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SXSW | Make me a Pizza (Short)

Por Victoria Hope

No curta 'Make me a Pizza', uma mulher com muita fome diz a um entregador de pizza que não pode pagar pela pizza que pediu. Mas será que o sexo que ela oferece em vez de dinheiro pode ser equivalente ao verdadeiro valor de uma pizza? 

Existe algo que possa valer uma pizza, além do que o mercado decidiu? Juntos, os dois decidem que sua única opção é se tornarem eles próprios o objeto da pizza, transformarem um ao outro em pizza, para se tornarem livres.

O curta já começa com a estética que é puro anos oitenta, com um estilo de filmagem que parece ter saído literalmente daquela década. A música sensual de filme erótico toca ao fundo, fazendo com que o filme pareça ser algo que não é, ideia completamente genial.

Um dos trunfos do curta é a atenção aos detalhes e a caracterização, desde o figurino à maquiagem, que são cruciais para passar ainda mais aquela vibe oitentista que a história quer passar. Tudo parece estar de acordo com o plano nessa história, até que de repente, as coisas fazem um 360º que muda completamente o rumo da trama, indo da comédia ao terror em questão de segundos.

O elenco é hilário e a conversa back and forth entre eles realmente acerta o tom e aos poucos, é possível entender a mensagem anticapitalista e social por trás da construção de uma simples pizza. A simbologia não é nada sutil, mas muito engraçada e bem vinda, mas a virada surrealista é a cereja do bolo, ou melhor, o tomate da pizza e me faz lembrar de cenas icônicas como a cena da dança em cima dos feijões em 'Tommy' do The Who. 

NOTA: 8.5/10 

SXSW 2023 | Short Film | Fuck me, Richard

Por Victoria Hope

No curta 'Fuck Me Richard', recuperando-se de uma perna quebrada, Sally começa um relacionamento por telefone com Richard - um impulso de intimidade muito necessário em sua névoa sombria de solidão esmagadora e analgésicos. Eles falam sem parar e se apaixonam. As coisas ficam meio incompletas quando Richard começa a pedir dinheiro para pagar as "contas médicas" de sua mãe. Mas Sally tem seus próprios segredos, e nada é o que parece neste psicodrama movido a sexo por telefone sobre a emoção doentia de um bom e velho golpe.

Conhecemos Sally, a protagonista de, em seu estado mais vulnerável. Para usar a linguagem moderna, ela está com fogo no r***" desmaiada no sofá com uma perna engessada, cercada por embalagens de comida para viagem e frascos de remédios prescritos, chorando enquanto Trevor Howard confessa seu amor por Celia Johnson no antigo filme de Hollywood, Brief Encounter. 

Sally está em apuros quando passa por "Richard, 33", o parceiro aparentemente perfeito, bonito e de cabelos desgrenhados para realizar todas as suas fantasias de um cavaleiro de armadura brilhante.

Por um tempo, Richard parece feliz em desempenhar esse papel. Sua voz desencarnada ouve as confissões de Sally, ri e faz barulhos suaves nas horas certas, e quebra seus dias monótonos com sexo quente por telefone. Toda serelepe, Sally anda por seu apartamento em um vestido de lantejoulas e penas, mentindo para Richard sobre todos os amigos olhando para ela enquanto abrem a porta para outra entrega do Uber Eats

Mas logo as coisas começam a piorar quando Richard para em uma reunião pessoal e começa a falar sobre sua mãe doente e suas enormes contas de hospital. Uma vez que começamos a descartar Sally como uma mulher trágica e solitária, muito disposta a ser enganada, fica claro que ela pode ser a única jogando xadrez, não damas.

É impossível não sentir raiva de Richard que a partir do momento em que Sally para de servi-lo, imediatamente se torna o ser misógino horroroso que é, revelando sua verdadeira face. O final é aberto e mostra que não sabemos se Sally fez isso de propósito só pra pegar um misógino de jeito ou se ela foi mais uma vítima.

Nota: 8.5/10

SXSW 2023 | It Turns Blue

 


Por Victoria Hope

Morteza espanca a filha de 3 anos em uma de suas visitas semanais. Mais tarde, ele pede à irmã mais velha, Pari, que o ajude a acalmar a filha e a lidar com a situação. Pari cuida das feridas da criança e então para evitar que ela conte a verdade para a mãe, Pari inicia uma brincadeira e através dessa brincadeira tenta manipular a mente da criança para que ela se lembre de todo o ocorrido como uma simples brincadeira com o pai. Pari parece ter sucesso em cumprir seu plano, mas na cena final fica claro que a verdade não será escondida para sempre

Vencedor da categoria de Curtas do festival, esse filme iraniano conta a história de um pai que bate em sua filha e num dia, chama sua irmã para cuidar dela. A mulher percebe que tem algo errado com a menina, ela quer saber de onde aquelas marcas roxas e ferimentos surgiram e a partir daí, ela usa tinta de forma lúdica para que a criança conte, mesmo que da forma dela, o que foi que aconteceu.

Esse curta metragem merecia muito ser um longa metragem e a historia é emocionante e é quase impossível que o público não seja tomado por raiva das atitudes coniventes da irmã que dá a entender que encobre a violência do irmão para com sua sobrinha por anos, mas é nos minutos finais que o público passa a notar que o irmão já fez pior com ela e que ela fica imóvel diante da crueldade dele. 

NOTA: 9/10

SXSW | Texas Short | Eyestring

 

Por Victoria Hope

No curta de terror texano 'Eyestring', Veronica tem um fio misterioso crescendo em seu olho e uma mensagem enigmática de um serviço de linha direta. À medida que a linha cresce, sinais estranhos relacionados à mensagem da linha direta aparecem em todos os lugares. Cada pista que ela encontra apenas complica ainda mais a questão. Ela deve encontrar uma maneira de se libertar.

Eyestring é completamente intrigante e cativante. É impossível não querer saber o que está acontecendo com a protagonista e o que tudo aquilo significa. Seria a linha, uma metáfora para traumas passados que Veronica sofreu ou será que são segredos que ela guardou e escondeu por muito tempo?

Alena Chinault, que interpreta Veronica é uma força da natureza em tela e co-escreveu Eyestring com Javier Devitt, diretor do curta. Logo no início percebemos que a protagonista está enfrentando dificuldades de saúde mental e que o seu emprego, está apenas contribuindo para que seu TOC se torne cada vez mais difícil de lidar enquanto ela não consegue ajuda adequada.

Esse título daria um ótimo longa metragem de horror, principalmente após o final assustador onde o público passa a entender que a corda na verdade era uma criatura que estava escondida dentro da mulher o tempo todo. Seguindo o tradição de monstros que representam problemas de saúde mental, o filme é uma grande metáfora para o TOC, como ele pode crescer e tomar conta, além de afetar a vida da pessoa não tratada.

NOTA: 9/10

SXSW | Short Film | Closing Dinasty

 

Por Victoria Hope

Closing Dinasty é um emocionante e delicado curta que teve sua estreia no SXSW desse ano. Na trama, Queenie, uma menina precoce de 7 anos, transborda confiança e arrogância. Ela vasculha sem medo os metrôs e as ruas da cidade de Nova York em busca de maneiras de ganhar um dólar. 

De esquemas de caridade de basquete a venda de rosas, Queenie é implacável e imparável. À medida que acompanhamos um dia em sua vida, nos perguntamos quais são as verdadeiras intenções de Queenie e por que essa garotinha está trabalhando tanto em um dia de escola.

Este curta de Lloyd Lee Choi merece muito ganhar um longa metragem apesar do ritmo ser um pouco lento, pois o público vai ficar curioso para saber até onde as atitudes da menina podem ou não salvar a pele de seu pai, que aparentemente está devendo dinheiro para agiotas.

Closing Dinasty é uma carta de amor à comunidade imigrante asiática americana que mora em Chinatown e regiões próximas, onde os donos de negócios precisam fazer o impossível para manter suas lojas funcionando e para realizar o 'sonho americano'.

A atriz principal mirim Milinka Winata simplesmente dá um show de atuação nessa trama, mostrando o potencial de ser um dos nomes de revelação nos próximos anos, tomara que ela siga atuando. Toda a força do filme que ela carrega é o que torna esse projeto tão especial, pois ela consegue trazer a comédia e ao mesmo tempo drama em todas as cenas em que está presente.

NOTA: 9/10

SXSW 2023 | Midnight Short | We Forgot About the Zombies

 

Por Victoria Hope

No curta de terror 'We Forgot About The Zombies', dois caras acreditam que encontraram a cura para mordidas zumbis, mas será que encontraram mesmo? Nessa história hilária, os dois amigos encontram uma série de agulhas com supostos antídotos em uma casa abandonada e a partir daí começam a testar todos a fim de descobrir a cura.

É a típica comédia absurdista com toques de 'Cara Cadê o meu carro' e um pouco de Zombieland, mas definitivamente dá a sensação de que funcionaria muito bem em formato de longa metragem onde a história pudesse se expandir mais e mostrar as (des) aventuras desses dois atrapalhados na busca pela cura do vírus zumbi.

Curtíssimo, We Forgot About Zombies tem o formato e até o ritmo de um skit de comédia, filmado e atuado como um também, mas engraçado o suficiente para manter o público engajado com a piada. A direção poderia ter ido mais além ainda mesmo no espaço de 3 minutos, mas vale a ideia de uma expansão da história para o público poder se conectar mais com os personagens.

NOTA: 7.5/10

SXSW 2023 | Midnight Short | Pennies from Heaven

 

Por Victoria Hope

"Pennies from Heaven" é uma comédia curta sobre duas irmãs gêmeas excêntricas que trabalham em uma loja de conveniência e se deparam com uma caminhonete cheia de moedas. É uma farsa absurda no meio do deserto e os gêmeas seguem a aventura aonde quer que ela os leve - apenas para terminar de volta onde começaram.

A energia das irmãs é contagiante, as atrizes são hilárias e tem um timing ótimo que ajuda a desenvolver a trama de uma forma bem leve. Esse é mais um custa do festival SXSW que daria uma ótima série de televisão onde acompanhamos as desventuras dessas duas irmãs e sendo irmã gêmea, achei hilária a cena onde as irmãs são levadas à um bar apenas para gêmeos.

A crítica social por trás é bem sucinta e mostra como enquanto para alguns, moedas são apenas isso, moedas sem muito valor, para outros é uma mina de ouro. Vale lembrar que a trama venceu o prêmio do Júri  do SXSW de Melhor Curta da sessão Midnight! 

NOTA: 8/10

SXSW 2023 | Midnight Short | The Mundanes

 

Por Victoria Hope

Um dos curtas de terror mais inusitados, criativos e surrealistas desse ano no SXSW! Nesse curta conhecemos os Mundanes, uma família suburbana sem rosto com um apetite incomum. Este "Guia para a Família Feliz" é uma homenagem surreal aos PSAs clássicos da América do meio do século.

O filme todo é filmado como se fosse um comercial dos anos 50 sobre as famílias tradicionais brancas americanas daquela década, mas obviamente, a estranheza no ar está presente desde as primeiras cenas onde vemos a mãe, o pai e o filho sem rosto, se alimentando de pedaços de corpos humanos.

Mundanes abre espaço para diversas discussões que vão desde papéis de gênero impostos pela sociedade à monstruosidade imposta justamente pelos padrões. A família tenta se enquadrar naquele padrão de qualquer forma, mas eles não conseguem e nunca poderão ser aquela família de comercial de margarina. Talvez eles queiram fazer parte disso, mas sabe que nunca poderão ser tudo o que sonharam.

NOTA: 8.5/10

SXSW 2023 | Midnight Short | Every House is Haunted

 

Por Victoria Hope

No curta de terror 'Every House is Haunted', o corretor de imóveis disse a eles que a casa era mal-assombrada. Isso não impede que o casal millenial de longa data, Maya e Danny, se mude de qualquer maneira. Tem ótimos ossos, e neste mercado...

Depois de anos de compromisso e perdendo a noção do que ela quer, Maya encontra parte de si mesma que está faltando nos espíritos que ocupam seu novo lar. O curta é um excelente drama sobre o gênero de famílias americanas de filmes de terror, comprando casas mesmo sabendo que tem fantasmas ali.

Todo o conceito de Every House is Haunted é muito original e funcionaria bem como um longa metragem, principalmente se o público pudesse acompanhar maia do dia a dia desse casal convivendo com esses espíritos que rondam a casa, ou quem sabe até uma antologia com outras histórias de casas assombradas e a ligação entre moradores e fantasmas.

Essa é surpreendentemente uma história positiva em alguns momentos, que vai deixar o coração do público quentinho com a mensagem de que nem sempre o que não compreendemos, precisa ser assustador e que após o luto, é possível encontrar felicidade, mas ao mesmo tempo, isso não quer dizer que coisas assustadoras não estão à espreita...

NOTA: 10/10

SXSW 2023 | Short Film | Deliver Me

 

Por Victoria Hope

Jesse, um dos bilionários mais famosos da Terra, é o primeiro humano a clonar e se casar com sucesso. Depois de um ano de casado, Jora, o clone de Jesse, está chegando ao ponto crucial de uma crise de identidade. No dia do aniversário deles, Jesse convida o “seu” melhor amigo Roberto para lhe dar um presente. 

Roberto está apaixonado por Jesse e sofre de um amor não correspondido. A solução de Jesse é presentear Roberto com uma boneca sexual hiper-realista de si mesmo, como símbolo de amizade. A boneca é a gota d'água para Jora, que finalmente decide se revoltar contra a tirania de Jesse, elaborando um plano para finalmente escapar da prisão que chamam de lar.

O curta é genial em mostrar o 'casal' usando uma língua para se comunicar entre si e outras língua para falar com amigos e conhecidos do bairro, incluindo entregadores. Deliver Me é uma incrível metáfora sobre bilionários narcisistas que acreditam que o mundo gira ao redor de seus umbigos e que nada mais importa.

Até mesmo na dinâmica de casal onde os dois são a mesma pessoa, invariavelmente, o 'gênio' criador, colocou em sua cópia a função de 'esposa', fazendo a cópia utilizar vestidos, além de que a cópia possui uma vagina, para uso do criador. Basicamente ele criou um objeto e tratou o clone como apenas um brinquedo, como se o clone não fosse capaz de ter pensamentos, ideias e desejos.

O ator principal entrega absolutamente tudo em sua performance, representando três personagens que apesar de fisicamente serem a mesma pessoa, são extremamente distintos. Enquanto o bilionário é apático, soberbo e frio, seu clone é sensível, emotivo e possui uma fúria inigualável, já o terceiro, é apenas um boneco sexual que sorri e não tem pensamentos próprios.

Além das atuações, um dos pontos altos do filme é a direção de fotografia excelente, que ajuda o público a mergulhar pelo universo desse curta banhado por um cenário paradisíaco e que mesmo lindo, ainda assim, passa a sensação de solidão, muito próximo a como o clone se sente minutos antes de tomar uma atitude que aparentemente mudará sua vida, apenas para se deparar com a triste realidade de que ele estará sempre preso a seu criador e que eles nunca serão iguais aos olhos do bilionário.

NOTA: 9/10

Sundance 2023 | Short Film | In The Flesh

 

Por Victoria Hope

Em 'In The Flesh', Tracey está apenas tentando se masturbar com a torneira da banheira como sempre, quando algumas memórias antigas vêm à tona, os canos explodem com água suja e ela começa a vazar uma gosma preta.

O curta toca num tema delicado, que é o trauma de uma vítima que passou por uma situação de abuso sexual ou estupro e que agora luta pra tentar conseguir sentir prazer de novo sem culpa. A gosma escura que tom conta da tela é uma maneira genial de mostrar 'a sujeira' que as vítimas sentem após os ataques, mas felizmente, nesse filme, a protagonista consegue ter forças o suficiente para encarar seus demônios de frente e destruí-los com as próprias mãos.

Muitas pessoas já passaram por isso, principalmente mulheres, que irão se identificar com a protagonista em momentos onde ela tenta explicar o que está acontecendo para um amigo, mas ele simplesmente ignora e acha que não há nada grave acontecendo. Quantas pessoas já não foram desacreditadas e ignoradas após relatar abusos? 

A referência grega do guerreiro segurando a cabeça cortada de medusa ao derrotá-la é revertida aqui nessa história onde a personagem que representa a metáfora de Medusa, consegue sua vingança contra o homem que a violou e tirou sua paz, arrancando-lhe a cabeça. Agora sim ela está livre daquele peso e que tomava conta de seu corpo e pode seguir em frente. 

Nota: 8/10

Sundance 2023 | Short Film | Unborn Biru


 Por Victoria Hope

Uma viúva grávida rouba prata de um cadáver para sobreviver e alimentar sua filha, mas a prata é amaldiçoada e esse ato trará consequências para todos eles, inclusive para os que ainda não nasceram e afinal todos sabem que não se deve utilizar roupas ou acessórios daqueles que já se foram. 

Além do curta super sinistro abordar práticas milenares, ao passo em que a história se desenvolve, o público começa a perceber que uma das filhas da viúva não é quem parece ser. O que se inicia como uma 'vitória' da mãe, já que agora ela tem dinheiro pra comprar a manteiga que sua filha mais velha tanto queria, gera consequências cada vez mais fatais.

Logo a trama se torna ambígua, não sabemos se a menina mais velha está tomada pela alma do corpo que foi roubado, ou se desde o início, a garota já tinha a intenção de fazer sua mãe sofrer, para que fosse a filha única. O sofrimento final da mãe ao ser arrastada até uma área isolada na neve é de cortar o coração, mas a mensagem final que fica é: Aqui se faz, aqui se paga.

NOTA: 8/10

Sundance 2023 | Short Film | Ricky

 

Por Victoria Hope

No curta Ricky, um ex-presidiário lutando por uma nova liberdade, busca a redenção a todo custo quando recebe um emprego de seu vizinho. Na trama, acompanhamos esse personagem lutar para conseguir a ter sua vida de volta, mas ainda assim, o tempo todo, é possível notar o estado de alerta constante em que o protagonista se encontra e que provavelmente irá manter ao longo da vida.

Em tempos onde o encarceramento de homens negros segue constante, principalmente nos Estados Unidos, o curta busca trazer essa reflexão: Como retomar as rédeas da vida após passar por isso e a trama ainda vai além, pois joga um espelho para a sociedade e examina como ela trata ex encarcerados, como se de alguma forma, negassem a essas pessoas uma segunda chance.

Todos sabemos que Ricky não é mais a mesma pessoa que entrou naquela prisão no passado, pois o sistema deixa marcas que dificilmente o rapaz irá superar. A melancolia no olhar do ator que interpreta o protagonista é um dos detalhes que tornam essa trama ainda mais especial e inesquecível. 


Ricky / Foto: Sundance

Rashad Frett triunfa ao trazer com sensibilidade, elegância e ao mesmo tempo intensidade essa história emocionante, onde o público entende mais ou menos onde é que essa história vai acabar. Assim como o protagonista, o público é posto em uma posição vulnerável, como se o perigo estivesse à espreita, só esperando para que ele 'saísse da linha', a fim de prendê-lo mais numa vez, destruindo seus sonhos e aspirações.

Ricky é essencialmente um filme sobre recomeços, mas na sociedade, quem é que tem a chance de recomeçar? Será que ele poderá retomar sua vida? De certa forma, o curta mostra o quão difícil é se sentir verdadeiramente livre, mesmo quando o personagem está literalmente fora da prisão. 

O final é de uma intensidade impar e é impossível não sentir o coração acelerar com toda adrenalina dos últimos minutos, onde resta ao protagonista fazer uma escolha que mudará sua vida para sempre, mais uma vez. Afinal, será que ele deve manter sua paz, ou será que ele deve fazer a coisa certa e confessar seus erros? Esse é o questionamento final do curta que vai te tirar o fôlego. 

Nota: 9.5/10

Sundance 2023 | Short Film | A Folded Ocean

 

Por Victoria Hope

Um casal se perde um no outro em 'A Folded Ocean'. O público é apresentado a um casal completamente apaixonado namorando ao ar livre e o amor no ar é completamente palpável, já que ambos trocam beijos e mordidas. 

A namorada parece sempre estar preocupada com o celular ao invés de focar 100% no seu namorado que quer mais atenção. Em meio aos beijos e carícias, o casal acorda na manhã seguinte percebendo que seus braços se fundiram e aquilo nunca havia acontecido antes.

Preocupados, eles ligam para a emergência e enviam fotos pelo celular para que médicos pudessem examinar seu caso. Apesar da situação esquisita, a namorada parece gostar de estar tão coladinha com o namorado, que por outro lado, parece desgostoso, enjoado. Entende-se que durante a noite, ambos tiveram o mesmo sonho, mas talvez a namorada queira esconder, pois ela não responde para ele sobre o que sonhou, o que aumenta ainda mais a desconfiança dele.

A Folded Ocean / Foto: Sundance

Quando menos esperam, o casal se funde ainda mais, colando partes do corpo sem perceber, ao ponto em que se consomem por inteiro, virando uma massa corporal muito grotesca. Várias interpretações são possíveis nessa trama, que para muitos, será uma crítica a casais que não se desgrudam e adoram demonstrações públicas de afeto, quando na realidade, apenas estão apenas sufocando um ao outro e ao final ou um casal que se ama muito, mas que sabe que não podem ficar juntos. 

Ao final, o curta deixa o público com vontade de ver um longa metragem sci-fi seguindo a mesma proposta para entender o que aconteceu nos minutos finais da história. A melancolia do final é extremamente pontual e faz o público entender a tristeza que perceber que o amor entre os protagonistas, não é mais o mesmo dos minutos iniciais da história. 

NOTA: 9.5/10

Sundance 2023 | Short Film | Pipes

 

Por Victoria Hope

Bob é um encanador contratado para concertar canos quebrados em um imóvel, mas para sua surpresa, ao chegar no local, assustado ele percebe que na verdade está no meio de uma balada fetichista gay. O curta para maiores de idade é uma graça e mostra como as pessoas pré-julgam a comunidade LGBTQIAP+ antes mesmo de conhecer. Sem saber o que esperar, o ursinho imagina que os convidados da festa irão atacá-lo e obrigá-lo a vestir peças que não quer, além de fazer práticas sexuais contra a sua vontade.

Nada disso acontece, é claro, mas a mente fértil e homofóbica do ursinho, que provavelmente ainda está descobrindo sua sexualidade, acaba fazendo com que ele tenha um ataque de pânico.  É nesse momento que ele é ajudado pelos convidados do clube e percebe que não era um bicho de sete cabeças, pois todos lá não queriam forçá-lo a nada e sim, apenas estavam curtindo a festa entre si.

Pipes abre margem para diversas discussões, afinal, não sabemos a sexualidade do personagem, então sua jornada pela história pode tanto significar a descoberta da própria sexualidade reprimida e a destruição da homofobia internalizada do protagonista, quanto também pode ser uma história sobre um personagem que talvez não pertença a comunidade, mas que agora, ao estar nesse ambiente, entendeu que seu medo de aceitar o diferente, era descabido. 

O curta triunfa ao utilizar as vibes psicodélicas e aproveitar a magia da animação para contar uma história bem adulta sobre auto descoberta e amadurecimento, nos presenteando com um final que é serotonina pura. Bob jamais será o mesmo encanador de antes, mas isso é bom, porque ele finalmente pode ser ele mesmo sem amarras. 

NOTA: 10/10

[Review] The Dress

 

Por Victoria Hope

Solidão, desejo amor e esperança são temas do short 'The Dress', de Tadeusz Lysiak, que está na shortlist do Oscar de 2022. O curta, conta a história de uma faxineira que trabalha em um motel numa área rural da Polônia e que busca por intimidade, mas será que as as visitas repetidas de um caminhoneiro intrigante serão suficientes para tirá-la da solidão? 

Julia, nossa protagonista, rapidamente faz amizade com o caminhoneiro Bogdan. Inicialmente, ela acredita que o rapaz está tentando tirar vantagem dela por conta de seu nanismo, mas o rapaz garante que não se importa com a altura da moça. 

Logo os amigos de Julia percebem a mudança nela, já que ela raramente sorri, mas após sua primeira interação com o caminhoneiro, algo muda dentro dela e percebe-se que há uma pontada de esperança no coração dela.

The Dress / Foto: Tadeusz Lysiak

O filme é um ensaio sobre a vida amorosa de uma mulher que busca não apenas encontrar sua alma gêmea, como também se encontrar e redescobrir e como o toque faz falta, seja de qualquer forma. Enquanto navega por suas próprias descobertas, Julia tenta entender seu papel e como o mundo a vê.

Ao longo da trama, a protagonista se depara com preconceitos e desafios diários que muitas pessoas com nanismo encontram no dia a dia, como por exemplo, encontrar uma roupa adequada e ser tratados como todos os outros clientes, ao invés de ouvir comentários desagradáveis. 

Além desse lado, testemunhamos o próprio preconceito pessoal que Julia tem consigo mesma, não aceitando esse aspecto de sua vida. Ela teme ser vista como um objeto, como algo que ela não é e teme o julgamento dos outros, mas isso é algo que ela trabalha aos poucos no filme.

The Dress / Foto: Tadeusz Lysiak

É impossível não se emocionar com a performance de Anna Dzieduszycka e toda a carga emocional que ela traz para a personagem, de forma visceral, principalmente nos momentos de desabafo de sua personagem sobre como a sociedade e ela mesma, se veem nesse universo de 'The Dress', além da bela relação de amizade entre Julia e Renata (Dorota Pomykała), que entrega uma atuação igualmente emocionante à trama.

Com mensagens de auto amor e respeito estampadas no espelho, Julia consegue encontrar o tão esperado vestido que recebe de sua amiga, para sair com o caminhoneiro e durante o encontro, tudo parece que vai bem, até ela descobrir a verdade sobre aquele rapaz desconhecido, que na verdade, era um monstro disfarçado de 'alma bondosa'. 

O filme termina com um gosto amargo, de que muitas pessoas, principalmente minorias, são vistas apenas como objeto ou fetiche. Essa é a triste realidade a qual Julia terá que confrontar, mas o final aberto, nos faz pensar. Será que Julia irá buscar o amor no fim das contas algum dia? Será que ela está questionando sua sexualidade? São muitas perguntas que com certeza serão preenchidas de acordo com o ponto de vista de cada telespectador.

NOTA: 10/10