Por Victoria Hope
Um verdadeiro banquete para os fãs negros de terror! O excelente documentário canadense “Black Zombie”, de Maya Annik Bedward, explora essa evolução inesperada. A abordagem da diretora não é tanto a de uma fã do gênero, mas sim a de uma antropóloga cultural, que analisa como o zumbi retratado nas telas explorou e distorceu as crenças religiosas haitianas que serviram de inspiração inicial.
Você já se perguntou a origem dessas criaturas comedoras de cérebro? Esse é justamente o tema do documentário que disseca o gênero de dentro para fora, provando mais uma vez que todo terror é político, não importa por qual ângulo se olhe.
Hoje, o entretenimento com zumbis é tão onipresente que abrange produções de grande orçamento como o aclamado filme coreano “Invasão Zumbi”, franquias cinematográficas grandes como “Extermínio”, séries como “The Walking Dead”, entre milhares de outras produções, incluindo a produção teen favorita da Disney, Z-O-M-B-I-E-S.
Frequentemente apresentando cadáveres reanimados que se movem rapidamente, o que torna sua fome por carne viva um perigo ainda maior, essas representações rompem com o padrão consolidado no final do século XX: criaturas lentas, que se arrastam, mas que ainda assim são sedentas por sangue, um modelo estabelecido pelo surpreendente sucesso de 1968 de George A. Romero, “A Noite dos Mortos-Vivos”.
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| Black Zombie / Foto: Prime Video |
Mas nenhuma dessas representações mais modernas se assemelha com a primeira de todas. Tais aparições tinham suas raízes no livro best-seller de 1929, A Ilha Mágica, das várias obras de jornalismo questionável de William Seabrook, escritor e entusiasta de aventuras e do ocultismo.
O autor legava ter visto, nos canaviais do Haiti, trabalhadores que pareciam estar em transe, incapazes de falar e essa ideia de zumbis remonta ao período em que aquela nação caribenha era uma colônia europeia, época em que um grande contingente de escravizados, em sua maioria africanos, era submetido a uma disciplina brutal, sendo, não raro, levados à morte pelo excesso de trabalho imposto por uma minoria de colonos brancos.
Corriam boatos de que alguns eram drogados ou tinham sua "alma subtraída" por outros meios, passando, assim, a trabalhar sem descanso ou qualquer tipo de protesto. Portanto, na cultura haitiana, os zumbis eram vítimas, destituídos de livre-arbítrio por senhores cruéis e até hoje, poucos filmes modernos abordam essas criaturas com compaixão como a descrita pela obra de Seabrook.
O documentário remonta justamente todos esses fatos, ressignificando e recontextualizando o cinema de zumbis bem como o gênero de terror, que até hoje ainda é considerado de todos, um dos meios mais subversivos do sétima arte. Excelente filme para entusiastas que querem entender um pouco mais do gênero através de vozes negras.
NOTA: 9/10

