentando deixar tudo o mais impecável possível. O set inclusive, estava com aquele visual perfeito noir e Nic Cage estava fazendo o que faz de melhor e ele estava tão empolgado e aquela cena da súplica realmente marcou demais. 

Spider-Noir / Foto: Prime Video
Amélie: Falando em Nicolas Cage, como é trabalhar com esse ator tão icônico?

Darran: Maravilhoso, na verdade! Não apenas ele é uma pessoa muito legal, como ele também sabe muito sobre filmes! Sabe muito sobre a década de 30 e sobre quadrinhos também! É um profissional completo e uma pessoa realmente maravilhosa. Sempre pontual, sempre pronto sem se atrasar. Ele sabe tudo sobre os projetos e se envolve bastante em todos os processos.

Quando começávamos a filmar, a primeira coisa que ele dizia era "Onde vocês me querem para essa cena? Aqui? Ali?"  E ele também sabe muito sobre como e onde encontrar a câmera independente da composição das cenas, era incrível! Fazia parte de sua conexão com sua performance! 

Ele realmente acompanhava tudo, era o primeiro a chegar para a leitura de roteiro e isso transparesse para todos que assistem a série também, esse envolvimento dele. Ele também era muito generoso com os outros atores, sempre querendo acompanhá-los, se conectando muito bem com todo o elenco.

Peter: Eu concordo com tudo isso e acho que o Nic gosta de impulsionar sua performance. Tinham muitas coisas interessantes, por exemplo, ele não era quem você imaginaria nesse papel quando lê o roteiro, mas ele é tão bom nas telas, planeja tudo minuciosamente na cabeça dele em termos do progresso do personagem, que consegue acertar muito e nenhuma cena é igual a outra! Toda vez que tínhamos que voltar a filmar a mesma cena, ele perguntava "O que podemos fazer diferente agora?" *risos* E nunca era algo igual; ele sempre trazia algo novo e diferente.

Amélie: Na série, eventualmente, Ben redescobre seu amor por ser um Homem-Aranha; já que a muito tempo isso estava enterrado. Em algum momento de suas carreiras, vocês já se sentiram como Ben? Como se algo importante na carreira de vocês tivesse se apagado, mas que de repente, num belo dia, algo voltou a ignar sua paixão pela cinematografia? 

Darran: Pessoalmente sim, viu? Às vezes você faz um projeto que não está fluindo bem e isso pode amargurar sua criatividade e de repente, aparece um projeto onde você diz "Uau!" É claro que não vou nomear nenhum projeto, mas vez ou outra aparece um projeto que me faz amar direção de fotografia de novo! É como se algo me dissesse que estou exatamente onde deveria estar! Mas também é muito sobre como você lida com a situação, sabe? 

Muitas vezes você precisa passar por aquilo; você vai fazer o seu melhor e não vai deixar as outras pessoas do projeto de lado, mas aí em outras vezes, tudo vai fluir perfeitamente e vai se encaixar muito bem! Como em Spider-Noir para mim, tudo funcionou muito bem! 

Peter: Concordo totalmente. Existem projetos ou momentos de alguns projetos onde é muito difícil ficar animado com a parte visual do projeto, mas eu sempre faço um lembrete à mim mesmo de que é um privilégio fazer o que a gente faz, sabe?

Estar em um set e gastar o dinheiro de outra pessoa *risos* para fazer coisas que você quer fazer! Obsviamente é uma colaboração, mas a forma que você captura as imagens, suas escolhas nas gravações, são algo muito pessoal e único seu e saber disso é que me ajuda nos momentos mais difíceis.

As vezes o trabalho pesa na sua alma, mas quando você pode ver esse trabalho crescendo ao lado do roteiro, da atuação, tudo vai se encaixando e aparece no produto final, que todo mundo envolvido sempre deu o 100% de tudo.

[Entrevista] Lovisa Sirén, Diretora do curta premiado Without Kelly, fala sobre o maternidade na juventude, encontros e desencontros

 


Por Victoria Hope

"Without Kelly", um curta-metragem sueco de autoria e direção de Lovisa Sirén, traz uma bela e delicada representação da maternidade jovem, temaque não importa o ano ou a era, ressona com diversas jovens mães ao redor do mundo. 

O curta, que teve sua estreia no Festival de Veneza e esse ano integra a programação do Festival Sundance, narra a história de Esther (Medea Strid), uma mãe jovem que enfrenta a difícil experiência de se separar de sua filha bebê, Kelly (Teodora Sundström Latev), pela primeira vez, ao confiar a criança ao pai da menina, Anton (Truls Carlberg).

Não apenas o longa teve sua estreia em um dos maiores festivais de cinema, como também conquistou o Prêmio Orizzonti de "Melhor Curta-Metragem" no Festival de Veneza e foi nomeado para o Prêmio Guldbagge, a versão sueca do Oscar.  Durante o Sundance, nossa equipe teve a chance de conversar com a brilhante Lovisa Síren sobre maternidade, solidão e todos os temas que permeiam o universo de "Without Kelly" e você pode conferir essa conversa na íntegra abaixo:


Without Kelly/ Foto: Sundance Film Festival

Amélie Magazine: Parabéns pelo sucesso em Veneza! Como é fazer parte da seleção oficial do Sundance 2026? 

Lovisa: É incrível! Estive no Sundance em 2016 para o lançamento de outro curta e foi uma experiência muito especial naquela vila cheia de neve. A atmosfera estava incrível e todos estavam tão felizes! 

Amélie Magazine: E o Festival de Veneza, como foi? 

Lovisa: Foi incrível também! Aquela foi minha primeira vez na Itália e Veneza é um lugar tão lindo.

Amélie Magazine: Without Kelly nos confronta sobre o sentimento de solidão que as vezes jovens pais podem sentir

Lovisa: Não sei quanto do filme mostra o lado da solidão, mas eu acredito que sim ele mostra sim boa parte desse sentimento e isso é algo que você passa quando tem um bebê e ainda é muito jovem. Eu passei por isso pessoalmente, então eu entendo bem esse sentimento, porque você se sente solitário quando tem uma criança e não está perto dela. 

Especialmente, é importante lembrar que você pode se sentir solitário com ou sem a criança. Até mesmo quando está com o bebê ainda em seu ventre, mas não em seus braços, traz um sentimento de espera que pode causar certa angústia e isso também parte da solidão.

Esther sente muita falta da filha e quando ela não está com a bebê, ela sente como se tivessem dividido o corpo dela em dois. Ela não quer estar longe da filha, então para ela, essa separação é muito difícil de lidar. É como se algo nela estivesse faltando, sabe?

Amélie Magazine: O curta também toca no assunto da identidade da mãe sem a criança, no sentidodo de quem é a jovem Esther sem sua filha. Ela sabe quem é ou está em busca de uma resposta? 

Lovisa: Exatamente, eu acredito que ela não sabe quem ela é ou quem ela ainda vai ser. Ela só sabe que é mãe dessa criança e eu acredito que ela vive muito o momento. No filme, ela é confrontada por essa questão existencial de quem é ela para além da maternidade. Porque enquanto ela tem a filha nos braços, ela sabe que é mãe, mas e a outra parte da identidade dela? 

O que vai além? Para onde ela vai ao rolar dos créditos? De alguma forma, essa é uma história Coming Of Age, ou seja, de amadurecimento da personagem.

Without Kelly / Foto: Sundance Film Festival

Amélie Magazine: Por um acaso a peruca rosa de Esther tem a ver com o longa "Lost in Translation" ou é apenas uma peruca rosa mesmo?

Lovisa: É engraçado você mencionar, porque é só uma peruca rosa mesmo *risos*

Amélie Magazine: Como diretora, conseguiria pontuar três diretores que te inspiram?

Lovisa: Eu acredito que mudo muito rápido de opinião *risos*, mas acredito que posso falar de diretores que me inspiraram no começo da carreira até os que me inspiram hoje. Quem me inspirou logo no comecinho foi Cassavetes (John) e logo em seguida, os Irmãos Safdie (John e Benny Safdie) e recentemente, assisti um filme chamado La Chimera de Alice Rohrwacher.

Amélie Magazine: Agora vamos voltar no tempo. Se você pudesse deixar uma mensagem para a jovem Lovisa, qual seria?

Lovisa: Que pergunta interessante! Eu diria, acredite em você mesma, tenha coragem e faça o que deve fazer, porque demorei muitos anos para entender que além de escrever, eu poderia ser uma diretora, sabe? Antes eu não acreditava em mim mesma, mas eu sabia que eu queria trabalhar com cinema, apesar de não ter antes a ambição de ser diretora e dirigir meus próprios filmes. Isso mudou, então eu diria: Apenas faça! *risos*

Amélie Magazine: Quais foram os maiores desafios durante as filmagens de "Without Kelly"?

Lovisa: O bebê *risos*. Levamos muito tempo para filmar, porque nós precisávamos esperar até ela ter seu momento. Porque às vezes ela estava dormindo ou às vezes não queria filmar. A mãe e a bebê dormiram no apaertamento onde filmamos, que aliás, curiosamente é meu apartamento. Então nós organizávamos todo o equipamento logo cedo pela manhã e ela acordava bem quando estávamos começando.

Nossa equipe começava a filmar desde cedo, às 6h da manhã, tentando não fazer nenhum barulho e mesmo assim, quando ligávamos o equipamento, ela acordava e ficava observando *risos* E aí tínhamos que começar novamente. Foi bem desafiador.

Amélie Magazine: E para seus próximos projetos. Existe algum tema que você gostaria de explorar?

Lovisa: Eu realmente não sei, porque estava tão feliz com esse curta! Foi minha primeira colaboração com a minha diretora de fotografia Christine Leuhusen e foi incrível trabalhar com ela, ebntão eu adoraria colaborar mais uma vez com ela se possível.

[Entrevista] Uma conversa com Salif Cissé e a diretora Fabienne Godet sobre a comédia francesa Voz de Aluguel

 

Por Victoria Hope

Apresentado anteriormente em estreia mundial no Festival de Cinema de Comédia de L'Alpe d'Huez e agora em cartaz no Festival de Cinema Francês no Brasil, "Voz de Aluguel" conta a história de um escritor idoso em busca das sombras e de um jovem imitador em busca da luz.

Na trama dessa comédia deliciosa dirigida por Fabienne Godet, Baptiste (Salif Cissé) gostaria de viver da sua arte, mas na verdade vende seguros por telefone enquanto espera que o sucesso bata à sua porta. Pierre (Denis Podalydès) gostaria de viver da sua arte, mas as muitas exigências que o sobrecarregam tornam esse sonho impossível. 

Um dia, porém, Pierre tem uma ideia: sugere que Baptiste se torne seu dublador. Ele quer entregar seu celular particular para Baptiste para que este possa gerenciar todas as suas ligações, pessoais e profissionais, permitindo que ele se concentre em escrever seu próximo romance sem se distrair com a vida. 

É claro que Baptiste fará mais do que apenas responder e interpretar: ele inventará e reinterpretará as histórias contadas pelo excêntrico escritor e como uma espécie de espírito benevolente, ele tenta, através de sua mentalidade peculiar e perspectiva externa, organizar a vida de Pierre, o que leva a um turbilhão de mal-entendidos, triangulos amorosos e muito mais! Confira abaixo a conversa que nossa equipe teve com Fabienne e Salif em São Paulo: 


Voz de Aluguel / Foto: Festival de Cinema Francês

Amélie Magazine: Como é estar no Brasil pela primeira vez para o lançamento da comédia Voz de Aluguel?

Salif: Estou muito feliz por estar aqui! Desde quando soube que viria ao Brasil, estava muito ansioso e entusiamado porque não conhecia o país! Não sabia da relação dos brasileiros com o cinema francês então está sendo uma grande descoberta!

Fabienne: Também estou muito feliz! Fiquei enstusiasmada em estar aqui! Ainda tenho uma semana para conhecer os brasileiros e para trazer um pedacinho da França para eles! Também quero participar das festas e tomar muitas cairpirinhas (risos) e me divertir no Brasil! 

Amélie Magazine: Nosso protagonista Baptiste não é apenas muito talentoso como também é muito confiante e engraçado! Dito isso, Salif, Você se identifica com o personagem?

Salif: Depende muito das situações, mas por conta do teatro, isso me ajudou muito. Isso me proporcionou um certo charme para conseguir mais confiança em mim mesmo e hoje eu acho que domino situações de stress de uma forma melhor, mas é claro que em algumas situações, assim como todo mundo, em que a gente não tem tanta confiança em si.

Amélie Magazine: Qual é o momento mais marcante do filme para vocês e que pretendem levar para o coração a vida toda?

Fabienne: Gosto muito de duas cenas específicas! Uma cena em que o Pierre o Baptiste estão num jantar e Pierre acaba falando algumas coisas pessoais e eles brincam juntos, é nesse momento que a amizade deles começa! E é claro, a música do final, onde o Salif canta com uma voz masculina e feminina e realmente essa canção é interpretada com uma atuação tão boa de Salif, que me emociona toda vez que assisto. Não me canso de ver!

Salif: É engraçado que para mim também são essas duas cenas que eu escolheria (risos). A primeira, principalmente do ponto de vista de ator, é que o Denis (Pierre) é um ator muito talentoso, muito profissional, que oferece um leque de emoções muito grandes, mas não necessariamente entregando uma sensibilidade muito pessoal e eu senti que nessa cena algo muito pessoal que o Denis entregou nos olhos dele, que é uma coisa que a Fabienne procurava e senti que ela estava procurando isso no Denis e esse momento foi muito bonito! 

Essa parte de intimidade que vi nos olhos dele. Além disso, todas as músicas do filme não são apenas performances, são conectadas e muito com a emoção do filme!

Amélie Magazine: O filme fala muito sobre o uso da tecnologia dol telefone celular e das redes sociais. Gostaria de saber de Fabienne, se essa crítica foi inserida de forma intencional na história, como uma "cutucada" nessa obrigação das pessoas estarem online e disponíveis o tempo todo. 

Fabienne: Realmente pensei nisso, inclusive tem um filme que fiz chamado "Um Lugar na Terra", com o Benoît Poelvoorde, um famoso ator belga, que diz que a maior liberdade é não ter que responder ao telefone. Até pensei se colocaria essa frase no filme, mas acabei desistindo. 

Acho que é muito importante a gente estar presente, porque muitas vezes estamos com alguém, mas ao mesmo tempo estamos conectados o tempo todo no celular, proque achamos que temos que responder imediatamente para as outras pessoas o tempo todo, quando na verdade é muito mais importante você se dedicar à pessoa que esta com você presencialmente; é importante estar presente com ela! E na minha idade, tenho ido cada vez mais na direção de estar presente e no tempo presente!

Amélie Magazine: Salif, você é muito talentoso! Quais são suas inspirações que o levaram para a carreira dos palcos e cinemas? Afinal, aqui você não apenas atua, mas também é comediante e canta! Como foi esse processo?

Salif: Muito obrigado! Foi muita sorte na verdade e não algo que calculei ao longo do tempo! Foi algo sempre muito orgânico. Sempre admirei os atores, costumava pesquisar sobre a vida deles pelo wikipedia, acompanhava a trajetória deles também, mas eu mesmo não pensava em ser ator até o momento em que fiz teatro como muita gente faz e acabei percebendo que existia algo natural nisso para mim.

Quando eu deixava de atuar, sentia muita falta, então foi isso que me levou a me dedicar mais. Admirei muitos atores do teatro e tive muito apoio de pessoas que admiro e tenho no coração.


Amélie Magazine:  Se vocês pudessem voltar no tempo e mandar uma mensagem para o seu "eu" ainda criança, qual seria?

Salif: Eu diria para ele não se questionar demais, para ele aproveitar mais, viver mais no presente e diria também para ele ficar tranquilo! Não pense no lado negativo, veja as coisas pelo lado positivo!

Fabienne: Não necessariamente para eu pequenina, porque tive a sorte de ter uma infância muito feliz com pais muito compreensivos que me deixavam sonhar, mas para eu jovem, tive muitos bloqueios sociais principalmente no meio do cinema, mas uma coisa que me ajudou muito foi uma frase marcante, porque eu achava que tinha muitos defeitos e a frase que me inpirou foi "Não tente ser outro, outra coisa do que você já é", porque como eu era tímida, eu admirava muito as pessoas extrovertidas e eu queria ser outra pessoa. Mas minhas amigas diziam que eu tinha algo ótimo, que era saber escutar, então eu parei de querer ser outra pessoa e depois dessa frase até pensei: "Ah, até que tenho minhas qualidades" (risos)

Amélie Magazine: Três palavras que defininem "Voz de Aluguel"

Salif: Amizade, Encontro e Instrospecção

Fabienne: As Artes, Música e a Graça!

Entrevista com Bastien Bouillon sobre o drama vencedor do Festival de Veneza, Mãos A Obra

 

Por Victoria Hope

Em "Mãos a Obra", filme premiado de Valérie Donzelli, Paul Marquet (Bastien Bouillon) era um fotógrafo de sucesso que abandonou tudo para se dedicar à escrita. No entanto, embora seus livros tenham recebido boas críticas, ele não é exatamente um autor de sucesso. 

Após o fracasso de seu terceiro romance, sua editora (Virginie Ledoyen) anunciou que não publicaria seu quarto livro, "Story of an End", uma narrativa sobre o término de seu próprio relacionamento, detalhando seu recente divórcio da esposa (Donzelli), que acaba de se mudar para Montreal com seus dois filhos adolescentes. 

Nesse momento, Paul está com dificuldades financeiras e, apesar da insistência de seu pai (André Marcon), aluga um estúdio de um amigo próximo da família e começa a trabalhar como faz-tudo por um salário ridiculamente baixo em um aplicativo de empregos que conecta prestadores de serviços a clientes na cidade. Essas experiências levam a uma descoberta em sua escrita, inspirando um novo manuscrito que sua editora envia às pressas para a gráfica! 

Durante o Festival de Cinema Francês, mossa equipe teve oportunidade de bater um papo com Bastien sobre esse trabalho e explorar temas como mercado de trabalho, cinema e inspirações e você encontra essa conversa na íntegra abaixo:

Paul, protagonista de Mãos A Obra / Foto: Festival de Veneza

Amélie Magazine: Como é fazer parte de um filme que foi vencedor de Melhor Roteiro em Veneza?

Bastien: Estou muito orgulhoso em fazer parte desse filme que venceu o Prêmio de Melhor Roteiro em Veneza e tenho mais orgulho ainda em atuar com um papel ao qual me identifico tanto do ponto de vista artístico, humano e político.

Amélie Magazine: E qual é o seu momento favorito do filme?

Bastien: O meu momento favorito foi a cena em que tive que ir para a casa de uma moça para construir um armário e quanto cheguei lá enquanto a dona da casa estava festejando. Esse momento mostra o distanciamento entre ele, Paul, que está trabalhando enquanto elas estavam se divertindo.

Amélie Magazine: Assim como Paul, muitas vezes fazemos uma transição de carreira. Você pessoalmente já passou por isso?

Bastien: Na verdade  pessoalmente não como ele fez da fotografia para literatura (risos), mas na realidade eu espero poder continuar fazendo esse meu trabalho como ator e me alimentar da minha própria arte, que é o que mais amo fazer! 

Amélie Magazine: O filme nos confronta como às vezes o caminho em busca do sonho pode ser solitário e nos isola do mundo, como aconteceu com Paul. Poderia falar um pouco sobre isso?

Bastien: Exatamente. Ter sucesso no mundo da arte não é fácil. É difícil ter confiança na gente e isso depende muito do nosso apoio familiar e daqueles que estão ao nosso redor. Me lembro de quando fazia escola de artes e antes de receber todos esses louros, até pensei em me alistar ao serviço militar! (risos). 

Me lembro que eu estava passando por um processo, tinha meus 23 anos na época e aí me perguntaram o que eu fazia da vida e aí eu falei: "Trabalho com teatro" e a resposta das pessoas era: "Tá, mas o que você realmente vai fazer? Trabalhar apenas com arte vai estragar sua vida". E eu fiquei pensando sobre isso que me disseram e foi exatamente isso que me fez desistir da ideia de me alistar e seguir carreira no teatro.

Amélie Magazine: Se você pudesse voltar para o passado e deixar um recado para o pequeno Bastian, qual seria?

Bastien: Hmm...Respire! 

Amélie Magazine: O livro que inspirou o filme é muito emocionante. Você leu o livro e se sim, qual foi seu momento favorito que você teve a chance de representar aqui?

Bastien: Eu acabei de ler o livro, porque gravei uma versão audiolivro dessa obra e foi muito emocionante! Tem várias passagens que me marcaram e uma delas fala sobre o fato de que escritores ficam muito solitários e acabam tendo que fazer outras coisas quando passam dificuldades! Tem uma passagem do livro que fala sobre isso e tem outras passagens também que me marcaram muito.

Amélie Magazine: Como ator, quais são os três filmes franceses favortos que na sua opinião são essenciais para quem se considera fã de cinema? 

"Bastien: Bem, "Quando Chega o Outono" (Quand Vient L'automne) de François Ozon depois, "A Gangue de Paris" (Le Gang des Bois du Temple)" de Rabah Ameur-Zaïmeche e um que ainda não foi lançado oficialmente, que se chama "The Great Arch" (L'inconnu de la grande arche) de Stéphane Demoustier. 

Amélie Magazine: E voltando ao filme, qual foi a sua parte favorita das filmagens de "Mãos a Obra?"

Bastien: Os momentos que eu tive que usar força física foram meus favoritos! Acho que até bati num muro sem querer (risos), mas eu realmente gostei das cenas que exigiam mais do meu lado físico no longa!


[Entrevista] Valérie Donzelli, diretora do drama francês Mãos a Obra fala sobre carreira, paixões e a uberização do trabalho

 

Por Victoria Hope

Em "Mãos A Obra" drama vencedor do Festival de Veneza na categoria de Melhor Roteiro, Paul era o que podemos chamar de um profissional muito bem-sucedido, pois antes ele era um fotógrafo de renome na França, com dinheiro na conta e uma família bem estruturada, até que um dia decide largar tudo e viver apenas da literatura, mas a escolha infelilizmente traz diversas questões na vida do rapaz, já que seus dois livros fracassaram comercialmente e a partir daí, começa o dilema de sua vida, pois tudo o que poderia dar errado, acontece e sem saída, com um recém-divórcio, sem dinheiro e obras originais recusadas, o protagonista decide tomar uma decisão drástica.

Essa bela adaptação doli vro “À pied d’œuvre”, de Franck Courtès, chega em um momento mais do que oportuno, onde a uberização dos serviços tem se tornado cada vez mais presente na vida dos trabalhadores que se veem sem alternativas em um mundo mais caro e mais hostil a cada badalar do relógio. 

O drama, que teve sua estreia no Festival de Cinema Francês desse ano, traz uma visão sobre a ideia de largar tudo para viver o sonho e como ao mesmo tempo, o mundo em si, faz com que pessoas como Paul tentem desistir da liberdade de ser. Conversamos com Valérie, a diretora desse belíssimo longa durante o festival e exploramos as diversas nuances da história desse personagem que ao mesmo tempo parece distante, é extremamente próximo da realidade de toda uma geração.


Valérie Donzelli no Festival de Veneza / Foto: Venice Film Festival 2025

Amélie Magazine: Parabéns pela vitória de Melhor Roteiro no Festival de Veneza de 2025! Como foi a sensação de vencer esse prêmio?

Valérie: Me senti muito orgulhosa e honrada, mas também feliz, porque vencer um prêmio em um festival traz luz ou um holofote para o seu filme e isso torna mais fácil de pessoas conhecerem seus projetos. porque para fazer existir um filme independente hoje em dia, é algo extremamente difícil. não é sempre fácil. 

Amélie Magazine: E qual é o momento de "Mãos a Obra", que você vai levar para sempre em seu coração?

Valérie: Eu simplesmente adorei tudo! Gostei de escrever o roteiro, gostei de filmar, gostei de editar o filme, da montagem também! Todos os momentos foram muito especiais e prazerosos. Difícil, mas muito prazeroso, mas se eu tivesse que escolher um momento para guardar comigo para sempre, seria o final do longa, quando tudo se resolve e nós entendemos que tudo o que Paul escreveu foi inspirado pela vida dele fazendo esses trabalhos e foi isso que entrou no romance que ele está escrevendo nessa história! Esse ponto no filme, ao final, mostra o reconhecimento dos leitores e sobretudo do filho dele também,!

Amélie Magazine: Assim como Paul, muitos de nós já passamos por várias transições de carreira e até mesmo de vida. Isso é algo que ressoa para você?

Valérie: Isso aconteceu comigo com filmes, porque é claro que às vezes não funciona do jeito que você gostaria de funcionasse. Tem momentos onde o dinheiro não entra e a gente precisa dar um jeito, mas ao contrário de Paul, eu tenho uam certa ética e consigo construir meu equilíbrio econômico de tal maneira que eu não preciso fazer os tipos de trabalho que Paul teve que se submmeter para preservar sua liberdade.

Amélie Magazine: O filme nos confronta sobre o fato de que às vezes existe uma solidão quando tentamos alcançar um sonho e isso acontece com o Paul no filme. Poderia falar um pouco sobre isso?

Valérie: A condição na qual ele se encontra, fez com que aos poucos ele deixasse de fazer o que ele fazia antigamente quando ele tinha um trabalho fixo e uma chegada de dinheiro. Ele passa a a abandonar vários hábitos, incluindo deixar de ir ao cinema, deixar de ir à um restaurante, não pode mais receber amigos na casa dele, então pouco a pouco, o mundo dele vai se restringindo mais e mais! Achei muito interessante mostrar ele se tornando meio que um "monge", que corta todas as relações com o mundo para se concentrar no mundo dele que é escrever esse livro, que é esse processo de se restringir e de ficar na solidão. Foi muito interessante mesmo.

Amélie Magazine: Vamos voltar no tempo. Se você pudesse voltar ao passado e deixar uma mensagem para a pequena Valérie que nem imaginava que se tornaria uma diretora premiada que teve a oportunidade de vir ao Brasil, qual seria esse recado? 

Valérie: Eu diria para ela seguir o que ela sente, siga seu coração, siga suas convicções, porque isso é o que eu sempre fiz. E eu também diria para ela que seria melhor ela também se tornar produtora (risos)!

Amélie Magazine: E qual é o seu momento favorito do livro que você conseguiu adaptar para esse  filme?

Valérie: A cena do animal! Adorei transcrever essa cena!

Amélie Magazine: Uma mensagem para os brasileiros que vão assistir ao filme durante o Festival de Cinema Francês nesse ano?

Valérie: Eu diria aos brasileiros que essa é uma história de certa forma universal, porque esse fenômeno da"uberização" da sociedade é algo que tem acontecido no cenário mundial e todo mundo em algum momento da vida pode ser confrontado com essa situação, então esse sentimento de se identificar com o Paul é totalmente universal, porque pode acontecer a qualquer momento. E é importante ver como as pessoas conseguem lidar com as necessidades financeiras e ao mesmo tempo, lutar para eles conseguirem ser as pessoas que eles projetam ser. 

Querem ter uma família ou querem ficar sozinhos? Querem escolher um trabalho ou outro? Se quisermos seguir um caminho na vida, precisamos combinar essas necessidades financeiras da vida com o que as pessoas pretendem fazer de suas próprias vidas, afinal, são escolhas que só cabem a elas.

[Entrevista] Victor Rodenbach fala sobre Os Bastidores do Amor

 

Por Victoria Hope

Na dramédia romântica "Os Bastidores do Amor", durante anos, Henri e Nora compartilharam tudo: eles se amam e ela dirige as peças em que ele atua. Quando Henri consegue seu primeiro papel no cinema, a produção do novo espetáculo deles fica ameaçada e o relacionamento explode. Eles começam a se perguntar: é possível amar um ao outro sem pertencer um ao outro?

Sob o brilho das relações amorosas, alegrias, tristezas e dúvidas entre criador e ator, Vimala Pons e William Lebghil conferem a esta obra uma atmosfera leve e peculiar, mesmo que as personagens apresentem nuances que vão da raiva à doçura juvenil. Tudo é sério, mas também beira a futilidade, assim como são as relações amorosas modernas.

Durante o Festival de Cinema Francês, tivemos a oportunidade de conversar com diversos elencos e realizadores, incluindo o brilhante diretor de "Os Bastidores do Amor", Victor Rodenbech sobre amor, carreira e relacionamentos líquidos na era moderna.


Le Beau Rolê / Foto: Festival de Cinema Francês


Amélie Magazine: Como é fazer parte do Festival de Cinema Francês?

Victor Rodebach: Me sinto honrato em ter meu filme sendo assinado pelo Festival! E vir para o Brasil sempre foi um sonho de infância meu, então é muito emocionante estar aqui com meu primeiro filme!

Amélie Magazine: "Os Bastidores do Amor" fala sobre a melancolia por trás do amor. O filme  pode ser engraçado em alguns momentos, mas tem uma profunda tristeza relacionada ao amor e relacionamentos passados. Qual foi sua inspiração para abordar esse tema na história?

Victor Rodebach: Para meu primeiro filme, eu tinha essa vontade de falar sobre algo que eu conheço e não apenas sou fã de cinema, como também fã de teatro, conheço muito bem e também minha namorada é diretora de teatro.

Amélie Magazine: Então você diria que essa história é bem pessoal? Você se identifica com muitos pontos dos persoangens?

Victor Rodebach: *risos* Sim, esse é um projeto bastante pessoal! Agora falando sobre a melancolia, eu quis fazer desde o começo uma comédia romântica, mas ao invés de começar por um encontro, como na maioria das comédias românticas, quis começar aqui pelo rompimento, pelo fato deles estarem terminando, pois acho que esse lado traz a melancolia que você sentiu ao assistir.

Preferi começar com essa ideia de "recasamento", com um relacionamento sendo quebrado no início para ao longo do filme ser reconstruído, então é melancólico no começo, mas se firma pelo caminho da luz, onde ambos ficam bem.

Amélie Magazine: E qual foi o momento mais engraçado no set de filmagens?

Victor Rodebach: O momento mais engraçado foi aquele onde filmamos a peça de teatro! Foi baseado em histórias que eu vivenciei presencialmente e coisas que conheço. Me diverti muito ao mostrar o lado ao mesmo tempo um pouco ridículo, porque a paixão dessa mulher se tornou uma obsessão e daí nasce um certo ridículo, mas ao mesmo tempo, é tudo feito com muita ternura, então eu nunca quis deixar o sentimento de acalento com esse desastre da peça, que foram os momentos divertidos de filmar.

Amélie Magazine: Como é dirigir atores que estão fazendo papel de atores?

Victor Rodebach: Me inspirei muito com esses atores e com a diretora, que na vida real também é diretora de teatro! (risos) Então de uma certa forma, ela se apoiou na experiência dela e os atores se inspiraram também em sua experiência como atores, mas teve uma segunda etapa, que como eles são atores e diretores dentro do filme, onde essa competência dos atores alimentou a maneira com que eles revisitaram esses papéis! Então um alimenta o outro e foi realmente super interessante de ver!

Amélie Magazine: Quais foram suas maiores inspirações em termos de direção para "Os Bastidores do Amor?"

Victor Rodebach: Recentemente essas comédias de recasamento me inspiraram muito! Para voltar mais no tempo, me inspirei bastante nas comédias românticas americanas dos anos 40 e 50 e depois, no Woody Allen também, por exemplo em "Annie Hall", que me inspirou bastante.

Amélie Magazine: Se você pudesse dirigir uma adaptação de uma de suas peças teatrais favoritas, qual seria?

Victor Rodebach: Talvez uma peça de Anton Tchékhov, como acontece no filme. Uma peça que fale sobre a vida!

SXSW2 2025 | Interview with Julie Wyman, director of the remarkable documentary The Tallest Dwarf

Por Victoria Hope

Julie Forrest Wyman's poignant documentary, "The Tallest Dwarf," offers a unique and deeply personal exploration of identity, acceptance, and the complexities of belonging. More than just an observer, Wyman invites viewers on her own journey of self-discovery as she navigates her place within the little people (LP) community – a community she intimately identifies with.

The film avoids the common pitfalls of outsider perspectives, instead providing an authentic and compelling firsthand account and paints a vibrant portrait of the LP community, moving beyond stereotypes and delving into the nuanced realities of their lives.

In "The Tallest Dwarf", Wyman doesn't shy away from the difficult questions. She explores the internal struggles that individuals face as they reconcile their personal identity with societal perceptions. The film delicately uncovers the adversity faced by the LP community, from everyday accessibility issues to the more profound emotional and psychological impacts of being different.

During SXSW, our team had the opportunity to talk to the director and explore themes such as self-acceptance, the search for belonging, and the challenges of navigating a world that often is designed for many communities.


Julie Forrest Wyman / Photo: SXSW

Amélie Magazine: 'The Tallest Dwarf' is a very personal journey for you, so how does it feel like to have this film premiering at SXSW? 

Julie Wyman: Yeah, it's sort of a very big place to bring such an intimate story and it's really so exciting to be included here and also to literally see the film projected on a giant screen, which is how I intented! It's really meant to be cinematic visually. It's exciting, a little nervewrecking too, but what's been really meaningful was hearing the audience members saying that the film spoke to them so much, whethter they know about little people and dwarfism or not, and most of them do not, so it was sort of relatable and there was a lot of connection and the sense of being in between ans belonging.

 And having some of the participants here with me and my team, and of course, a couple of the people in the film where able to come and sort of sit in the theater and for all of them to take in "this is the movie" and to go our in the world and share our culture and our history. 

As you know, some have seen little people on reality TV or in carnivals, but to kind of understand that we have a long history as our own culture in its complexity (was the intention). But also there are lots of threats on display that we have to navigate every day, so being with people with the same experience and for them ti see and take in the audience, that was really beautiful.

Amélie Magazine: We follow Dwarfism History on Tiktok and we thing Aubrey is an amazing creator about the subject. With that in mind, can you introduce us to more influencers who are part of the little people community for us to follow? 

Julie Wyman: Well of course, several people from the filme have a social media presence, such as Katrina Kemp, she speaks nearly the end of the film and she's a performer, ann then Matthew Jeffers, who's also a performer who writes the script for the photograph of the two people wearing monkey masks, and then we have. One of the people who've also been part of the team on the advisory board is Rance Nyx! He's an actor and also does short films! You might recognize him because he's been in plenty TV shows.

There are so many cool people I follow, there's also Caity B, who's a Fashion Designer and she's a little person who makes incredible pieces and amazing embroidery art, like drawings made out of embroidery for the clothes and a lot of it is scaled for little people. 

And still talking about fashion, there's one company called Chamaiah Dewey, she's average height designer, but she also created for the little people community, by also creating for the community, including what we call in the fashion world as social models in terms of disabilties, like "let's change the world' and she does that and it's so beautiful!


The Tallest Dwarfv / Photo: SXSW

Amélie Magazine: While filming this documentary, there were probably challenges either in terms of technical issues to emotional aspects, can you talk about that?

Julie Wyman: Sure, I think all documentaries have technical issues to manage, but for me, the emotional, the community part, the cultural aspect, that was the biggest area of challenges. I had a lot of discomfort and was unsure while filming in little people communities. I kind of knew on a gut level that it was loaded and there was an entrreprise even to ask to little people to film with me.

And as I got to know the community, it became more and more clear. Little People of America didn't want me to film in certain places and part of the conferences, so I didn't and I worked with what i was granted permission to do, but I think, as a person who needs to be there, I felt like I had to shift who my story was about to understand that this film would not be about exploiting people; they were going to tell the story with me and have the camera as a witness, so really I ahad to rethink what story I was telling and this is why the workshop I was working in was done with actors and performers who actually wanted to be on camera. It was like a world we made for ourselves.

At first I was thinking like other documentaries, like "I gotta get to that little corner, the hard little corners that no one has access to, but after a while, I started to realise that there was so much in the community and friendships that are forming to explore and unpack with the histories that tie together everyday, to tell what was happening in the rooms where the camera was invited.

Amélie Magazine: Do you have a funny story from the set while filming?

Julie Wyman: *laughter* See, this also related to something that we didn't include in the film, that was in the cutting room, so, my parents are, as you could see in the film, my mom doesn't totally understand why I care so much about this identity. Both of my parents didn't at the beginning, but they really wantd to participate, even if they didn't understand it, so once, I've asked my parents to reenact my birth *laughter*, in a park on a picnic bench.7

So my mom pretended to give birth to me, screaming and pret4nding to feel all of the labour pains, while my dad was holding her hand and from under the table I pop out, like, adult me, like a baby *laughter* I mean, it's totally absurd and I loved it the idea was like "what If I had my diagnosis before I was born, but it was so weird. I kinda want to put it in social media for people to see because it's hilarious! People from the team have seen in and they laughed but they also thought it didn't quite fit, so we took it out.

Amélie Magazine: Which lessons can the audience of SXSW take home from this film?

Julie Wyman: I hope the people who see the film experience a new form of beauty, take that in and hold it and believe in can be in the world. Bodies of different shapes, little people bodies, a sense of these varying proportions and different ways of moving, all very differnt from the standart, tall, thin, white, not white... So I want theem to hold that in and knwo that is is part of our world.

I'm hoping we can see disabilities as a difference that is important to our world and that we need in our world and that we value. It's kind of a big picture but I hope people get to see that. A lot of this film is about parents and children, you know? And a lot of kids are different from their parents,maybe they are neurodirvegent, people who are queer, trans, I hope that this film can show people how important the simple act of saying 'I understand you' or saying 'I hear you', ' I get that this is important', just that, is so beautiful and  does so much instead of the resistance or fear of that different;

Amélie Magazine: If you could time travel and see yourself as little Julie, talking to a mirror, what message would you like to tell her?

Julie Wyman: I love that question! You are gorgeous the way you are! There is no one exactly like you and that is something to hold, and you know bring yourself to the world, don't be scared, you'll find your place.

Amélie Magazine: One word to define The Tallest Dwarf?

Julie Wyman: That's a hard one! I wanna say belonging, but I'm not sure... Community. It's very much a mixture of things. Hopefully those are some words *laughter*

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'The Tallest Dwarf' cast and crew / Photo: SXSW 2025

To follow more stories and personalities from the little people community, make sure to follow:

Caity B

https://www.instagram.com/ca8ty?igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==

Thetallestdwarffilm

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Julie Wyman 

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Rance nix

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Chamaiah Dewey

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Matthew Jeffers

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Katrina kemp

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Mostra de SP 2024 | Entrevista com Kyle Stroud, produtor de O Brutalista, Harvest e Eephus

 

Por Victoria Hope

Kyle Stroud, fundador da Carte Blanche, produtora reconhecida por desenvolver roteiros e combiná-los a elencos e a criadores notáveis, esteve presente na Mostra Internacional de Cinema como parte do Júri, além de trazer três filmes para o festival, sendo eles O Brutalista, da A24, que recentemente foi Vencedor na categoria de Melhor Direção no Festival de Veneza, Harvest  e Eeephus!

O primeiro longa-metragem produzido por Stroud foi “Em Busca da Vitória” (2019), de Reza Ghassemi e Adam VillaSeñor e apesar de ter iniciado a carreira como produtor recentemente, já tem um portfólio repleto de produções de destaque, como “Roving Woman” (2022), dirigido por Michal Chmielewski e com produção executiva de Wim Wenders, “Knight of Fortune” e muitos outros

Durante a cobertura da 48ª edição da mostra, nossa equipe teve a chance de falar sobre cinema com o diretor e conhecer um pouco mais sobre os três projetos que ele trouxe neste ano em que visitou o Brasil pela primeira vez.

Amélie: Como é estar aqui no Brasil para sua primeira Mostra Internacional de Cinema em São Paulo?

Kyle: *Risos* Bem, sabe, eu acabei de chegar na cidade, ainda não tive muito tempo de explorar, então eu mal pousei e já vim diretamente para o Festival assistir aos filmes, principalmente porque esse ano faço parte do júri, então estou bem animado. Vou ficar no Brasil por mais de um mês, então estou curioso para conhecer mais coisas

Amélie: Falando em filmes, quais são três títulos que todos apaixonados por cinema precisam assistir pelo menos uma vez?

Kyle: Boa pergunta! Eu amo "Paris Texas" de Wim Wenders, é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e é de quebrar o coração. Eu também amo "Stalker" de Andrei Tarkovski, amo muito e talvez, "Werckmeister Harmonies" de Béla Tarr e Agnes Hranitzky.

Amélie: Você trouxe três filmes para a Mostra este ano, sendo eles, O Brutalista, Harvest e Eeephus. Com isso em mente, quais são seus elementos favoritos em cada um desses títulos tão diferentes?

Kyle: Eles são todos tão distintos e projetos de arte bem singulares. "O Brutalista", por exemplo, é um enorme épico, filmado em 70 mm, foi feito de forma independente, impresso em um filme de 70 mm mesmo e essa foi a versão exibida em Veneza e quando ele for lançado oficialmente, terá mais algumas cópias em 70mm, mas além dessa parte técnica, eu acho que é uma baita carta de amor ao cinema, dos tipos de filmes que não temos mais hoje em dia; 

Realmente traz a sensação de um épico, com uma intermissão, cartões de títulos, assim como os grandes clássicos, sabe? Agora, Harvest é um filme de Athina Rachel Tsangari e esse é o primeiro filme não-grego dela. Ele foi filmado na Escócia e tudo aquilo foi criado do zero, toda a vila e todos os cenários foram construídos exclusivamente para o longa e também temos Sean Price Williams como diretor de Fotografia, ele fez Good Time, da A24, o que também foi interessante.

Athina queria criar um personagem que parecesse ter saído diretamente dos anos clássicos e aqui ele foi interpretado pelo Caleb Landry Jones e o personagem dele aqui é meio 'odiável'., quase não tem qualidades que outros admiram. Ele é meio covarde e por incrível que pareça, eu me identifico com ele, não no sentido da covardia, mas esse personagem meio 'estranho', isso eu consigo relacionar *risos*

Mas falando sério, o personagem dele é fascinante e Caleb é um ator tão fantástico e dentre todos os personagens do filme, ele é justamente aquele que não tem características heróicas, assim como os outros, então você meio que acompanha ele e as outras pessoas como se fossem indivíduos em meio ao caos.

E por fim falamos de "Eephus". Esse filme é dirigido pelo Carson Lund e ele faz parte de um coletivo chamado Omnes Films, o que é bem interessante. O orçamento para os filmes é pequeno, mas agora eles estão procurando por novos títulos também para financiar através do coletivo. É algo muito legal, porque todos eles são diretores muito novos de New England, mas alguns também são de Los Angeles, enfim, eles são alguns dos maiores cinéfilos que você irá conhecer, são completamente apaixonados por filmes, ou seja, eles praticamente comem, dormem e respiram cinema *risos*

E com "Eephus", Carson queria criar algo diferente e pra mim me lembra algo bem reminiscente de Linklater, sabe? Da forma em que você não tem um protagonista central, então você meio que se sente como uma mosca na parede, observando tudo o que está acontecendo com esses personagens e mais uma vez, esse é o tipo de história que não vemos tanto mais hoje em dia, onde você não precisa ficar seguindo um único protagonista e sim onde observa o grupo inteiro de personagens muito interessantes, então nos identificamos com suas ansiedades e seus medos e tipo, eu não sou fã de esportes, mas mesmo assim achei muito com o que me identificar em relação a esses personagens e as realidades deles. Nesse filme, você vê muitas pessoas que com certeza já conheceu na vida real!


Harvest / Foto: Mostra de Cinema Internacional

Amélie: Digamos que você tem o poder de viajar no tempo. Se pudesse encontrar o pequeno Kyle, o que diria para ele. E outra coisa, ele acreditaria que você trabalha com filmes hoje?

Kyle: Definitivamente não acreditaria! *risos* Eu abandonei a faculdade de Cinema, duas semanas antes da minha formatura. Eu estava dirigindo meu primeiro curta da minha tese e eu estava já em produção, com elenco completo e já tinha filmado quase tudo. Eu tinha três dias restantes e um amigo meu havia sido financiado completamente, com um filme sobre boxe, então, eu tinha oportunidade de terminar meu filme, mas aí apareceu essa oportunidade incrível de produzir esse projeto  de longa metragem do meu amigo, o que pareceu uma oportunidade incrível.

Acreditei nele e acreditei nesse filme e na direção dele e a na codireção de outro amigo nosso e esse foi o meu salto e dali eu comecei a ser recomendado pra produzir outro filme e depois outro filme e por aí vai, gosto de dizer que fui como um Tarzan de galho em galho *risos* sendo os galhos, os projetos que foram aparecendo. então depois de dizer tudo isso, eu acho que diria para o meu eu mais novo: Não desiste, continue seguindo em frente. Faça as coisas que te dão medo, como por exemplo, uma vez conheci Brady Corbet na festa da A24 e eu fiz contato com ele por lá dizendo diretamente que eu queria trabalhar com ele e que eu queria trabalhar com "O Brutalista"e eu consegui essa oportunidade.

O mesmo aconteceu com "Harvest"; eu gosto de contatar as pessoas com as quais eu adoraria trabalhar nos projetos, esse contato cara a cara é muito importante, por isso é preciso não ter medo, então eu diria isso pra o pequeno eu. 

Amélie: Se pudesse dar um conselho para pessoas aspirantes que sonham em trabalhar na indústria cinematográfica, qual seria?

Kyle: Vou comentar o que disse durante um Festival de Los Angeles na semana passada, você precisa botar a cara no sol. Você precisa aparecer, é importante sim escrever seu roteiro e continuar criativo e botar a mão na massa, mas mais importante do que isso, é ser sociável, conhecer pessoas novas. Você precisa sim ter ambas habilidades, tanto a social quanto a criativa para se encontrar no local certo, na hora certa e colocar sua arte na frente das pessoas certas.

E o básico, é claro, assista filmes, estude cinema, não fique apenas no superficial. Continue trabalhando no seu projeto, mas também não seja muito precioso com seu trabalho. Eu sei que é difícil, mas deixe as pessoas experientes mexerem no seu trabalho, aceite conselhos e não acredite que sabe tudo. Seja humilde, mas também continue fiel a sua ideia, mas saiba dividir com as pessoas certas. 

Eu vou para o Festival de Cannes ou Sundance, por exemplo, mesmo quando não tenho nenhum filme para lançar, porque eu adoro conhecer pessoas novas, projetos novos e me conectar com novas pessoas que podem, mais pra frente render parcerias. Como produtor, isso é muito importante para mim, eu preciso estar onde as mentes criativas estão e preciso conhecê-los. 

Lá nos festivais você pode encontrar diretores para seus projetos, atores, roteiristas ou quem sabe, até mesmo financiadores. Mandar emails frios não leva a lugar algum, agora, criar conexões genuínas com outras pessoas nesse ambiente de festivais, é o que vai fazer seu projeto acontecer de fto.

Mostra de SP 2024 | Jeffrey St. Jules, diretor de O Planeta Silencioso, fala sobre choque geracional, perdão e sonhos

 

Por Victoria Hope

Ainda na nossa cobertura da 48º edição da Mostra de São Paulo, nossa equipe teve a oportunidade de entrevistas Jeffrey St. Jules, diretor de cinema e roteirista canadense, que ganhou o Prêmio Claude Jutra em 2015 por seu longa-metragem de estreia Bang Bang Baby e o filme também ganhou o prêmio de Melhor Primeiro Longa-Metragem Canadense no Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2014.

Foi o primeiro cineasta do Canadá selecionado para a residência artística do Festival de Cannes, onde desenvolveu seu longa-metragem de estreia, “Bang Bang Baby” (2014), que, posteriormente, venceu o também o prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto. Também dirigiu o longa “Cinema of Sleep”, em 2021.

Em seu novo drama sci-fi "O Planeta Silencioso", que fez parte da programação oficial da Mostra desse ano, o diretor explora temas como solidão, a importância do perdão a importância de não esquecer, mas sim ressignificar o passado para seguir em frente no presente.

Amélie: Durante o debate pós-estreia de "O Planeta Silencioso" na Mostra de SP, você falou que já se pegou imaginando como seria morar no espaço isolado. Essa foi sua principal inspiração para o filme?

Jeffrey: Realmente, não foi um sonho, mas foi mais como uma fantasia, sabe? Eu acredito que tem muito a ver com escape, sabe? Acredito que essa seja a principal fantasia, se isolar do mundo quando estiver irritado ou quando quiser paz. Sempre fantasiei com isso de viver sozinho em um outro planeta, parece ser algo muito interessante *risos* Mas é claro que na hora, eu não pensei o quão solitário e devastador isso seria e é exatamente por esse processo que o protagonista do filme está passando, a realização de que a solidão o assola.

Claro que todos nós vez ou outra queremos fugir de tudo e todos e nos isolarmos, então essa fascinação minha por esse tema, foi o que me levou a escrever "O Planeta Silencioso". Quando eu era pequeno, inventei esse planeta diferente e eu inventava histórias dizendo que eu era de lá, era hilário.

Amélie: E o pequeno Jeffrey, que sonhava em viajar para um planeta isolado, o que ele acharia de você hoje?

Jeffrey: *Risos* Minha nossa, eu não seis e o meu eu criança iria querer falar comigo. Mas isso é muito interessante, não é? O que eu gostaria que meu eu mais novo soubesse? Hmmm, acho que eu faria o mesmo que faço com meu filho! Sabe, quando converso com ele, eu sempre faço questão de reforçar para ele que existe um mundo para muito além do que ele imagina; a vida é mais do que escola e lições, então eu costumo dizer pra ele não levar tudo muito a sério, essa era um conselho que eu adoraria ter tido quando mais novo.

E é claro, o meu eu pequenino não acreditaria que eu sou um diretor hoje *risos*. Eu sempre quis trabalhar com filmes, mas isso era algo muito distante, já que eu não cresci com muitas influências assim na vida, então acho que parte de mim até acreditaria um pouquinho, mas para a outra parte, isso seria inimaginável.

Amélie: Quais são os três diretores que o inspiram até hoje?

Jeffrey: Começando desde o meu primeiro filme, minha maior inspiração era o David Lynch, porque foi a primeira vez que notei que não precisava seguir todas as regras para explorar histórias diferentes. eu também sempre gostei  do filme "Os Guarda-Chuvas do Amor", porque toda a emoção que ressoa nele é inspiradora. Jacques Demy trouxe esse musical para a 'vida real' nessa história e isso me tocou porque era uma fábula sobre a vida e enfim, eu tenho muitos diretores que me inspiram e recentemente eu assisti aquele filme fantástico chamado "I Saw the TV Glow" de Jane Schoenbrun e esse filme me encantou muito.

Amélie: Falando em inspiração, em O Planeta Silencioso, vimos dois personagens extremante diferentes tendo que conviver. Essa foi sua ideia inicial?

Jeffrey: Exato, eu queria que eles fossem duas pessoas de ambientes completamente diferentes, pessoas que no mundo real jamais se conectariam porque não tem absolutamente nada em comum, sabe? Eu queria que fosse mesmo mais difícil para eles se conectarem, o choque geracional era necessário.

Amélie: E a personagem Niyya quer a todo custo se distanciar ainda mais de Theodore e isso vai além da diferença de idades, certo?

Jeffrey: Isso! Niyaa foi criada por alienígenas, então ela tem essa espécie de auto ódio da própria raça dela, que é humana, porque por mais que ela tenha sido criada por aliens, ela é essencialmente humana, assim como Theodore. Ela odeia os humanos pelo que eles fizeram com a família dela, mas ela não pode s esquecer que ela também é igualzinha aos humanos que ela tanto despreza, então ela tem essa dificuldade em aceitar a própria humanidade dela, mas aos poucos, bem aos poucos, ela vai aceitando essa parte de si mesma.

Amélie: Qual foi o maior desafio durante as filmagens?

Jeffrey: Tudo o que acontece dentro da mina, porque de última hora, tivemos que mudar o planejamento do que fizemos no primeiro dia e nós tínhamos que filmar muitas coisas ainda, mas não estávamos mais juntos, então essa não foi a melhor forma de começar tudo, mas aí quando fomos para o estúdio gravar o interior, aí foi muito legal, mas o início foi realmente desafiador. 


O Planeta Silencioso / Foto: Mostra Internacional de Cinema

Amélie: Se você pudesse dirigir uma nova história, um projeto com temática que você ainda não explorou, qual seria?

Jeffrey: Em termos do que vou fazer agora, após esse projeto, eu sempre dirijo projetos que vão para o lado da fantasia e que são desconectados da vida real, mas é claro que sempre existe uma conexão emocional ali, assim como na vida real, para mim pessoalmente, porém, o mundo precisa ser algo totalmente descolado da realidade.

Então estou desenvolvendo esse outro projeto agora, baseado no folclore local passado pela minha família e inspirado por histórias que crescemos ouvindo na minha família, que é um povo de cidade pequena lá no Canadá e vai ser um filme de época, mas ainda estou trabalhando nele, então ainda não tenho nada muito concreto ainda, mas sei que quero algo bem voltado ao surrealismo e que explore minhas raízes e origem.

Amélie: Você se identificou com algum dos personagens de O Planeta Silencioso? É mais Theodore ou Niyaa?

Jeffrey: *Risos* Eu sinto que na verdade me identifico com os dois e me vejo em ambos de formas bem distintas. A forma determinada que Niyaa começa sua missão, me lembra muito das atitudes que eu teria se estivesse no lugar dela e ela é meio dura com ela mesma, assim como eu sou e eu me identifico com o Theodore porque as vezes eu gosto de escapar para o mundo da fantasia da minha cabeça e me isolar, então eu me conecto com os dois.  Sou uma amalgama de Theodore e Niyaa!

Amélie: Três palavras definem "O Planeta Silencioso"?

Jeffrey: Eu gosto muito da palavra comunidade, é sobre ter uma conexão e se conectar com o outro. A segunda seria autoaceitação. Se encarar e se aceitar, é importante e não acreditar nas coisa horríveis que sua mente diz sobre você mesmo, é o primeiro passo e talvez Perdão? Se perdoar, mas o perdão não é algo individual, pois a pessoa, para se perdoar, muitas vezes conta com a validação de outra, como no caso de Theodore, porque é assim que nós somos como humanos. Nós buscamos validação do outro o tempo inteiro, então acho que essas são as palavras que definem bem o filme. 

SXSW 2024 | Entrevista com Michael Felker, Adam David Thompson e Riley Dandy de Things Will be Different

 

Por Victoria Hope

No surpreendente sci-fi de viagem no tempo 'Things Will be Different', quando irmãos distantes, Joseph e Sidney, se encontram em um restaurante local após um assalto, eles fogem para uma casa de fazenda abandonada que os transporta para uma época diferente, a fim de escapar da polícia local. 

Mas quando eles tentam retornar ao seu presente depois que a costa está limpa, uma força metafísica desconhecida os isola e os abandona na terra, a menos que façam exatamente o que lhes é ordenado. O que resulta disso não apenas distorce as forças do espaço-tempo, mas também distorce os laços familiares de Joe e Sid além do ponto de confiança e perdão.

O emocionante título estreia de Michael Felker na direção de longas-metragens é estrelado por Adam David Thompson e Riley Dandy, além de Chloe Skoczen (Graduação), Justin Benson (Something in the Dirt) e Sarah Bolger (Era uma vez, Emelie), que completam o elenco. O filme teve sua estreia no SXSW desse ano e nossa equipe teve a oportunidade de bater um papo sobre cinema, viagem no tempo e inspirações com o diretor Michael Felker ao lado das duas estrelas do filme Adam David Thompson e Riley Dandy



Amélie Magazine: Como foi a experiência no set de filmagens de 'Things Will Be Different?'

Michael: Nossa, foi uma montanha russa, não sei se descreveria muito bem, mas quando estamos numa produção, temos altos e baixos, coisas fora do seu controle. Mas quando você tem pessoas como Adam e Riley sentados ao seu lado nessa montanha russa, tudo se torna mais divertido e eu tive uma experiência fantástica dirigindo esse filme. 

Adam:  Nós certamente tivemos nossos desafios no set, incluindo aqueles que estavam fora de nossa alçada, como por exemplo, desastres naturais, Covid, coisas assim, mas eu preciso dizer que trabalhar nesse filme, em termos do processo de filmagens, foi uma se não , a melhor das experiências que eu já tive.

Ensaiar e poder trabalhar com Riley foi incrível ter essa possibilidade e assim que entramos no set, já começamos a nos sentir como uma verdadeira família, mesmo com tantas coisas, como as que pontuei, acontecendo ao mesmo tempo. Nós descobrimos diversas coisas e nos divertimos muito.

Riley: É claro que essa história é muito importante para Michael, porque ele escreveu essa história, mas foi como se todos nós estivéssemos na mesma página, em igualdade. Todos nós somos apaixonados por essa história, então isso fez toda a diferença no set.

Quando foi hora de nos despedirmos do set, eu confesso que fiquei depressiva por algumas semanas, porque eu sentia falta dessa família que construímos e dessa história. Foi algo muito especial de presenciar.

Amélie Magazine: Qual foi o momento mais emocionante do filme para cada um de vocês?

Adam: Bom, eu vou responder essa porque não cai no território de spoilers, mas tem um momento no filme em que os irmãos tem tatuagens que combinam uma com a outra, e a última cena que filmamos no set, tivemos um flashback de quando eles fizeram as tattoos juntos.

Nós estávamos sentados na varanda, era crepúsculo e toda a equipe estava unida ali perto naquela cena, e ter aquele momento realmente fez com que eu sentisse como se Riley fosse minha irmã, e ter aquele momento silencioso, comigo e com Riley, aquilo para mim foi o momento mais impactante, porque é uma almogamação de coisas que passamos, tanto como personagens quanto atores.

E ter aquele momento silencioso, é quase como se todos nós sabíamos que aquele seria o último momento que teríamos para trabalhar juntos e foi emocionante para todos nós e para a equipe. Eu nem sabia para onde ir depois daquela cena. Tipo,, 'será que vou pro carro? Será que eu troco de roupa'? E por algum momento isso me atingiu e me tocou e ainda toca toda vez que vejo a cena. 


Things Will be Different / Foto: Divulgação

Riley: Exatamente e não sei se muitas pessoas perceberam, mas metade do filme foi feito durante o inverno, então nós fomos para casa após as filmagens e fazer esse processo de novo foi quase como se estivéssemos voltando para o acampamento de verão, sabe?

Então quando terminamos as filmagens naquela noite de verão, a realização de que não nos veríamos mais e que aquela seria a última vez, me pegou demais. Essa realmente foi uma excelente cena de pontuar, Adam.

Michael: Eu acho que tem duas cenas, uma delas que acontece bem no arco do meio da história, sem colocar spoilers, que é um momento onde os protagonistas finalmente entendem o que está acontecendo e essa foi a cena que mais me estressou, porque nós não tínhamos muito tempo e nós ficamos sem luz, a equipe inteira estava morrendo de frio.

Mas depois de filmar as primeiras cenas, eu finalmente respirei de pensei 'o filme está pronto, é isso! Eu comecei a me animar, balancei os punhos no ar dizendo 'Isso! Vocês conseguiram! Vocês conseguiram! Eu estava muito animado!

Adam: Eu preciso dizer, Michael estava muito animado! Ele é animação pura! Tem muitos diretores que fazem o trabalho e dizem 'É isso, por hoje é só', mas não ele! 

Riley: Exato e isso  sobre diretores não tão animados as vezes nos deixa receosos, a gente sempre pensa 'nossa, será que eu fiz um trabalho ruim?'

Michael: Justamente, nós como diretores temos que ser uma torcida, afinal, somos as primeiras pessoas a assistir o filme, então eu tava muito animado de verdade. Aquilo para mim foi um momento muito incrível, mas o segundo foi durante os ensaios, onde a Riley tem uma cena que ela pode falar, mas foi um momento onde eles transacionam de uma cena engraçada para emocionante. Foi um momento doce e a melhor parte é que esse momento partiu de vocês, esses momentos orgânicos são importantes.

Riley: Basicamente você pode falar que dei uma incrível contribuição (risos). Brincadeiras à parte, eu trabalhei em uma cena onde eu e Adam estávamos numa banheira e nossas pernas se entrelaçaram eu fiquei muito feliz quando vi que essa cena foi incluída no filme. Foi especial. 


Things Will Be Different / Foto: Divulgação

Amélie Magazine: Agora vamos todos fingir que somos viajantes do tempo. Se vocês, Riley,  Michael e Adam, pudessem voltar no tempo e deixar uma mensagem para as crianças que um dia vocês já foram, qual seria essa mensagem?

Adam: Sabe, eu acabei de ter uma sessão de terapia antes de entrarmos aqui na entrevista, então eu sinto que estou em um lugar onde eu posso falar para o pequeno Adam que tudo vai funcionar, tudo vai ficar bem. Não importa o quão reativas e pessoais as coisas possam parecer no momento, a grande verdade é que sua vida é perfeita em cada porção e é assim que deveria ser. Se liberte e aproveite a vida.

Riley: Sabe, eu ia dizer a mesma coisa, eu acho que as vezes me perco sempre pensando em quais serão os próximos passos. Eu penso 'bom, eu tenho que fazer isso e depois mais aquilo e aquilo de novo e eu acho que se pusesse falar com a minha pequena eu, diria para ela 'ei, dê uma olhada à sua volta', porque eu queria tanto sair da minha cidade natal na época, sabe? 

E eu sentia que as pessoas não me entendiam e acho que se eu pudesse falar com ela, diria para ela respirar fundo e aproveitar esses pequenos momentos mundanos, porque são esses momentos que fazem a beleza da vida. Não são os grandes momentos que fazem toda sua vida. É claro que eles são importantes, mas a vida não é só isso, ela é feita de grandes e pequenos momentos. Coisas pequenas como fazer compras, andar de carro com a sua mãe, esses são os momentos que vão estar para sempre com você, então os aproveite.

Adam: Essa foi a pergunta mais legal que eu ouvi! Eu vou dizer, sou um preocupado perpétuo, mesmo que não pareça. estou sempre pensando e me preocupando com o que vai acontecer a seguir, então a minha questão é mais ou menos como uma almogamação do que o Adam e a Riley descreveram.

Eu sempre faço resoluções todo ano e eu sempre me preparo para o futuro e fazer esse filme foi a primeira vez que eu não tinha uma agenda, não tinha uma preocupação de que precisava disso ou aquilo. E eu queria muito ter aprendido isso há muito tempo atrás. 

Desde criança eu sempre fui muito preocupado com tudo 'será que eu faço faculdade de cinema?' 'Preciso fazer amigos!', 'Preciso encontrar emprego e ter dinheiro' e sabe, você se preocupa com essas coisas porque obviamente você quer tudo isso, mas se eu pudesse voltar atrás, eu diria 'Pare. Aproveite o que você tem agora, respire, porque se você passar o tempo todo se preocupando, você não vai se lembrar de nada depois, tudo vai desaparecer. Celebre o tempo e os momentos que você tem, se 


Things Will Be Different / Foto: Divulgação

Amélie Magazine: Um filme que transformou suas vidas

Michael: Tem um grande filme que mudou minha vida e esse filme foi Matrix. Eu o assisti quando era uma criança ainda e aquilo me fez pensar no que um filme poderia ser. Não apenas em termos de história, sabe? Aquilo destruiu meu cérebro de criança de 11 anos (risos). 

Aquilo mudou tudo, me mostrou como filmes poderiam ser e o que eles poderiam fazer e aquilo mexeu comigo e até hoje eu ainda tento alcançar aquele nível de êxtase que eu senti assistindo essa história. Mudou totalmente a forma como eu vejo não apenas filmes, mas como também vejo tudo ao meu redor, porque foi algo que eu nunca tinha visto antes. 

Riley: Eu acho que eu tenho dois por dois motivos distintos. Quando eu era criança, E.T foi incrível para mim porque eu me lembro nitidamente de ver a Drew Barrymore no filme e ela era mais nova do que eu e ela estava atuando, então eu pensei 'Espere aí! Eu sou mais velha que ela, eu poderia estar fazendo isso também! E foi assim que eu quis me tornar atriz. 

O segundo filme foi na minha adolescência, que me marcou demais e que eu assisti mais de cinco vezes, foi 'Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças'. Esse filme mexeu demais comigo e mudou minha vida. 

Adam: Na verdade eu não tenho uma resposta para isso, com meu cérebro de TDAH, todo filme que eu assisti, mudou algo completamente para mim. Sabe, ver até onde a imaginação das pessoas vai, sabendo todo o trabalho duro que se leva para fazer um filme, isso me faz amar cada vez mais. Eu amo assistir filmes, eu amo teatro e mesmo que você não goste dessas coisas, sempre tem algo especial que você pode aprender com essas experiências.

Eu sou um grande consumidor de documentários, eu nunca me canso, sempre assisto tudo relacionado à documentários. Eu gosto de poder ver um vislumbre sobre a vida real dos outros e problemas que eles tem e como os resolvem e lidam com isso em pequena escala e para ser honesto, quando falamos de atuação, eu carrego bem mais o que vejo em documentários do que vejo em filmes e narrativas, porque tem algo 'nu' e vulnerável com essas pessoas da vida real, principalmente em documentários muito bons, quando o diretor consegue possibilitar que essas pessoas se abram e sejam sinceras sobre suas realidades.

Amélie Magazine: Se vocês pudessem definir Things Will be Different em três palavras, ou seja, uma palavra para cada um, quais seriam?

Adam: Se eu pudesse dizer uma palavra, eu diria família 

Riley: A minha seria, fé, alo do tipo 'será que você poderia mudar sua trajetória?' 'Você poderia mudar seu destino'.

Adam: Fé é uma boa palavra, mas algo que nós três pensamos e falamos sempre é sobre esperança. Ou você tem ou você não tem, mas sem spoilers, ela diz muito sobre esses personagens e sobre essa história.