Por Victoria Hope
Um dos filmes mais aguardados pelo público da Mostra de Cinema de SP desse ano é sem dúvida o emocionante "A Sombra do Meu Pai" do diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr, que apresenta um ode à infância perdida de uma forma visceral e explora a relação entre pais e filhos, quando um patriarca que não necessariamente estava ali o tempo todo e como esse ato causa um impacto na vida dessas crianças.
Há alguns anos, Akinola recebeu um conto escrito por seu irmão Wale, que na época vivia na Nigéria e trabalhava como roteirista de TV. Fruto de um exercício de escrita, o conto de Wale Davies se tornou esse longa dilascerante que pode ser considerada uma história inspirada na vida dos dois criativos.
Com uma atuação brilhante do elenco, incluindo o premiado Sope Dirisu (His House) e os estreantes mirins e irmãos na vida real, Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo, o filme, que ainda terá sua estreia oficial durante essa semana na Mostra, vai marcar muitas gerações principalmente em tempos de discussões políticas calorosas, onde a vivência das crianças, infelizmente, nunca é refletida de forma tão profunda, mas que no filme, é abordada com uma sensibilidade e sensatez que emocionam.
Nossa equipe teve a chance de entrevistar o brilhante diretor Akinola e refletir sobre diversas das temáticas abordadas no filme e você confere como foi essa conversa abaixo:
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| A Sombra do Meu Pai / Foto: Mostra de Cinema de SP 2026 |
Amélie: Como você se sente em ser o diretor do primeiro filme nigeriano na história a competir em Cannes e também o primeiro filme nigeriano a ser exibido na Mostra de Cinema de SP?
Akinola: É uma verdadeira honra ser o embaixador responsável por representar o cinema nigeriano. É algo incrível. Esse filme é repleto de texturas e talentos maravilhosos, uma linda história e uma bela equipe por trás, então o fato do meu filme estar na seleção oficial de Cannes e trazer esse destaque à Nigéria, me deixa extremamente orgulhoso.
As pessoas que vieram antes de mim e também fizeram filmes realmente pavimentaram o caminho e me influenciaram, me encorajando a sonhar em me tornar um diretor e eu me sinto apenas muito grato toda vez que vejo uma notícia sobre o filme por aí. As pessoas da Nigéria sentem como se essa também fizessem parte disso e isso me deixa muito feliz.
Amélie: Como foi trabalhar com Sope Dirisu e os irmãos Igbo nesse projeto?
Akinola: Wow, nossa, foi incrível! Digo, Sope é um sonho! Às vezes você vê alguém na TV e essa pessoa é um excelente ator e aí você pensa que se um dia encontrá-lo, essa pessoa não vai ter tempo ou que essa pessoa não é exatamente como você imaginava, mas Sope é exatamente tudo isso e muito mais! Ele é incrível, empático, bondoso, paciente e essas características são muito importantes, principalmente por ele atuar com dois atores mirins que estão só começando, assim como eu, pois esse é meu primeiro filme e também o primeiro projeto do Diretor de Fotografia.
Para muitos de nós, essa é a primeira vez, mas é claro que Sope tem muita experiência e eu acredito que mesmo antes de perceber, ele realmente estava ajudando muitos de nós no set. A química também entre ele e os garotos funcionou tão bem! Para mim, enquanto diretor, isso é um instrumento tão poderoso ter um ator tão excelente, porque isso torna meu trabalho ainda mais fácil.
E sabe, ele realmente se dedicou à esse projeto e ele também se tornou mais um irmão para mim, agora, sobre os garotos, eles são maravilhosos! Acredito que trabalhar com crianças é muito interessante porque eles são muito entusiasmados e possuem uma honestidade que vem de sua juventude, então ter aquela energia no set realmente nos ajudou. Quando você me conhece, sabe que eu sou uma pessoa bem boba (risos), então eu queria que as crianças brincassem e se divertissem, claro que sendo profissionais e focados, mas ao mesmo tempo, se divertindo nesse processo.
Amélie: Você diria que o seu filme possui uma camada de realismo mágico?
Akinola: Isso é engraçado, porque Mati Diop teve uma resposta muito interessan te sobre realismo mágico. Eu diria que meu filme tem sim realismo mágico, mas parafraseando Diop, meu filme é mais um drama sobrenatural, porque eu acredito que isso depende muito de quem está perguntando. Eu acredito que se o termo vem de uma pessoa negra, assim como você, que é uma jornalista negra, que faz partre da minha comunidade, então sim, eu abraço o termo, mas se o termo vier de alguém que não faz parte da minha comunidade, então eu prefiro drama sobrenatural, pois as conotações do termo mágico vindo de lábios que não são nossos, não tem o mesmo significado quando dito por pessoas de fora da nossa comunidade.
Amélie: Perfeito! E qual foi sua cena favorita durante as filmagens?
Akinola: Nossa, essa é bem difícil! Eu vou dizer que a cena do funeral talvez. É uma cena bem complexa falando pelo lado mais técnico, mas também muito emocional para mim. Eu tinha apenas alguns meses quando meu pai faleceu, então eu não me lembro de ter enterrado meu pai, mas aqui estou eu, trinta anos depois, fazendo um filme para honrar meu pai, o enterrando de novo.
Nem todo mundo consegue ter essa oportunidade, então para mim, mesmo essa sendo uma cena muito emocionante, eu sinto que também é minha favorita, pois eu tive a oportunidade de deixar algo para trás e eu fiz isso em um lugar muito sagrado, rodeado de pessoas que amo.
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| Akinola Davies Jr e Victoria Hope no Espaço Itaú / Foto: Mariane Morisawa |
Amélie: Quais são os três diretores que mais te inspiram?
Akinola: Nossa, em primeiro lugar, Ousmane Sembène, um diretor senegalês que é pai do cinema africano. Acredito que politicamente, artísticamente e socialmente, ele foi o meu norte nesse filme. Alguém que eu realmente venero, alguém que me inspira sempre a me manter firme quanto as minhas ideias, principalmente em filmes relacionados à cultura africana.
O segundo seria Hirokazu Koreeda, do Japão. Eu amo o Koreeda porque os filmes dele são simples, intrinsicamente japoneses sem medo de ser e sobre as complexidades de fazer parte de uma família. Eu amo isso! Amo quando a carreira de alguém é baseada na temática familiar e nas dinâmicas familiares de cada país.
E o terceiro é bem difícil mesmo, mas eu poderia dizer que por diferentes motivos, Ava Duvernay, porque eu comecei minha carreira faz pouco tempo e me lembro dela sendo uma figura tão positiva quando ela também começou sua carreira. Ela está um pouco mais à frente de mim, mas ambos começamos com a mesma idade e ela sempre falou sobre isso.
A forma que ela fala sobre isso toca no lado da experiência que vem com a idade e com sua vida antes de começar a fazer filmes e que isso realmente a ajudou. Quando eu comecei, foi exatamente isso que me motivou a não me sentir mal por não ter começado mais cedo e isso também me ensinou a sser mais intencional com o meu tempo. E no topo disso, eu acredito que ela é um bastião do cinema negro pelo que ela faz pela indústria, principalmente com a produtora dela.
É uma diretora fantástica que sempre destaca talentos negros, outra coisa que eu também quero fazer e ela sempre contribui de forma positiva para a indústria do cinema, seja criando festivais, incentivando novos diretores. No futuro, eu realmente quero fazer uma constribuição para que as pessoas venham para a Nigéria e se encantem com a comunidade cinematográfica daqui.
Amélie: Você comentou que esse filme é muito pessoal para você. Então o que acha de viajarmos no tempo para conversar com o pequeno Akinola. Se você pudesse deixar um recado para ele, qual seria?
Akinola: Wow, eu realmente penso sobre isso o tempo todo e agora que você me perguntou,eu acho que preciso pensar um pouco mais. (risos) Eu acho que eu diria para o pequeno Akinola ser mais bondoso com ele mesmo, porque eu acho que, como cresci sem meu pai, eu tinha tantas questões e ra tão duro comigo mesmo; eu internalizei muitas coisas e cresci no mundo dos sonhos, apaixonada por tv, por cinema e isso me motivou também a ter um pouco mais de compaixão por mim. Eu diria para o pequeno Akinola amar ser quem ele é!
Amélie: Poderia nos dizer 3 palavras que definem "A Sombra do Meu Pai?"
Akinola: Eu diria Família! Por causa da natureza da história, Dever, já que isso funciona para os dois lados, tanto o dever para com os filhos quanto o dever ao próprio país, e a última, a mais difícil, seria Memória. Acredito que grande parte do filme seja sobre memória e como hora ela pode ser confiável, hora não pode ser confiada e como ao mesmo tempo ela pode ser linear e não-linear.
Amélie: E qual seria a principal mensagem do filme que você gostaria que o público da Mostra levasse para sempre com o filme?
Akinola: Essa é uma excelente pergunta e eu tenho uma ótima resposta para isso! Eu quero que o público projete suas vidas nesse filme. Eu não tenho uma mensagem final, porque se eu dizer, isso vai ser um ciclo fechado, que fecha as portas para o diálogo e eu quero tere esse diálogo com o público, então eu quero que o filme tenha sua própria jornada emocional e sua própria mitologia para cada pessoa que estiver assistindo
Quero que as pessoas se divirtam e se vejam refletidas nessa história e que deixem todos os sentimentos fluírem enquanto assistem ao filme.


